- Professor Seráfico

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“O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6).



“O meu povo perece por falta de conhecimento” (Os 4,6).

Lula escolheu lançar sua candidatura ao quarto mandato de presidente na Vila Euclides, no estádio 1⁰ de maio, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, onde liderou as grandes greves do final dos anos 70.
Tem muito mais que simbolismo nessa escolha.
Lula resolveu mandar um recado para a esquerda brasileira. Uma mensagem ampla e profunda sobre luta de classes, coerência histórica e compromisso social com a classe trabalhadora e com todo proletariado.
A esquerda brasileira vem num processo de elitização sem precedente na história do Brasil. Claro, a esquerda nunca teve muito espaço para se organizar e disputar poder, mas mantinha nos partidos comunistas um referencial ideológico de classe e de coerência histórica.
Depois da queda do Muro de Berlim e da desintegração da experiência socialista do leste europeu, a esquerda perdeu a quilha. Não sei noutros países, mas aqui no Brasil ela passou a pensar como classe média, ou seja, como uma excrescência histórica e social, já que não tem identidade, sequer cultural.
As centrais sindicais caíram na burocracia, os sindicatos viraram abrigos familiares, a teologia da libertação foi banida da igreja católica e os partidos de esquerda resolveram abandonar a luta social para disputar o poder dentro das regras da classe dominante e do Estado.
O Partido dos Trabalhadores, como maior referência política desse campo, não sabe se acende de dia uma vela para o capital e à noite para o povo necessitado. Não tem mais claro o seu objetivo de fundação e existência. Há mais de duas décadas resolveu abandonar a organização revolucionária para abraçar o "eleitoralismo".
É disso que Lula está falando. É esse o recado para o PT e para toda esquerda. É preciso retomar o caminho da luta social e revolucionária. É preciso organizar a militância para disputar discurso e mostrar para a classe trabalhadora que patrão e empregado são classes sociais antagônicas.
Lula está falando em criar um novo bloco de hegemonia. Ele viu que Congresso Nacional, classe patronal e políticos fisiológicos compõem um bloco de poder da classe burguesa e a classe trabalhadora estará sempre vulnerável enquanto não se construir como poder alternativo e histórico.
O PT não pode seguir o caminho do pensamento pequeno-burguês, como criticava Lênin na formação do POSDR. As lideranças populares não podem ser excluídas e discriminadas pelo elitismo cultural que tenta dar o caminho no partido. É preciso retomar a história de classe e da luta social. O campo da disputa é o histórico, onde eleições são um momento da luta e nunca um fim.
Lula vem criticando esse distanciamento do PT e aproveitou o lançamento da sua candidatura para trazer à memória da militância as lutas operárias que contribuíram para a queda da ditadura militar e para melhoria de vida dos trabalhadores.
Não era de se esperar outra coisa de Lula.
Essa eleição será um momento muito importante para o Brasil, mas é necessário pensá-la como parte de um processo em contrução e não como fim. Se Lula ganhar, será seu último governo e os movimentos sociais precisam aproveitar estrategicamente essa etapa para se reorganizarem, voltando para o meio do povo e sair desse blá blá blá elitizado, que só fala para o próprio umbigo.
Enquanto a sociedade civil não estiver organizada e fortalecida para garantir direitos sociais e políticos, a democracia estará sob ameaça e o retrocesso social uma realidade. O Estado é burguês e nunca irá assegurar os avanços da luta proletária.
Lula percebe tudo isso e está dando o caminho a ser seguido. Vila Euclides é, novamente, palco das grandes decisões.
Lúcio Carril
Sociólogo

O link abaixo levará à sessão de apresentação do filme Mexeu com uma, mexeu com todas. A projeção acontecerá no auditório Osvaldo Coelho, da ADUA-ANDES, dia 25 próximo.