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CAMILO TORRES E PEDRO CASALDÁLIGA: DUAS VIDAS E UMA CAUSA

José Alcimar de Oliveira*


01. Há 60 anos, em 15 de fevereiro de 1966, o jovem sacerdote guerrilheiro colombiano, Camilo Torres Restrepo, nascido em 03 de fevereiro de 1929, tombou assassinado pelas forças de extrema direita do Estado colombiano. Camilo Torres é um precursor da Conferência de Medellin, Colômbia, em 1968, que atualizou para a América Latina as conclusões do Concílio Vaticano II (1962-1965).

02. Camilo Torres, filósofo e teólogo, formado em sociologia na Bélgica, tinha consciência de que, diferentemente da Europa, o grande desafio para os cristãos na America Latina não se dava no plano da ortodoxia (crença verdadeira), mas no da ortopraxia (prática verdadeira). Pensar a fé apartada da vida é fazer coro com o imanente canto infernal dos também imanentes espíritos satânicos.

03. A relação fé e razão, tão cara ao mudo acadêmico, e que atravessou toda a escolástica do Medievo, as teses do iluminismo Moderno e ainda continua a ocupar a agenda intelectual de setores ilustrados à direita e à esquerda, nunca deu nem dará conta dos desafios da vida negada ao povo trabalhador na América Latina. Fé e vida, fé e prática, fé e libertação, fé e revolução, eis uma inflexão incontornável para a práxis de Camilo Torres.

04. Para Camilo Torres, "a revolução não somente está permitida, como deveria ser obrigatória para os cristãos", mormente na América Latina, submetida à necrocracia inerente ao sistema do capital. Aqui morre-se mais e vive-se menos.

05. Neste mesmo fevereiro, no dia 16, em 1928, um ano antes do nascimento de Camilo Torres, nascia na Espanha Dom Pedro Casaldáliga, seguramente um dos bispos mais hostilizados pelo poder do latifúndio e pela ditadura empresarial-militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. De sua área de atuação e de sua frágil compleição física, na então criada Prelazia de São Félix do Araguaia, no centro do Brasil, emanava o grito profético, pastoral e poético de um bispo que denunciou para o mundo a estrutura assassina do latifúndio no Brasil.

06. Dom Pedro Casaldáliga (1928-2020), juntamente com Dom Tomás Balduíno (1922-2014) e outros companheiros da grande luta, estiveram à frente da fundação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), duas frentes orgânicas de defesa da causa indígena e do direito à terra.

07. Celebrar a memória irredenta de lutadores da fibra militante de Camilo Torres, Tomás Balduíno e Pedro Casaldáliga e de quantas e quantos deram suas vidas pelas causas da vida, como é o caso da Irmã Dorothy Stang, é acima de tudo um ato de resistência. Como atesta o camarada Brecht: se o que foi abatido não lutou sozinho, eis um sinal de que o inimigo de classe não pode cantar vitória!

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*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Fevereiro de 2026.

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