Mais uma vez, o sociólogo e professor da UFAM Marcelo Seráfico ocupa nosso ESPAÇO ABERTO. Sereno e fundamentado, o analista político concede o benefício da dúvida e admite boa fé, aos que tendem a correr o risco de entregar o Brasil e suas riquezas a potência estrangeira e pede deles a avaliação das consequências disso, sobre as futuras gerações. Vá ao ESPAÇO ABERTO, confira, reflita e decida!

12 de Outubro de 2026
Eleições 2026 - 13/10/2026
Eu não sou lulista, petista e nem progressista. Eu me considero um socialista, do ponto de vista político-ideológico.
Entendo as pessoas que fazem suas escolhas políticas por conta de eventuais prejuízos pessoais que tenham tido em virtude de decisões dos governantes. Mas não creio que esse deva ser o único, nem o principal critério de escolha quando o que está em jogo é a vida de todas as pessoas e, particularmente, das pessoas mais jovens.
Eu não sou lulista, petista e nem progressista. Eu me considero um socialista, do ponto de vista político-ideológico. Nessa condição, entendo que várias das políticas adotadas pelos governos do PT, apesar de absolutamente necessárias, infelizmente não nos aproximam da sociedade que eu gostaria de ver surgir. Desde 2003, escrevo muitos textos extremamente críticos a determinadas políticas adotadas pelos governantes do próprio PT (Lula e Dilma, mas também aos facínoras Temer e Bolsonaro).
Em 2012 e 2015, o sindicato de que faço parte, o ANDES, fez duas grandes greves denunciando as dificuldades vividas pelo setor da educação que, como o da saúde, são os que mais experimentam os cortes decorrentes da manutenção do "tripé macroeconômico" - câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Esse tipo de política é que leva o Estado brasileiro ao "fiscalismo", política cujo papel é economizar gastos com a garantia dos direitos conquistados e transferir essa "poupança forçada" para os agentes financeiros.
Essa "irresponsabilidade social" é fruto, portanto, da "responsabilidade de classe” assumida por nossos governos com os agentes financeiros. De todos os governos da Nova República, apenas os do PT obtiveram algum sucesso em manter essa política e também buscar ampliar e melhorar as políticas sociais. Eu digo tudo isso porque entendo que essas eleições são cruciais para nosso futuro como país.
Não são eleições normais. Sua excepcionalidade vem do fato de que as duas grandes forças políticas que as disputam são em tudo distintas, mas não por serem polarizações ideológicas e sim por serem polarizações civilizatórias. Lula, desde seu primeiro governo, implementou políticas que podem ser qualificadas como "de centro", isto é, que combinam perspectivas de esquerda e de direita. Jair Bolsonaro e seu filho são de extrema direita, suas visões de mundo e compromissos políticos se inspiram em ideais que também moveram o fascismo italiano e o nazismo alemão.
Eles são representantes políticos de interesses econômicos anti-Povo, daí vem seu autoritarismo e todos os diversos preconceitos que verbalizam e põem em práticas violentas. Eu sou avesso e opositor radical desse tipo de postura e compromisso. Prefiro um governo ao qual possamos fazer críticas, durante o qual poderemos exercer todas nossas atividades sem sermos perseguidos, nos organizarmos politicamente e, eventualmente, também o apoiarmos, do que outro cujas propostas implicam privatizar todos os serviços públicos fundamentais, ser mais uma intendência dos EUA na América do Sul e eliminar e perseguir quem dele discorde.
Logo, nessas eleições precisamos pensar para muito além de nossos interesses individuais, pois o que está em jogo é a vida de todos e todas comprometidos com a construção de um país democrático e justo. Pode-se argumentar que, passados quase 40 anos da redemocratização política, o país ainda não avançou o necessário ma democratização econômica e social, e que mesmo a democratização política permanece limitada.
Isso é verdade. Porém, devemos nos indagar se é possível superar os limites da democracia elegendo pessoas dedicadas à instalação de uma ditadura. O candidato Flávio Bolsonaro, como seu pai, anuncia abertamente essa pretensão. Aqueles que rejeitam que o país seja entregue à forma mais bárbara do capitalismo têm o dever ético e político de evitar esse futuro. Essa barbárie ocorreu nos lugares em que o interesse de uns em acumular riquezas os fez reinventar a escravidão e todas as violências que a acompanharam, necessárias à exploração das colônias.
E ocorreu novamente dentro e fora do território europeu, como na Alemanha nazista, na Itália fascista e na Palestina de hoje, com a brutalidade do Estado de Israel. Portanto, a luta pela eleição de Lula é uma luta, também, por aqueles que ainda não entenderam o que está em causa nessas eleições; por aqueles que, inconscientemente, podem colaborar com seu voto para empurrar o país num abismo social, econômico, político e cultural jamais experimentado no decorrer do Brasil-moderno.
Não estamos falando da possibilidade de instauração de uma ditadura ao estilo de Getúlio Vargas, cuja inaceitável violência se associava à ideia de construção de um país capitalista, industrializado e independente; não estamos falando sequer da ditadura militar instalada em 1964, que abrigava ainda algum nacionalismo e preocupação, legítima ou espúria, com o "desenvolvimento capitalista internacional". Estamos falando da possibilidade de instauração de uma ditadura fascistaentreguista cujo objetivo é transformar o Brasil numa colônia das corporações globais, num campo vasto e abundante para a pastagem das feras enlouquecidas, perversas, do capitalismo global.
A escolha é essa. Nossas experiências pessoais são muito importantes para entendermos o mundo em que vivemos. Mas essas experiências não dizem tudo de nossas relações com as outras pessoas e de nossa sociedade. Por isso precisamos decidir se queremos um país em que possamos nos organizar para lutar por uma sociedade justa, livre e igualitária, ou se queremos uma sociedade submetida ao poder ditatorial, violento, brutal de um grupo de pessoas anti-Povo, comprometido exclusivamente com os interesses dos muito ricos do mundo. No segundo turno vote em quem tem compromisso com a justiça social, democracia, liberdade e igualdade: Lula, 13. Manaus, 12 de outubro de 2026
___________________________
*Marcelo Seráfico (Prof. do Departamento de Ciências Sociais da UFAM)
Era terra somente, agredida
despossuída de valores, degradada
aqui e acolá, sem norte
em indolente, incerta caminhada
jalecos encardidos, mochilas vazias
assemelhavam-se a rebanhos
caminho de previsível morte
Construções erguidas dia-a-dia
cal e pedra, areia e cimento
tijolo, madeira, curiosidade e pensamento
não eram mais que assombros
restos desprovidos de sentimento
peso impossível da carregar nos ombros
na consciência, sabor de falecimento
Onde houvera livros pouco antes
viam-se arrumadas em ordem, unidos
como um dia em Abrantes
luzidios artefatos, trágica ameaça
sem que Dewey tenha posto o dedo
revólveres, bazucas, bombas e que tais
trazendo medo e pavor à raça
Onde havia, tempo propício e recente
fraternidade, empenho, amorosa conduta
buris, cadinhos, buretas, pipetas - e muita calma
substituídas por ordens de vil luta
e - mais grave! - tudo muito urgente
o inimigo identificado naquela gente
a ordem do dia sem sabor e alma
Oxalá os fatos me desmintam breve
em futuro que não trará desgosto
desânimo, tragédia, desesperança e morte
para que tudo se desfaça e nos faça leves
sem o incômodo do arrepio de pelos
depois de noite insone com sabor de agosto
à constatação de que foi simples pesadelo.
