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Marcelo Seráfico e José Alcimar*


Nossos inimigos dizem: a luta terminou. Mas nós dizemos: Ela começou. Nossos inimigos dizem: A verdade está liquidada. Mas nós dizemos: Nós a sabemos ainda. Nossos inimigos dizem: Mesmo que ainda se conheça a verdade, ela não pode mais ser divulgada. Mas nós a divulgamos. É a véspera da batalha. É a preparação de nossos quadros. É o estudo do plano de luta. É o dia antes da queda de nossos inimigos (Bertolt Brecht). É preciso situar a intervenção militar dos EUA na Venezuela como parte de uma tentativa do governo daquele país de reverter o processo de declínio de sua hegemonia global e de instaurar, à força, bélica inclusive, o acesso das corporações que o sustentam às forças produtivas (o trabalho do ser social e os meios de produção) localizadas fora de suas fronteiras. A geopolítica do capital não reconhece fronteiras, nem se impõe limites em sua sede de lucro. A regra é o lucro acima da vida. Em sua fúria venal, opera, como já antevira Marx, pela predação das duas fontes de toda riqueza: a terra (o ser natural) e o homem (o ser social). Sob essa premissa, é possível afirmar que sim, a Pan-Amazônia é uma área estratégica para a dinamização das forças produtivas das corporações capitalistas, pois concentra matérias-primas essenciais à manutenção e ampliação dos processos produtivos e da acumulação de capital. Diante do ritmo acelerado da catástrofe ambiental e da barbárie social produzidas pelo atual padrão de produção e consumo requerido pelo capital, como impedir a ação das garras predatórias da mais poderosa potência bélica do mundo sobre o ser natural e social da Pan-Amazônia? Escrevemos aqui desde Manaus, no centro daquela hoje objetivada pela geopolítica do capital como a mais estratégica região da Terra para os interesses da economia global. Que impasses estão postos para que o acesso a essas forças produtivas se dê? Está bastante clara a existência de impasses de ordem legal, relativos ao direito internacional. Mas sabemos que sob o paradigma do capital direito e justiça não costumam caminhar juntos. O ataque estadunidense à soberania da Venezuela e o sequestro de seu presidente em 03 de janeiro de 2026 demonstram que a gramática do Império opera pela lei da força, jamais da justiça. O Império do Norte decide acima de qualquer sanção, a tudo se permite sancionar. As ameaças, o uso das armas, o apelo ao belicismo, tornam-se os meios preferenciais, senão únicos, com os quais o Império do Norte consegue lidar com governos que não se alinham a suas políticas. Trata-se de um dos últimos recursos políticos depois do fracasso de diversas tentativas de desestabilização e golpe de Estado. Se é assim (e nada indica nenhuma inflexão da rota belicista do sistema do capital sob o controle do Império do Norte no século XXI), o que pode acontecer nos países que detêm em seu território riquezas de interesse estratégico para o processo de acumulação de capital, como é o caso dos países da Pan-Amazônia? Como vários países da região vêm experimentando, devem se manter tanto as iniciativas com vistas a desestabilizar politicamente os governos que reivindicam soberania quanto as estratégias parlamentares de modificação de toda a legislação que ainda preserve algum compromisso com perspectivas soberanas de desenvolvimento político, social e econômico nacionais. Como desconhecer o trabalho sujo do Congresso brasileiro, pautado pela extrema-direita e portavoz afinado dessa agenda regressiva, para destruir a legislação ambiental positivada na Constituição de 1988? Devemos nos lembrar de que o governo da Colômbia vem sendo abertamente ameaçado pelo Sr. Trump. E mais, governos de países situados em outras regiões do globo, detentores de recursos naturais essenciais às corporações de origem estadunidense, também estão sob ameaça sistemática do Império, como recentemente ocorreu com México, Irã, Canadá e Dinamarca. Logo, estamos diante do reequacionamento da geopolítica estadunidense, cujos impactos já são mundiais. Não é difícil imaginar que a resistência dos governos ameaçados implicará o acirramento de conflitos e, eventualmente, a eclosão aberta de uma guerra mundial. Voltando à América do Sul, cabe lembrar que dentro do Brasil há setores políticos amplamente identificados com as aspirações imperiais do governo dos EUA, particularmente aqueles que se identificam com a extrema-direita e a direita. Alarga-se no interior da direita o campo do entreguismo. Com o emudecimento das vozes do nacionalismo, da defesa da soberania, inclusive em setores das Forças Armadas, e por força do discurso ultraneoliberal, da ideologia da negação da ideologia, estamos hoje diante de um nacionalismo reverso, em que o entreguismo se fantasia de verde-amarelo e cultua a bandeira estadunidense. Inauguramos o patriotismo de país estranho e seu portador, o patriota-sacripanta. O que significa dizer que há, no país, setores econômicos cujo projeto político é de instaurar relações coloniais entre o Brasil e os EUA, abdicando de qualquer pretensão de soberania e autodeterminação popular. E mais, países como Equador, Argentina, Peru e Paraguay são governados, hoje, por setores mais ou menos alinhados com essa perspectiva neocolonial, entreguista e lesa-pátria. Isso pode significar que países como o Brasil e a Colômbia, que têm buscado preservar algo de sua soberania, venham a experimentar cada vez mais pressão nas relações com esses vizinhos. Os patriotas-sacripantas dão substância a um Brasil que, nas palavras do saudoso Antônio Callado, não se projeta como nação por não “conseguir sair do ritmo ridículo de país pequeno”. Sendo assim, podemos dizer que a Amazônia, como outras regiões economicamente estratégicas do globo, sendo uma das fronteiras da acumulação de capital em escala mundial, é objeto e pode se tornar palco de conflitos diplomáticos e militares. Se os EUA avançarem nas ações bélicas, há duas alternativas imediatas possíveis: a capitulação, pura e simples, ou a guerra. Mas, se é verdade que as ações bélicas estão ocorrendo em países cujo poderio militar é inexpressivo, diante dos EUA, essas ações atingem interesses econômicos, políticos, culturais e sociais que vêm sendo articulados multilateralmente. Os EUA, essa é a hipótese, estão provocando China e Rússia às armas, pois já perderam a guerra nos campos da economia e da política. O efeito desses atos de violência sobre os interesses comuns de China, Rússia e seus parceiros definirá parte das respostas a serem adotadas pelos países direta e indiretamente agredidos. Como nos diz Paulo Nogueira Batista Jr., “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”, a não ser, para concluir, no quintal habitado por mentes colonizadas. A guerra mundial só tem um interessado: os EUA.

__________________________________________________________________________________*Professores, respectivamente, dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM); janeiro de 2026.

 
 
 

Não sei se viverei os próximos anos, mas me sinto regozijado por estar vendo a queda de um império. É Um caminho inexorável da história.

Com o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos se tornaram absolutos em todo ocidente e mesmo no oriente, já que os países desenvolvidos daquele lado do mundo passaram a rezar na cartilha econômica do Tio Sam.

O sistema econômico mundial, lastreado pelo dólar, começou a ser desenhado e implantado com os Acordos de Bretton Woods, em 1944, ganhando supremacia em 1971, com o dólar deixando de ser convertido em ouro e passando a ser uma moeda fiduciária (a moeda funciona como um banco).

Claro, a força econômica dos Estados Unidos começou no fim do século XIX, com os ventos da Revolução Industrial, mas foi na Segunda Guerra Mundial que o país ganhou poder econômico, vendendo armas e agiotando países envolvidos no conflito.

A superpotência unipolar emergiu em 1991, com a desagregação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o fim da Guerra Fria. A partir daí, os Estados Unidos viraram xerifes do mundo, sem qualquer contestação real.

Como a história não segue uma trilha linear, não demorou para o mundo se reconfigurar num breve espaço de tempo.

O império americano está desmoronando cedo demais. Em poucos mais de um século - contando do final do século XIX - os Estados Unidos deixarão de ser a única potência econômica e tecnológica do mundo. Uma ninharia de tempo em comparação com os 15 séculos de domínio do Império Romano.

A recente agressão contra a Venezuela não está direcionada à pilhagem da maior reserva de petróleo do mundo. Os Estados Unidos são o maior produtor mundial do produto, apesar de ganhar muita grana importando petróleo por um preço e vendendo o excedente por um valor muito maior.

A invasão ao país irmão está dentro da mesma lógica que levou os EUA a invadirem o Iraque e a Líbia e matarem seus líderes. Eles, os Estados Unidos, precisam que o petróleo explorado e produzido no mundo seja negociado em dólar, ou seja, dentro do seu sistema monetário.

Cada dólar movimentado no planeta retorna para o país e fortalece sua economia. Sem as operações com a moeda americana, os Estados Unidos mergulham em crise, com recessão e inflação alta. Cada 0,1% a mais na inflação da maior economia do mundo representa desemprego e descontrole no preço dos alimentos.

O Iraque e a Líbia quiseram criar moedas próprias para comercialização do seu petróleo. O resultado já sabemos. Sadam e Gaddafi foram mortos e seus países destruídos pela guerra e pela miséria.

A Venezuela não pensou em criar moeda própria, mas estava negociando seu petróleo em yuan, moeda chinesa, e em rublo, moeda russa. Pronto. Foi o suficiente para os gringos desesperados repetirem o que fizeram na Líbia e no Iraque. Não mataram Maduro, mas o sequestraram e o meteram numa prisão fétida dos EUA.

A ressurreição da Doutrina Monroe pelo neonazista Donald Trump cumpre o mesmo papel hoje de quando foi criada. Em 1823, foi um recado para a Santa Aliança (Prússia, Áustria, Rússia) e ao império britânico para não se intrometerem na América, pois o continente pertencia aos americanos - leia-se, Estados Unidos.

Esse ato de desespero não encontra guarida nos dias de hoje, mesmo se impondo pela força. Claro, Trump deverá expandir a agressão norte-americana aos países da América Latina e chegará até à Groelândia, mas nada impedirá o que já está em curso: a queda da supremacia unipolar dos Estados Unidos.

O mundo já vem apresentando bons sinais de multipolaridade. A própria agressão à Venezuela mostrou isso, com Estados nacionais de todos os continentes condenando o desrespeito à soberania do país, coisa que não aconteceu em outras invasões americanas.

O sistema monetário dos Estados Unidos já não é o único no mundo. Os BRICs têm um banco fortíssimo, bem administrado pela presidente Dilma Rousseff, e caminham para criação de uma moeda. Os gringos do norte não podem invadir a China, a Índia, a África do Sul, a Rússia e outros países que compõem o bloco.

Trump é um bom agente para acelerar essa queda. Ele é estupido, beligerante e capaz de levar outros países para o novo sistema monetário, econômico e político que surge no planeta.

Como é possível perceber, os Estados Unidos nunca se preocuparam com democracia e bem-estar social. O imperialismo é ladrão, saqueador, opressor e perverso. Sua queda é inevitável.

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*Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

“A questão é simples e incômoda: até onde vai esse roteiro — e o que os países do Hemisfério farão, de forma concreta, para não serem o próximo capítulo?”


Alfredo Lopes - BrasilAmazoniaAgora*


A captura de Nicolás Maduro, narrada como feito militar e celebrada sob a lógica do petróleo e da tutela, expõe um método: a política externa que normaliza a força, banaliza a soberania e transforma países em “ativos” sob administração. Se esse roteiro prosperar, o Hemisfério entra numa era de coerção permanente — com tarifas, ameaças territoriais e “interinatos” moldados pela conveniência do poder.


A força como linguagem


Há fatos que são graves pelo que acontecem — e outros que são ainda mais graves pelo que inauguram. A operação que retirou o ditador Nicolás Maduro de seu território, sob a justificativa de acusações criminais e com descrição pública de “captura” por atores estatais estrangeiros, não se limita ao destino de um homem: ela rebaixa o direito internacional ao papel de adereço.

Quando a superpotência passa a tratar a excepcionalidade como rotina, a pergunta deixa de ser “por que fizeram?” e vira “com que frequência farão?”. Porque o ponto não é apenas o alvo — é o método: criminaliza-se, militariza-se, executa-se; e depois convida-se o mundo a discutir o “depois”, como se o “durante” fosse irrelevante.

O desvario começa exatamente aí: quando a força deixa de ser último recurso e vira primeira gramática. Quando a soberania vira detalhe, e o precedente vira plano.


Petróleo e tutela


O traço mais revelador do episódio é aquilo que não aparece no centro da narrativa: “democracia”, “instituições”, “eleições”, “liberdades”. O eixo, ao contrário, torna-se material: petróleo, administração, controle, reorganização.

A palavra-chave é tutela. Não importa como ela se disfarce — “transição”, “administração temporária”, “estabilização” —, o efeito simbólico é o mesmo: um país deixa de ser visto como sociedade política e passa a ser tratado como território administrável, com ativos reordenados por decisão externa.

Esse é o salto perigoso do século XXI: o protetorado não precisa mais de bandeira fincada; basta a retórica de “governar provisoriamente” e o comando sobre fluxos vitais (energia, sanções, comércio). É colonização em linguagem de gestão. É domínio travestido de “solução”.


O mapa do apetite e o laboratório das tarifas


A captura venezuelana dialoga com outras “gravatas” recentes — Canadá, Groenlândia, Canal do Panamá — porque todas orbitam um mesmo impulso: a geografia convertida em propriedade desejável. Territórios estratégicos, rotas logísticas e recursos naturais e minerais deixam de ser temas diplomáticos e passam a ser peças de pressão.

E, quando a coerção militar se combina à coerção econômica, a arquitetura fica completa. O “tarifaço” de agosto de 2025, no caso brasileiro, foi um ensaio didático de como tarifas podem funcionar menos como política comercial e mais como instrumento de disciplinamento: um mecanismo capaz de premiar alinhados e punir divergentes, ao sabor de humores políticos.

O paradoxo é que esse tipo de poder não busca estabilidade — busca obediência. E obediência não produz parceria: produz volatilidade, ressentimento e corrida por alternativas. A relação Brasil–Estados Unidos, submetida a esse pêndulo, tende a oscilar entre pragmatismo e sobressalto. E sobressalto é o nome elegante de insegurança.


A pergunta que fica


Se um país pode ser “administrado” por outro após uma operação de captura; se territórios podem ser tratados como “necessidades” estratégicas; se tarifas viram chicote político; então estamos diante de uma mudança de era: o poder se apresentando como direito, e a riqueza como destino.

O Brasil, a América do Sul e o mundo não podem responder apenas com indignação episódica. Precisam responder com método: diversificação econômica, blindagem institucional, coordenação regional, e uma diplomacia que recuse a normalização do precedente ou a banalização do mandonismo.


A questão é simples e incômoda: até onde vai esse roteiro — e o que os países do Hemisfério farão, de forma concreta, para não serem o próximo capítulo?


(*) Alfredo é editor geral do portal BrasilAmazoniaAgora

 
 
 
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