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O assunto não é novo, mas me foi suscitado pelo discurso tacanho do prefeito de Manaus ao anunciar sua pré-candidatura ao governo do Amazonas.

Na fala, o prefeito rejeita os "forasteiros" que se tornaram governadores e prefeitos no estado, dizendo que agora quem terá que governar será um amazonense. Falou para enaltecer seu nome, num resgate pueril de velhas campanhas eleitorais, quando os comícios eram feitos à luz de lamparina.

Mas o discurso xenófobo não foi feito por acaso. Ele vem na esteira do neofascismo europeu, apesar do prefeito não ser dado à leitura nem mesmo do antigo almanaque capivarol.

O fascismo clássico surgiu após a Primeira Guerra Mundial, na crista das crises econômicas e no temor ao socialismo na Europa. Alcançou grandes massas com a bandeira do nacionalismo expansionista, combate à democracia, militarismo, racismo biológico, censura e supressão de direitos civis.

Após o mundo ter vivido os horrores do nazismo e do fascismo, a Guerra Fria ter acabado e as revoluções tecnológicas terem criado outros mecanismos de dominação de massa, o autoritarismo tomou outra forma, assumindo novas estratégias de aglutinação popular.

A ameaça agora é externa. São os imigrantes e as minorias étnicas. O nacionalismo não é mais cívico e sim étnico-cultural. Surgiu assim um neofascismo identitário.

O neofascismo tem na xenofobia uma base ideológica, fundada no conflito entre o interno e o externo, sendo este o inimigo a ser combatido. Esse discurso mobiliza muita gente, massas inteiras dos mais diferentes grupos sociais. Quem tira o emprego é o imigrante e não a crise econômica causada pela concentração de renda e desigualdade social. O imigrante é o causador da insegurança e de todos os males da sociedade e não governos incompetentes.

O político neofascista atribui ao imigrante o fracasso causado pelas contradições inerentes à história social de cada país. Ele ataca direitos sociais e o inimigo interno é o sindicato, a associação profissional e as profissões de fé diferente da sua. Não por acaso, a base doutrinária do neofascismo no Brasil é o neopentecostalismo.

Diferente dos nazistas e seus alto-falantes em cada esquina de rua da Alemanha dos nos 30 e 40 do século XX, o neofascista tem hoje as redes sociais e os algoritmos como armas de mobilização de massa. Mas continua fiel aos princípios clássicos do fascismo, espalhando medo, ressentimento e ódio. A violência é simbólica, daí os imigrantes, os homoafetivos, as minorias étnico-culturais e as religiões de outras matrizes que não seja a sua serem alvos de perseguição do seu governo.

Mas assim como o fascismo, o neofascismo tem uma barreira civilizatória: a democracia.

A xenofobia e todos os discursos e práticas de sustentação do neofascismo tendem ao isolamento político e social na proporção que a democracia se fortalece. O sentido de pertencimento deve ser nacional e humanístico, nunca de exclusão e de propagação do ódio. No planeta terra, somos todos seres humanos e o bem-comum é uma busca sem fronteira.


Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

Toffoli não precisa só de um bom advogado, mas de um ficcionista imaginativo, para contar a história do Resort Tayayá


Nelson Motta*


A harmonia e o equilíbrio entre os três poderes são o alicerce da República e da democracia. Mas hoje os três, cada um ao seu modo, estão em busca de mais poder e privilégios para os seus, os três em acelerada decadência ética, marcados por escândalos desmoralizantes. Quem está pior? Executivo, Legislativo ou Judiciário? Quem ganhou mais poder e dinheiro público para gastar com seus interesses eleitorais e pessoais? Quem se deu poder absoluto para julgar e condenar golpistas mas também para usar o STF para perseguir seus críticos e adversários: os que denunciaram relações perigosas de dois ministros com o chefão Daniel Vorcaro e o Banco Master.

Dias Toffoli está atolado até o pescoço na lama de seu resort de 30 milhões comprado por Vorcaro através de fundos de seu cunhado e sócio Fabiano Zettel. Alexandre de Moraes bota a PF atrás de quem vazou os dados de um contrato milionário do escritório de sua mulher com Vorcaro. O problema não é o contrato, mas o vazamento. Quem vazou vai ser preso, quem fez o contrato está liberado.

Com seus altos e baixos, Xandão sempre terá o crédito de defensor da democracia, mas seus abusos de autoridade estão provocando danos a sua biografia, com a revelação de seus encontros com Vorcaro e seus negócios familiares.

Toffoli não precisa só de um bom advogado, mas de um ficcionista imaginativo, para contar a história do Resort Tayayá, um empreendimento milionário construído, diz ele, com honorários ganhos com seu escritório de advocacia antes de entrar para o serviço público, em 2003, na Casa Civil do governo Lula.

Sua carreira começou como assessor jurídico da CUT em 1993 e em seguida da liderança do PT na Câmara. Tentou ser juiz duas vezes e não passou. Na sua nomeação para o Supremo, avalizada por José Dirceu, a exigência constitucional de “notório saber jurídico” foi atropelada pela política para ter não um grande jurista, mas um ministro simpático ao PT e ao governo Lula.

Como ministro, se recusou a se dar por impedido de julgar uma ação do mensalão que tinha como réus José Dirceu e mais 37 petistas. E absolveu todo mundo sem dar satisfação a ninguém. Se considerava imparcial e acima de qualquer suspeita, mesmo que tivesse relação de amizade e proximidade com Dirceu, que o levou para a Casa Civil, a Advocacia Geral da União e ao Supremo.

Governistas e oposicionistas sabem disso. Temos o pior Congresso desde a Constituição de 1988. Pior, é sempre o próximo, conforme a máxima-maldição de Ulysses Guimarães. A diferença é que agora eles movimentam bilhões em verbas federais com suas emendas eleitoreiras, e muitas vezes fraudadas. Com chantagens e armações se apoderaram do Orçamento da União, avançando sobre o poder executivo.

Todo esforço, desde o primeiro dia, deve ser pela reeleição, ou um cargo no governo. E com todo esse dinheiro e mais um bilionário fundo eleitoral terão enorme vantagem nas eleições, e a tendência é se reeleger. E assim, a cada mandato, se eternizam no poder.

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*Nem a propósito, o autor é parceiro da celebrada canção Como uma onda, de Lulu Santos.

 
 
 

José Alcimar de Oliveira*


01. Há 60 anos, em 15 de fevereiro de 1966, o jovem sacerdote guerrilheiro colombiano, Camilo Torres Restrepo, nascido em 03 de fevereiro de 1929, tombou assassinado pelas forças de extrema direita do Estado colombiano. Camilo Torres é um precursor da Conferência de Medellin, Colômbia, em 1968, que atualizou para a América Latina as conclusões do Concílio Vaticano II (1962-1965).

02. Camilo Torres, filósofo e teólogo, formado em sociologia na Bélgica, tinha consciência de que, diferentemente da Europa, o grande desafio para os cristãos na America Latina não se dava no plano da ortodoxia (crença verdadeira), mas no da ortopraxia (prática verdadeira). Pensar a fé apartada da vida é fazer coro com o imanente canto infernal dos também imanentes espíritos satânicos.

03. A relação fé e razão, tão cara ao mudo acadêmico, e que atravessou toda a escolástica do Medievo, as teses do iluminismo Moderno e ainda continua a ocupar a agenda intelectual de setores ilustrados à direita e à esquerda, nunca deu nem dará conta dos desafios da vida negada ao povo trabalhador na América Latina. Fé e vida, fé e prática, fé e libertação, fé e revolução, eis uma inflexão incontornável para a práxis de Camilo Torres.

04. Para Camilo Torres, "a revolução não somente está permitida, como deveria ser obrigatória para os cristãos", mormente na América Latina, submetida à necrocracia inerente ao sistema do capital. Aqui morre-se mais e vive-se menos.

05. Neste mesmo fevereiro, no dia 16, em 1928, um ano antes do nascimento de Camilo Torres, nascia na Espanha Dom Pedro Casaldáliga, seguramente um dos bispos mais hostilizados pelo poder do latifúndio e pela ditadura empresarial-militar que governou o Brasil de 1964 a 1985. De sua área de atuação e de sua frágil compleição física, na então criada Prelazia de São Félix do Araguaia, no centro do Brasil, emanava o grito profético, pastoral e poético de um bispo que denunciou para o mundo a estrutura assassina do latifúndio no Brasil.

06. Dom Pedro Casaldáliga (1928-2020), juntamente com Dom Tomás Balduíno (1922-2014) e outros companheiros da grande luta, estiveram à frente da fundação do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), duas frentes orgânicas de defesa da causa indígena e do direito à terra.

07. Celebrar a memória irredenta de lutadores da fibra militante de Camilo Torres, Tomás Balduíno e Pedro Casaldáliga e de quantas e quantos deram suas vidas pelas causas da vida, como é o caso da Irmã Dorothy Stang, é acima de tudo um ato de resistência. Como atesta o camarada Brecht: se o que foi abatido não lutou sozinho, eis um sinal de que o inimigo de classe não pode cantar vitória!

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*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Fevereiro de 2026.

 
 
 
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