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Decepção ou surpresa não são sentimentos razoáveis, aos que chegam à oitava década de vida. Ao menos que a tenham passado indiferentes às circunstâncias que lhes são impostas, muitas das quais com sua própria contribuição. Todo homem é ele e sua circunstância, já disse Ortega Y Gassett. Há, contudo, sentimento que sempre nos desafia a fazê-lo menor - e as circunstâncias não o deixam. É o da indignação, ausente apenas nos que não a veem vinculada ao substantivo abstrato dignidade. Boa parte da sociedade com a qual convivemos, se a ouve sair da boca de algum circunstante, logo a estranhará. Por sua cabeça nunca passou uma gota que for desse sentimento cada dia mais escasso. Se já foi dito que a História é a mãe da verdade, a depositária das ações, a testemunha do passado, a vida da memória e o anúncio do presente, sempre haverá os que não se dão conta disso. Ao menos para contraditar o pensamento de Cícero. Verdade, como se sabe, é artigo raro no mercado, onde as mais torpes mentiras passam a ser a moeda de troca mais usada. Assim a realidade que as ações e condutas humanas tentam impor choca-se com aquela experimentada pelos contemporâneos dos mentirosos. Sobre o passado, mais se passam panos, como se as personagens de nossa tragédia devessem polir os malfeitos cometidos ao longo de infausta e mal conduzida trajetória. Tenta-se apagar a memória dos outros, menos porque sejam levantados e defendidos argumentos, mas porque - a repetir o exilado em Elba, Napoleão - já foi dito que a melhor defesa é o ataque. Quando a nudez do rei é descoberta, há os que fecham os olhos para não contemplar o patético espetáculo. O presente, mero traço de união entre o ontem e o hoje, poucos percebem esgotar-se no mesmo instante em que a sílaba te é pronunciada. Aí, então, os destituídos de dignidade frequentam apenas o passado e não conseguem impedir sua nudez, integral e absoluta. É disso que tratam dois episódios inscritos no drama por que passamos todos, neste meio do 26º ano do século XXI. O primeiro deles, tendo o Congresso como palco, sob o olhar atento dos que fazem da miséria material o repasto onde são satisfeitas suas carências morais. As alegações hostis à superação da escala 6 X 1 apenas repetem, repulsivamente, pretextos cuja falta de fundamento está sobejamente provada. A visita do zero-hum-esquerda, se não foi para pedir apoio político do governante de uma nação estrangeira, para que terá sido? Para acertar a forma de abrir nossas reservas de terras raras à gula dos investidores e guerreiros daquele País? Ou pedir que Trump aproveite a pretendida e preparada invasão de Cuba e ponha seus marines a atuar em outra frente, as costas do Brasil? Não falta motivo para indignação. Aos que são dignos...

 
 
 

On-line, como recomendam a distância entre os participantes e os custos para superá-la, os integrantes do Núcleo de Estudos de Administração e Pensamento Social Brasileiro- ABRAS, reúnem-se às 17:00 de hoje. Vinculado à Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense-UFF, o núcleo é integrado por professores, mestrandos, doutorandos e pesquisadores de diversas instituições de ensino superior. Dentre as iniciativas do ABRAS, a outorga do título de Intérprete do Brasil, atribuído a personalidades destacadas do mundo acadêmico e artístico, em algum momento (muitos, por toda sua vida) empenhadas em estudar e compreender a realidade em que vivemos. Também é anual a atribuição do título de Pesquisador Emérito àqueles profissionais que contribuem para o mesmo objetivo e tentam resgatar a importância do trabalho coletivo, aquele que justifica o surgimento, o funcionamento e a manutenção das organizações. Estas, tidas como o campo em que atuam grupos de pessoas, objetivando alcançar resultados transformadores da realidade. Seja pela superação dos problemas e dificuldades enfrentados no dia-a-dia das organizações – públicas, privadas e da sociedade civil, em todos os setores -, seja pela pesquisa e a interpretação das organizações em seus mais diversos aspectos. Só isso – não houvesse mais a justificá-lo, bastaria para reconhecer no Núcleo o esforço por superar as práticas insuficientes na administração, fazendo-a reinserir-se no campo das preocupações e do conhecimento humanos. Uma espécie de empenho na reiteração da Administração, como campo de estudos e ações, parte das que chamamos Ciências Humanas, não exatas, como o são a Matemática, a Física e a Estatística. Nem biológica, como a Química, a Medicina e tantos outros caminhos da Ciência. Darcy Ribeiro, Celso Furtado e outros estudiosos receberam o título de intérpretes, como o têm sido alguns artistas que põem sua sensibilidade a serviço da compreensão e expressão da realidade brasileira. Assim, Pixinguinha e Vinícius de Moraes também são considerados Intérpretes do Brasil, dentre tantos outros igualmente distinguidos compatrícios. Este ano, o colegiado escolheu o geógrafo Mílton Santos cuja vida foi marcada pelo estudo da terra e do homem brasileiros. Vários capítulos do ABRAS funcionam no País, constando dos objetivos da atual coordenação (Professores Paulo Emílio Matos Martins-UFF e Gustavo Costa, vice-coordenador-UEMA) a instalação, sob o abrigo das universidades públicas, de capítulo devotado à meritória proposta que o ABRAS encerra. Na reunião de hoje, será dado o passo inicial da programação destinada a reverenciar o trabalho do geógrafo baiano e deixar marcada na memória da sociedade brasileira a excelência de seu trabalho.

José Seráfico

Decano dos pesquisadores e coordenador do capítulo Amazônia, Manaus-AM.

 
 
 

Coube ao jornalista Otávio Guedes, do GloboNews, definir a relação de Lula e a sociedade brasileira. Em especial, os que o têm levado à rampa do Planalto, desde 2002. Seu primeiro mandato, respaldado pela esperança que vencera o medo, anunciou tempos novos e, em consequência, diferentes das experiências vividas sob José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Vencido o primeiro mandato, a tentativa de resgatar a dívida cuidadosamente construída e mantida chegou a resultados que produziram novo mandato. Algo terá avançado, portanto, relativamente às promessas de campanha e à geração de expectativas voltadas àquele resgate. A saída de Lula, no auge de popularidade, assegurou a eleição de Dilma Rousseff. Esta, cuja sagacidade passou ao largo dos cálculos de seu padrinho, nem por isso terá absorvido dele a mesma habilidade e o mesmo prazer que, segundo Ulysses Guimarães, alimenta o político. O golpe que a derrubou, arquitetado ao redor do gabinete presidencial, estremeceu as bases em que se sustentou Lula, nos dois mandatos sucessivos. Ao invés de fazer a autocrítica necessária, Lula deixou-se empolgar pela popularidade de que desfrutava, cumprido seu segundo mandato. Era hora, porém, de analisar o Brasil embalado por seu discurso e as propostas que ele logrou executar, comparado ao Brasil aviltado pelo golpe de Michel Temer e sua chusma. Sobretudo diante do crescimento da direita, mundo afora, e seu impacto sobre os reacionários brasileiros, seria necessário voltar às bases, aqueles segmentos sensíveis aos valores e necessidades defendidos pelo Partido dos Trabalhadores. Afinal, se a esperança havia vencido o medo e instalado no Planalto um operário, não havia razão nenhuma para abandonar as teses e ações que anunciaram no PT a chegada a um novo tempo. Há 10 anos, a agressão ao Estado Democrático de Direito fez mais que derrubar Dilma. O golpe repercutiu, sobretudo, na relação do próprio Partido dos Trabalhadores com as bases - e a esperança - sociais que o têm sustentado. Ontem, mais do que hoje. Daí vem a expressão do jornalista Otávio Guedes, que chega a ser poética, ao lembrar Caymmi, em sua imortal canção Marina - de mal com vocêê, de mal com vocêê...

 
 
 
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