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Os conservadores devem esfregar as mãos, diante do inenarrável acontecimento. As investigações da Polícia Federal são o motivo do júbilo que os produtores e beneficiários da desigualdade experimentam. Quando se ia consolidando a quase inevitável reeleição de Lula, eis que explodem minas instaladas no espaço político do Presidente da República. Um caso típico de fogo amigo, capaz de forçar a busca do tão sonhado candidato alternativo às duas hipóteses postas na mesa do jogo eleitoral. Não que Lula desagrade a todos os que desejam conservar a desigualdade, tanto eles se têm beneficiado. Imaginar que a Faria Lima espouca champanhe e solta foguetes não é ir longe demais. A captura do estado pelos acumuladores de sempre tem poucas chances de ser substancialmente alterada, mas com Lula a velocidade da acumulação e a voracidade dos que só fazem acumular tornaram-se menores. Mais gente passou a consumir, é desprezível o índice de desemprego, a Polícia Federal voltou às suas funções de Estado. Ou seja, os requisitos de uma verdadeira democracia vêm sendo cumpridos. Isso, manda a História observar, desagrada aos acumuladores e aos que lhes prestam serviço. Está-se portanto, diante de outra oportunidade que bem poderia ser sintetizada pela imagem da letra Y. O caminho bifurca-se, seguindo a polarização tantas vezes mencionada, mas raramente entendida. Ou aproveitamos para reeleger Lula e dar a ele a oportunidade de avançar na redução da desigualdade ou as elites encontram seu delegado, quem sabe até dentro da turma que Vorcaro mantém ao seu redor. De resto, a certeza de que ao eleitor sempre caberá escolher entre o sonho e a cumplicidade. Colocar no Planalto seus próprios algozes e respectivos cúmplices, ou manter Lula e lhe oferecer a maioria parlamentar constitui o dilema. Que só aoeleitor cabe desfazer.

 
 
 

A encíclica Magnifica Humanitas, a primeira assinada pelo atual chefe da Igreja é objeto de comentário do jornalista, advogado e membro da Academia de Letras do Pará, Walbert Monteiro. Lê-la, acima de um dever dos que professam o catolicismo, será a oportunidade de conhecer a orientação pastoral do sucessor de Francisco.

 
 
 

Walbert Monteiro*


O primeiro documento posto a lume pelo atual Sumo Pontífice foi a nota doutrinária "Mater populi fidelis" elaborada ainda no pontificado de Francisco, mas publicada com a chancela do papa Leão XIV, discorrendo sobre a pretensão do quinto dogma mariano (corredenção de Maria). Mas, sua primeira Encíclica - Magnifica Humanitas – publicada em 15 de maio, homenageia o 135º aniversário da “Rerum Novarum”, notável documento da Igreja Católica, da lavra de seu predecessor Leão XIII, base da formulação de toda a Doutrina Social da Igreja, que formou o posicionamento doutrinário do catolicismo em plena era da revolução industrial, na defesa, sobretudo, da dignidade do trabalho humano. Ela vem reforça-la, de forma soberba, neste novo tempo marcado pela revolução digital e pela expansão da Inteligência Artificial. Contudo, uma leitura superficial poderia levar alguns a imaginar que o Pontífice assume posição de condenação da tecnologia. Nada mais distante da realidade, porque, em suma, ela deseja ser um marco de equilíbrio entre inovação e a ética.

Não estou sendo original ao afirmar que a recepção pública de um documento de repercussão mundial, como soe ser uma Encíclica, depende sempre de sua leitura integral e confirmação documental precisa, mas ouso afirmar que, a começar pelo título “Magnífica Humanidade”, ela já indica ser uma das intervenções mais oportunas que o pontificado de Leão XIV poderia oferecer neste tempo presente, na reafirmação serena, mas duramente exigente, do respeito à dignidade da pessoa humana, em uma atitude de resistência moral e espiritual a um mundo que, de uma forma geral, passou a medir quase tudo em função de desempenho, utilidade, visibilidade e poder de consumo, desprezando, por assim dizer, a essência do ser humano.

O eixo da proposição de Leão XIV, em minha humilde análise, está na recusa tanto do pessimismo que descreve o homem como ruína inevitável, quanto do entusiasmo ingênuo que o transforma em medida absoluta de si mesmo. A tradição cristã sempre caminhou por uma via mais lúcida, focada em reconhecer a grandeza da criatura humana, sem ignorar sua vulnerabilidade. Embora proclame sua altíssima vocação, não fecha os olhos ao drama do pecado, da injustiça e da autossuficiência. O homem é magnífico, sim — não porque se baste, mas porque foi querido por Deus, chamado ao amor, à verdade e à comunhão.

Essa visão faz falta em nossos dias. A técnica avança com impressionante velocidade, mas nem sempre o mesmo acontece com a consciência ética. Multiplicam-se recursos, plataformas, algoritmos e instrumentos de influência, enquanto cresce, ao mesmo tempo, uma estranha fadiga civilizatória. Já escrevi, em textos de reflexão sobre o Evangelho, que vivemos em uma época onde existe mais conexão e menos encontro; mais exposição e menos interioridade; mais opinião e menos sabedoria. No contexto atual, uma palavra forte da Igreja sobre a pessoa humana não possui só o caráter religioso: tem influência cultural, social e até civilizacional. Defender o humano tornou-se uma tarefa urgente.

O documento não demoniza a Inteligência Artificial. Ao contrário, reconhece explicitamente suas potencialidades e benefícios para a humanidade. Nos itens 97, 98, 99 e, de maneira particularmente clara, no item 100, o Papa adota uma postura equilibrada, serena e bem realista. A IA é apresentada como uma ferramenta capaz de oferecer contribuições relevantes ao desenvolvimento humano, ao acesso ao conhecimento, à organização de informações e ao auxílio em inúmeras atividades da vida contemporânea.

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*Jornalista e escritor, membro da Academia de Letras do Pará. Publicado em O Liberal, Belém-PA, em 18-06-2026.

 
 
 
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