Magnifica Humanitas: um alerta contra a desumanização, não contra a inteligência artificial - I
- Professor Seráfico

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Walbert Monteiro*
O primeiro documento posto a lume pelo atual Sumo Pontífice foi a nota doutrinária "Mater populi fidelis" elaborada ainda no pontificado de Francisco, mas publicada com a chancela do papa Leão XIV, discorrendo sobre a pretensão do quinto dogma mariano (corredenção de Maria). Mas, sua primeira Encíclica - Magnifica Humanitas – publicada em 15 de maio, homenageia o 135º aniversário da “Rerum Novarum”, notável documento da Igreja Católica, da lavra de seu predecessor Leão XIII, base da formulação de toda a Doutrina Social da Igreja, que formou o posicionamento doutrinário do catolicismo em plena era da revolução industrial, na defesa, sobretudo, da dignidade do trabalho humano. Ela vem reforça-la, de forma soberba, neste novo tempo marcado pela revolução digital e pela expansão da Inteligência Artificial. Contudo, uma leitura superficial poderia levar alguns a imaginar que o Pontífice assume posição de condenação da tecnologia. Nada mais distante da realidade, porque, em suma, ela deseja ser um marco de equilíbrio entre inovação e a ética.
Não estou sendo original ao afirmar que a recepção pública de um documento de repercussão mundial, como soe ser uma Encíclica, depende sempre de sua leitura integral e confirmação documental precisa, mas ouso afirmar que, a começar pelo título “Magnífica Humanidade”, ela já indica ser uma das intervenções mais oportunas que o pontificado de Leão XIV poderia oferecer neste tempo presente, na reafirmação serena, mas duramente exigente, do respeito à dignidade da pessoa humana, em uma atitude de resistência moral e espiritual a um mundo que, de uma forma geral, passou a medir quase tudo em função de desempenho, utilidade, visibilidade e poder de consumo, desprezando, por assim dizer, a essência do ser humano.
O eixo da proposição de Leão XIV, em minha humilde análise, está na recusa tanto do pessimismo que descreve o homem como ruína inevitável, quanto do entusiasmo ingênuo que o transforma em medida absoluta de si mesmo. A tradição cristã sempre caminhou por uma via mais lúcida, focada em reconhecer a grandeza da criatura humana, sem ignorar sua vulnerabilidade. Embora proclame sua altíssima vocação, não fecha os olhos ao drama do pecado, da injustiça e da autossuficiência. O homem é magnífico, sim — não porque se baste, mas porque foi querido por Deus, chamado ao amor, à verdade e à comunhão.
Essa visão faz falta em nossos dias. A técnica avança com impressionante velocidade, mas nem sempre o mesmo acontece com a consciência ética. Multiplicam-se recursos, plataformas, algoritmos e instrumentos de influência, enquanto cresce, ao mesmo tempo, uma estranha fadiga civilizatória. Já escrevi, em textos de reflexão sobre o Evangelho, que vivemos em uma época onde existe mais conexão e menos encontro; mais exposição e menos interioridade; mais opinião e menos sabedoria. No contexto atual, uma palavra forte da Igreja sobre a pessoa humana não possui só o caráter religioso: tem influência cultural, social e até civilizacional. Defender o humano tornou-se uma tarefa urgente.
O documento não demoniza a Inteligência Artificial. Ao contrário, reconhece explicitamente suas potencialidades e benefícios para a humanidade. Nos itens 97, 98, 99 e, de maneira particularmente clara, no item 100, o Papa adota uma postura equilibrada, serena e bem realista. A IA é apresentada como uma ferramenta capaz de oferecer contribuições relevantes ao desenvolvimento humano, ao acesso ao conhecimento, à organização de informações e ao auxílio em inúmeras atividades da vida contemporânea.
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*Jornalista e escritor, membro da Academia de Letras do Pará. Publicado em O Liberal, Belém-PA, em 18-06-2026.


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