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A dupla conquista do cinema brasileiro, na versão 2026 do Globo de Ouro, deixou a direita com a cabeça inchada. Não bastou a premiação do Oscar 2025, agora a chamada sétima arte mantém o Brasil no topo da produção cinematográfica. Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura representam não apenas o talento pessoal de que são detentores, mas quanto vale o engajamento na luta pelos direitos humanos e a resistência aos governos autoritários. Exatamente o que causa urticária e crises aos portadores do complexo de vira-latas. Enquanto eles latem, a arte brasileira se faz melhor.

 
 
 

Agradeçamos o gesto do que os media chamam parte do setor produtivo. Por enquanto, o envolvimento de representantes desse setor em todo ato de corrupção conhecido não tem sido levado na sua devida conta. Sabe-se de magistrados compulsoriamente aposentados, ainda que de forma que sugere mais a premiação que o apenamento. Sabe-se, também, da cassação de mandatos parlamentares e da demissão de servidores públicos comprovadamente envolvidos nas mais variadas e criativas formas de corrupção. Só agora, porém, se sabe de um gesto do segmento com que convivem os corruptores, até aqui sempre deslembrados, por mais rigorosa que seja a investigação. Ignora-se, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, de qualquer deles que tenha sido excluído dos órgãos em que têm registro e assento, embora influentes nas decisões oficiais. Se a participação nas decisões governamentais – o que implica dizer, no Legislativo e no Executivo – é saudável e própria da república e da democracia, a contumácia com que praticam ilegalidades deve merecer a mesma repressão sofrida por outro tipo de marginais. O que essa parte citada pelos media deseja é ver punidos os que fazem da sonegação e crimes assemelhados uma forma de acumulação tão lesiva quanto o é a exploração do trabalho alheio, concomitante com a omissão nas obrigações fiscais e tributárias. É corrente nos meios empresariais a sentença: a primeira resposta às dificuldades financeiras é o descumprimento das obrigações tributárias e fiscais. Isso tudo, quando se exaltam e proclamam as virtudes da gestão racional dos negócios, com a intenção desonesta de gerar impressão negativa da administração pública. Nada mais, nada menos que criar ambiente hostil a iniciativas destinadas a beneficiar a coletividade, sobretudo as camadas mais pobres da população. As que pouco têm a oferecer aos sonegadores. Se eles são contumazes, então a reincidência é prática rotineira, o que bastaria para pesar a mão do estado, como resposta. De qualquer maneira, soa alvissareiro o anúncio de que parte, menor que seja, desses aventureiros que rejeitam o risco, sempre conseguindo transferir seus raros prejuízos a terceiros aos quais prometem o céu na Terra, deseja ver punidos os sonegadores.

 
 
 

Voltaram a circular nas redes apelos para o Brasil entrar na corrida armamentista. Mais especificamente, pressões sobre o governo brasileiro, até nos inscrevermos no clube atômico. Trocando em miúdos: a detenção, pelo Brasil, de arsenal nuclear. Isso, advogam alguns setores, notadamente dentro das forças armadas, intimidaria os agressores de que Donald Trump é o líder e exemplo. Confesso ter alimentado, durante algum tempo, a mesma ilusão. A vida me tem ensinado, porém, que o primeiro - e talvez o último, também - resultado seria aumentarmos o risco de uma nova guerra atômica. Desta vez, funcionando o feitiço contra o feiticeiro. Nossa inscrição no clube atômico traria com ela a colocação do País na linha prioritária dos alvos. Fortaleceram-se em mim, pelo menos, os temores e a rejeição a soluções que extrapolem o processo democrático. O que significa dizer, fora ou acima do ordenamento jurídico próprio do Estado Democrático de Direito não é mais que o retorno à barbárie. Tornei-me um pacifista convicto, menos porque avanço na medida do calendário, mas sobretudo porque os dias, um-após-outro, me têm ensinado. Incluem-se nas lições aprendidas, a que me revela a total impossibilidade de algum governo ou alguém dar o que não tem. O que combina com a certeza de que a quem falte humanidade ou sentimento digno dela, a morte precede e se sobrepõe à vida. Uma terceira convicção refere-se à compensação encontrada nas armas pelos que se sentem humanamente inferiores e covardes. Cultivemos o uso da palavra, sobretudo os que proclamam no princípio etanol verbo.

 
 
 
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