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Com grande comprometimento da mobilidade dos membros superiores, o editor é forçado a reduzir suas atividades. Escrever à mão ou digitar em teclados enchem-se de riscos. Por isso, o pedido de desculpas aos leitores habituais e visitantes eventuais. Ainda bem que posso fazer meus certos textos, como o que vai postado no ESPAÇO ABERTO. Nele, Reinaldo Azevedo mostra o verdadeiro sentido da eleição presidencial de outubro.

 
 
 

Walbert Monteiro*


Esse texto, apesar da citação de S. Lucas, não foi feito com objetivo religioso, pois seu autor era agnóstico. Há, contudo, uma convergência com o Evangelho, quando Chaplin faz a defesa da fraternidade, da misericórdia, da paz e da dignidade humana, que são valores cristãos. A diferença é que, para a fé cristã, esse ideal têm sua origem no próprio Deus, que criou todos os homens com igual dignidade e os chamou a viver como irmãos.

É impactante a exortação que faz à tropa: “Soldados! Não vos entregueis a esses brutais ... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar ... os que não se fazem amar e os inumanos. Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos”.

Ao final, Chaplin diz: “Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!”

"Hannah" é a jovem judia interpretada por Paulette Goddard. Ela representa todas as pessoas simples, perseguidas e sofredoras que mantêm viva sua esperança mesmo em dias de opressão. Hannah é o símbolo da humanidade oprimida. Quando Chaplin pede que ela "levante os olhos", é como se dissesse: não desista, porque a escuridão não terá a última palavra. Lembra o permanente chamado bíblico à esperança. Nas Escrituras, Deus convida seu povo a erguer os olhos e confiar que o mal e a injustiça não terão a vitória definitiva. Hannah é a mãe que perdeu um filho, o refugiado que busca um lar, a vítima da intolerância, o pobre, o perseguido, enfim, todo ser humano que clama por justiça.

O discurso nos recorda que nenhuma sociedade será grande se perder a capacidade de amar e de respeitar. A verdadeira vitória será dos que assim procederem. O texto é um exame de consciência coletivo que nos indaga que tipo de mundo estamos construindo. A grandeza de uma civilização não se mede pelo autoritarismo, mas pelo respeito ao povo e às instituições.

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*Jornalista e escritor, é membro da Acadêmia de Letras do Pará

 
 
 

Walbert Monteiro*


Não sei há quanto tempo adquiri e mandei emoldurar o texto de Charlie Chaplin – “O último discurso” - que é a antológica cena final do filme O Grande Ditador (1940), que foi dirigido e estrelado por ele. O quadro, atualmente, é um dos ornamentos de minha sala de estar, em Salinas, ao lado de uma composição de extraordinárias fotos do genial Luiz Braga e de uma gravura do não menos icônico Augusto Morbach (Cangaceiros, 1976). Muito antes de ter iniciado o meu processo de retorno ao catolicismo o conteúdo desse “discurso” constituía uma espécie de ideário reflexivo, quando estava no verdor dos anos 30 e nutria sonhos políticos (que foram abortados nas eleições municipais de 1992, quando o eleitorado não me quis como vereador).

Era marcante, para mim, a fala inicial: “Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio ... negros ... brancos. Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Não pode haver dúvida de ser esta uma das mais vigorosas manifestações humanistas já produzidas pelo cinema. E, no contexto da trama, esse discurso não é pronunciado por um personagem poderoso. A oração é de um homem comum que, por uma sucessão de acontecimentos, tem diante de si a oportunidade de falar ao mundo. E, quando fala, faz uma reflexão sobre a dignidade humana.

Vale destacar que o texto foi escrito às vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando o totalitarismo parecia avançar de forma irresistível. Chaplin percebeu, antes de muitos, que o maior perigo, além das armas e da escalada da violência, estava na desumanização. A crítica não é dirigida somente aos ditadores. Seu endereço é a toda sociedade que permite que o poder, a intolerância e o ódio substituam a compaixão e a liberdade.

Chaplin adverte que a humanidade desenvolveu máquinas capazes de encurtar distâncias, ampliar conhecimentos e multiplicar riquezas, mas extrapolou nos desafios éticos: a ganância, o egoísmo, a manipulação e o desprezo pela vida humana ganharam dimensões inimagináveis. Quando o homem perde a capacidade de enxergar o outro como irmão, qualquer avanço material torna-se desprezível.

A dimensão comportamental da mensagem está no convite que Chaplin faz a cada pessoa para que assuma sua parte na responsabilidade que todos temos pela construção de um mundo melhor. É um discurso que não alimenta esperanças de que a mudança venha exclusivamente dos governantes ou das instituições, mas aposta na possibilidade de que possamos recomeçar mudando a maneira como tratamos os outros, enfrentamos as injustiças e preservamos a liberdade.

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*Jornalista e escritor, membro da Academia de Letras do Pará

 
 
 
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