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A dignidade é concreta. Ela envolveu o espírito a partir da cultura. Seu simbolismo é real.


Pode ter nascido de um exemplo do pai, da mãe, do irmão. Também pode ter sua origem no amigo, no indivíduo admirado, na mulher amada.


Ela não é natural, nem puramente moral; surgiu das relações humanas e está imbricada em todos valores construídos.


É maior do que todos os outros, pois não existe amor, honra, lealdade, raiva, vingança, sem dignidade. Ela impõe limites nas ações e resguarda a autoestima.


Não ter dignidade também é cultural. Toda manifestação infame é também indigna; todo sentimento pequeno se fez da indignidade.


Ser digno é ter na alma o perfume suave de uma flor de cerejeira; é ser terno como um soneto de amor de Neruda; é ser forte como um aroma de jasmim.


A dignidade está em cada gesto, em cada olhar do mundo e tem a força transformadora. É preciso ser digno para mudar.


Os indignos costumam morrer rastejando na lama, sem nunca achar a água límpida da dignidade.


É preciso ser digno para construir o amor e a felicidade. É preciso ser digno para amar o outro e o outro também tem que buscar a dignidade para amar o outro.


Somente o ser digno se indigna com a miséria e com a injustiça. Os indignos a constroem.


É com dignidade que sigo minha vida.


Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

Dita por um petista fanático ou divulgada por alguma pena de aluguel, a informação causaria um impacto. Reconhecida por fonte avessa muitas vezes até à verdade, o impacto é outro. Refiro-me ao reconhecimento, pelo Estadão (edição de 17-02-2026), de que será possível ao governo cumprir as ordens do Banco Central, quanto à meta da inflação, 3%. O reconhecimento representa, também, rendição à realidade de hoje, substancialmente diferente do período 2019-2022. A menção à baixa no preço dos alimentos, à valorização do real e outras decisões do Planalto tem sabor d rendição. Até quando - e por quais razões? É o que se saberá depois.

 
 
 

Um dos grandes males que parece carregar nossa cultura diz respeito à promiscuidade em que se incorre, sempre que se torna difícil superar os problemas. Não é preciso ir muito longe, para perceber quanto essa condição compromete o alcance dos objetivos a que se destina a União, para citar apenas o artigo 3º da Constituição Federal. A carência registrada no discernimento e no interesse das autoridades (incluam-se Legislativo, Executivo e Judiciário), traduz-se em criações afrontosas à república, dando margem à pergunta para a qual ainda não se encontrou resposta adequada: quem controla os controladores? Dois exemplos contundentes ilustram e dão fundamento à indagação. O primeiro deles, a visão destorcida (propositalmente?) das funções do Tribunal de Contas, no âmbito da União e e seus correspondentes estaduais. A começar do nome dado a esse conselho, envereda-se em cipoal no mínimo marginal à pretensão republicana. Se não pertence ao Poder Judiciário, como todos sabem, é no mínimo leviano atribuir aos TCs nome sugestivo do exercício de funções da judicatura. À resposta a essa verdadeira teratologia política, somam-se os dispositivos (artigos 70, 71 e seguintes) constitucionais referentes aos "tribunais de contas", órgãos pertencentes ao Poder Legislativo. Órgãos de assessoramento, portanto. Aí, um primeiro sinal de nociva e deletéria promiscuidade. Outro exemplo vem da autonomia do Banco Central, como também se sabe, instância reguladora do mercado financeiro. Tal autonomia, como a realidade tem revelado, torna o próprio Poder Executivo refém dos interesses dos dirigentes desse gigante operador das finanças, sem qualquer vínculo com os programas, projetos e atividades sociais a que devem vincular-se e dirigir-se todos os esforços do que se tem chamado máquina administrativa. Esta, sabiamente confundida com o governo. Ou Poder Executivo, cuja percepção pela maioria dos cidadãos, parece isentar os dois outros poderes das funções governamentais que lhes são próprias. Não foge a esse vício, sequer, boa parte dos membros do Poder Legislativo. Aqui, além do desvio, uma contradição. Os mesmos parlamentares que devem apreciar o parecer técnico de seu órgão assessor reivindicam (e o conseguem), manter sob suas ordens fatia apreciável dos recursos que caberia ao Poder Executivo utilizar em seu programa de governo. O controlador dispensa controle e acaba por tornar-se independente, como o Banco Central. Com o gravame de se chamar república a esse arranjo hostil à ideia de Política e, muito mais, República.

 
 
 
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