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Vicente Nogueira•

Sinceramente, se fosse possível, eu gostaria de passar alguns minutos na mente do eleitor de Flávio Bolsonaro no Amazonas. Penso que seria um experimento sociológico fascinante. Essa mente deve ser um ecossistema intrigante, onde a lógica pede demissão, a memória dura três segundos e o masoquismo político reina absoluto.

Convenhamos: o currículo do senador exige de seus admiradores uma elasticidade ética quase olímpica — sobretudo na hora de fechar os olhos perante os fatos.

Afinal, o que exatamente encanta essa parcela do eleitorado?

Será a sua conversão comovente e quase milagrosa em relação à Zona Franca de Manaus? O parlamentar passou anos criticando os incentivos do modelo, mas bastou a aproximação do período eleitoral para desembarcar na capital amazonense ostentando uma camiseta estampada com "100% Zona Franca". Há quem precise de uma revelação divina na estrada de Damasco para mudar de convicção; ao senador, bastam um gráfico de pesquisa caindo e uma estamparia de esquina. Quem precisa de coerência quando se tem algodão impresso?

Ou talvez seja a genialidade empresarial demonstrada na sua lendária franquia de chocolates. O Ministério Público até hoje tenta compreender a física quântica por trás daquela confeitaria, apontada como instrumento de lavagem de dinheiro no esquema das "rachadinhas". É a síntese de sua trajetória: o eleitor pede transparência e recebe um bombom — recheado de perguntas e sem nota fiscal.

E o que dizer do rigor na escolha de suas companhias? Houve a delicadeza de conceder a Medalha Tiradentes a Adriano da Nóbrega enquanto este se encontrava preso — o mesmo indivíduo mais tarde apontado como chefe de uma das milícias mais violentas do Rio de Janeiro. Para completar o quadro familiar, a mãe e a esposa do miliciano figuravam na folha de pagamento de seu gabinete. Uma interpretação verdadeiramente emocionante da "defesa da família": no caso, a família do homenageado, mantida com recursos do contribuinte.

Há também seu invejável talento para a prosperidade patrimonial. A aquisição de uma mansão avaliada em cerca de R$ 6 milhões em Brasília, com financiamento facilitado pelo BRB e transações em dinheiro vivo orbitando o caso, representa um marco. Enquanto o cidadão comum faz malabarismo financeiro para honrar as contas do mês, o parlamentar resolve suas demandas habitacionais com requintes de luxo. É a prosperidade por procuração: o povo vota, ele desfruta.

Não se pode ignorar a sua comovente "veia diplomática" e seu amor incondicional pela pátria. É de uma poesia ímpar ver um senador brasileiro dedicar boa parte de seu tempo a lamber as botas de Donald Trump e pedir abertamente a interferência de uma potência estrangeira na economia e no processo eleitoral do seu próprio país. Uma espécie de "patriotismo ao contrário": rifar a soberania e prejudicar a população brasileira no exterior, tudo com a esperança ingênua de que o padrinho americano lhe conceda uma bênção política. 

Como se não bastasse, sobrou tempo até para a veia artística. Pedir recursos a ex-banqueiro para produzir um filme sobre o próprio pai resultou em uma investigação autorizada pelo ministro André Mendonça, por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Antes mesmo de apresentar qualquer projeto relevante para o país, o parlamentar já garante roteiro de sobra para um documentário investigativo de várias temporadas no streaming.

Para arrematar esse elenco de predicados, soma-se a postura de moralista ao vociferar contra a CNBB e o clero progressista, combinada com uma atuação no Senado tão inoperante que faz o ar-condicionado do plenário trabalhar consideravelmente mais do que sua excelência.

No fim das contas, resta apenas admirar a generosidade desse fã-clube. Trata-se de uma militância que exige ficha impecável de qualquer adversário, mas concede ao seu candidato de estimação um crediário moral ilimitado — sem juros, sem entrada e, principalmente, sem qualquer pudor.

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*VN é professor aposentado da UFAM, onde foi Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa.

 
 
 
3 de out.
2 min de leitura

Enquanto um só sobrevivente guardar a memória do outro que partiu, este permanecerá vivo. É disso que se faz a História.


Há décadas tenho notícias de SÉRGIO VIEIRA CARDOSO. Primeiro, como dos mais talentosos e criativos artistas que o Amazonas já produziu. As formas de ver o Mundo e as genrtes que o habitam fez-me reconhcer nele um militante do qual passam distantes bandeiras comprometidas com determinado segmento, social ou profissional, religiosa ou ideológica. Porque múltipla era a capacidade do artista, múltiplas também foram as formas de expressão com que trazia aos seus contemporâneos seu modo de perceber a sociedade e o Planeta. Seu discurso não frequentava tribunas ou púlpitos. A expressão artística multifacetada se encarregou de fazer de SÉRGIO um dos mais perspicazes observadores das relações sociais e do ambiente do qual se destacavam pelo talento, pela criatividade, sobretudo pela permanente preocupação com o que ainda resta de humano nos que se consideram animais superiores. Membro da Academia Amazonense de Letras, SÈRGIO também desempenhava papel oficial, como membro da Procuradoria Geral do Estado. Sua dedicação aos assuntos específicos da carreira jurídica, no entanto, longe de afastá-lo da observação e participaçáo da e na vida dos amazonenses, os manauaras sobretudo, levou-o a usar de todos os meios que sua rara e lúcida inteligência entendeu capazes de levar seus sentimentos e compromissos ao conhecimento dos seus leitores, espectadores - enfim, admiradores. Mais recentemente, foi maior a proximidade com o inesquecível artista, que começara a produzir um documentário sobre a vida do editor dste blogue. Interrompe-se aqui a generosa iniciativa do novo velho-amigo, sem que se rompa o que a memória reterá dele. Vai o homem, fica a obra! Ficam mais pobres inúmeras comunidades de artistas e juristas, justamenrte pesarosos. Que em nossos corações e cérebros permaneçam a vida e a obra de SÉRGIO VIEIRA CARDOSO!

 
 
 

  Samuel Hanan**



É preciso dizer com todas as letras: os três poderes da República e suas mais importantes instituições sucumbiram. Não se trata de discurso eleitoral ou indignação seletiva, mas da grave realidade de uma nação à deriva e atolada na lama da corrupção. Honra, ética, respeito ao dinheiro público e à democracia foram abandonados. A transparência foi sufocada pela blindagem das mais altas autoridades do país, investigadas pela Polícia Federal sob o comando do próprio Supremo Tribunal Federal (STF).

 Os escândalos acumulam-se e revelam uma degradação moral sem precedentes, atingindo agora o Poder Judiciário. Ninguém escapa: nem idosos, deficientes, pensionistas ou beneficiários do INSS que sobrevivem com um mísero salário-mínimo. A crueldade não encontra limites.

 O mais recente escândalo, o do Banco Master, escancara o envolvimento da elite política e institucional em um rombo recorde de R$ 85 bilhões. O esquema lesou fundos de pensão e bancos estaduais, articulado por um único banqueiro que cooptou governadores, ministros, membros do Banco Central, congressistas e o topo do Ministério Público Federal. Uma rede regada a luxos e contratos milionários que lembra a célebre frase de Ulysses Guimarães: o cadáver foi aberto e está fedendo.

 Diante disso, o que esperam as forças vivas da sociedade — OAB, entidades intelectuais, sindicatos, empresários e a imprensa? A corrupção atingiu um nível insuportável de impunidade. É preciso estancar a sangria e punir todos os responsáveis com o rigor da lei, independentemente do cargo. Este não pode continuar sendo o país dos intocáveis.

 É urgente enfrentar as causas desse colapso, a começar pelo instituto da reeleição no Executivo. A reeleição mostrou-se desastrosa: o governante assume pensando no próximo mandato, substituindo o governo de coalizão por governos de cooptação, onde o "toma-lá-dá-cá" virou moeda corrente.

 Enquanto isso, a conta é paga por mais de 100 milhões de brasileiros empobrecidos. São 60 milhões sofrendo com a corrosão inflacionária do Bolsa Família e a mudança na fórmula do salário-mínimo, sob o pretexto de uma austeridade fiscal fictícia diante de um déficit de R$ 1 trilhão ao ano. O dinheiro da corrupção engorda o patrimônio dos corruptos enquanto a desigualdade social se aprofunda.

 O Brasil não merece esse destino e ninguém pode se omitir. Ao cidadão comum cabe mais do que rezar: nas urnas, o poder de cada voto é rigorosamente igual ao dos intocáveis. Os cidadãos de bem somam mais de 200 milhões — e a mudança está em suas mãos.

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 *O autor do texto nem precisou dar nome aos bois. O mais ousado deles apresenta-se no trecho em que Hanan trata do caso Vorcaro. Mais lamentável, porém, é o aliado do suposto dono do Mundo aspirar à Presidência. Como Joaquim Silvério dos Reis e cabo Anselmo, o xerimbabo de Trump foi longe demais...

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**Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo” e “Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”

 
 
 
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