Muitas das vozes aparentemente indignadas com a mixórdia em que se vem transformando o Poder Judiciário são as mesmas que incidem em erros de gravidade em nada diferente, ou mais rasa, que a dos magistrados sob suspeita. No ambiente das comunicações, agora ainda mais poluído pelas redes ditas sociais, não faltam exemplos. Quando até o ultraconservador Estado de São Paulo busca fugir ao mau conceito gerado pela orientação editorial por tanto tempo seguida, a rede Globo recua do que parecia uma confissão de culpa e purgação de pecado. Vão perdendo a confiança da sociedade, também, os meios de comunicação, desinteressados em promover pesquisas que ponham em dúvida a pretensa neutralidade de que se dizem portadores. É certo que, aqui e acolá, alguns dos profissionais dos mais importantes meios de comunicação destoam das preferências e arriscam perder seus empregos, por causa disso. Também neste caso, não têm faltado exemplos. Empenhados na cruzada anti-cristã de Sérgio Moro e seus asseclas, os mais importantes órgãos de comunicação incorporaram os valores, validaram os procedimentos do ex-juiz paranaense e lograram adeptos e louvadores das formas autoritárias com que o hoje senador se tem comportado. A Justiça, porém, falou mais alto. Mesmo assim, muitos dos membros da mais alta corte não tiveram a lucidez - se não é dizer pouco - de refletir adequada e desinteressadamente sobre suas próprias responsabilidades, servidores públicos que todos são. As muitas vozes que se fizeram ouvir e os pronunciamentos supostamente indignados a respeito das irregularidades e erros cometidos por seres humanos tanto quanto o são os profissionais das comunicações, acabam de tornar-se peças de ficção, diante da repetição de procedimentos por eles mesmos falsamente criticados. Assim, enquanto desviam a atenção dos leitores e ouvintes dos reais problemas do País, como sócios disfarçados concorrem para a destruição do próprio Poder Judiciário. O tratamento dispensado a este ou aquele candidato, usa como régua uma ética esquisita, a mesma que vê a mentira e a hostilidade ao Direito como algo digno de uma sociedade democrática. O cancelamento do debate em que a Globo teria investido pesada verba, portanto, diz muito mais que a despesa feita. Mais, ainda, que a substituição de razões por meros e oportunistas pretextos. Se à maioria dos jornalistas, da Globo, do Estado de São Paulo e de tantos outros de seus congêneres, não cabe atribuir críticas tão pesadas quanto a que merecem seus chefes, o mesmo não pode ser dito em relação a estes. Ainda mais, quando o inglês The Guardian indica as novas formas e recursos com que assemelhados ao IBAD e IPES vêm atuando para sujar as eleições presidenciais do Brasil. Afinal, uma só coisa se torna transparente e coerente, no lamentável quadro da política e das comunicações: às vésperas do que pode transformar-nos no quintal, os porcos tratam de arranjar espaço para sua sobrevivência.

Quando falo de honestidade, lembro muito do meu pai.
Era um homem bruto, com as mãos calejadas pela labuta nas trilhas de seringa do Rio Madeira. Não costumava fazer carinho nos filhos, mas nunca largou da sua responsabilidade de pai.
Veio para a cidade e aqui se tornou carpinteiro e marceneiro. Era um artesão na arte de fazer móvel. Talhava a madeira com muita habilidade. Uma pena que não segui a profissão dele.
Não segui, mas o velho me deixou um legado indestrutível: a honestidade.
Ele era implacável quando se referia à desonestidade. Não entrava na sua cabeça um indivíduo enganar, mentir, roubar. Nada poderia justificar tamanha indignidade.
Certa vez, quando ainda criança, eu ia caminhando próximo de casa quando avistei um carrinho de madeira na rua. Da janela de uma casa, um senhor falou que eu poderia levar o brinquedo. O filho dele não queria mais. Levei.
Quando cheguei em casa, meu pai não quis saber. Mandou eu voltar e deixar o carrinho onde achei.
No outro dia, o velho foi para a marcenaria dele e passou a fazer tudo que foi modelo de carrinho de madeira pra mim.
Esse valor inestimável ficou para toda minha vida.
Mas ser honesto num mundo de crise ética causa incômodo e você passa a ser sujeito de um valor que muita gente faz questão de não defender, como se fosse algo estranho, que envergonha e coloca o ser fora do contexto social.
Não podemos prescindir da honestidade como referência de dignidade humana. Ser honesto é uma virtude indestrutível. Deve nos orgulhar. Não é desonroso ser pobre, ser trabalhador e não ter dinheiro, mesmo quando você encontrou oportunidade para ser desonesto.
Lembro aqui de Rui Barbosa.
"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto."
Pois é. Nada pode nos "desanimar da virtude... a ter vergonha de ser honesto".
Além do meu pai, tenho tanto bons exemplos de honestidade. De gente que foi - e outros que são - gestor público, detentor de mandato popular, funcionário público, empresário, e que nunca abandonou a honestidade e a dignidade.
Tenho tido esse exemplo até hoje do casal Félix e Ilsa Valois, de João Pedro e Leda Mara, da minha companheira Carla Sarrazin e de outras dezenas de pessoas que tenho na minha relação de amizade.
Não por acaso, até hoje a advogada Yara Queiroz lembra com orgulho do seu pai, Francisco Queiroz, que foi presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas.
Quanto orgulho para seus filhos. Construíram família fincada na honra e nos melhores valores humanos. O exemplo dos pais pesa muito.
E não se trata apenas de ser honesto com o uso daquilo que é público. A honestidade é um jeito de viver. Não podemos eleger a desonestidade como meio de vida.
Assim vou caminhar até os últimos dias da minha vida. Tenho a certeza de que minhas filhas também se orgulham de ter um pai honesto, digno, apesar de liso, mas muito feliz.
Lúcio Carril
Sociólogo.
O professor e jornalista amazonense José Ribamar Bessa Freire fala do recém-falecido Zuenir Ventura. Aluno do respeitado professor fluminense, Babá coloca-o dia de de nós com a integralidade característica dos grandes homens de seu tempo. Abra o link e saiba mais sobre o autor de 1968, o ano que não terminou.
