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• Banqueiro operou uma revolução no mercado do afeto remunerado

• Nossas excelências se vendem na calçada enquanto posam de guardiões da moral e da Constituição


Mariliz Pereira Jorge*


Se para você sugar daddy é um tiozão que banca faculdades, aluguel, roupas e viagens a Dubai de moças que escolhem uma vida mais fácil, precisa atualizar seus conceitos. O maior, mais caro e mais ecumênico harém de dependentes remunerados despacha em Brasília, veste capa de tafetá, tem cadeira no Senado e anda de carro oficial.

O banqueiro Daniel Vorcaro operou uma revolução no mercado do afeto remunerado. Colocou no bolso a cúpula dos Três Poderes, sem distinção de ideologia. Enquanto o eleitorado se estapeia nas redes sociais, jura lealdade a mitos ou salvadores da pátria, os donos do poder dividem harmoniosamente a mesma fatura do cartão de crédito. É o poliamor institucional.

O cardápio do patrocinador oficial da República atende a todas as formas de carência: contratos advocatícios milionários revisados na intimidade do STF, mesadas de meio milhão, ternos sob medida, suítes de luxo em Lisboa, voos de jatinho, viagens etílicas a Londres, milhões de dólares para financiar biografia de golpistas e manter seu filhote nos EUA. Saudade, Vorcaro!

A beleza dessa lama é que ela enterra qualquer verniz ideológico. Não há esquerda, direita, moralismo ou zelo republicano. Homens públicos discursam com a empáfia dos intocáveis, mas se vendem com a docilidade de quem precisa pagar a prestação de uma bolsa nova.

A praça dos Três Poderes virou o ponto de prostituição mais caro do Brasil –com a desvantagem de que os michês de toga e de terno custam milhões e entregam o futuro do país. Ao contrário dos garotos de programa da vida real, que ao menos mantêm a decência profissional de combinar a tarifa sem fingir santidade, nossas excelências se vendem na calçada enquanto posam de guardiões da moral e da Constituição.

Não há liturgia, projeto de nação ou independência institucional. Há apenas uma vitrine iluminada, onde homens supostamente inalcançáveis aguardam, com o rabinho abanando, a buzina do patrocinador da vez. Daniel Vorcaro foi apenas o cliente que encostou o carro no meio-fio e comprou o bordel inteiro.

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*Por exprimir, também, o pensamento do editor deste blogue, o texto da jornalista da Folha de São Paulo-UOL, editado dia 04-09-2026, ocupa este espaço.

 
 
 

Por Plínio César A. Coêlho*


Em 2 de setembro de 2026, ficou mais fácil para o trabalhador brasileiro saber quem está de cada lado na discussão sobre o fim da escala 6×1.

Flávio Bolsonaro e o PL enterraram, naquele momento, o avanço da escala 5×2.

A proposta não foi formalmente arquivada, mas, quando poderia avançar no Senado, a articulação da oposição impediu sua votação no plenário. E o resultado concreto está diante de milhões de brasileiros.

A PEC 221/2019, já aprovada pela Câmara dos Deputados, passou também pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. O texto reduz gradualmente a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, estabelece dois dias de descanso remunerado e preserva os salários.

Na CCJ, integrantes do PL estiveram entre os votos contrários. Rogério Marinho, líder da oposição e coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, tentou modificar o texto e defendeu maior flexibilidade das escalas. Flávio Bolsonaro não participou daquela votação.

Mesmo assim, a PEC venceu na CCJ.

Quando chegou a hora do plenário, porém, a proposta parou. A oposição articulou o esvaziamento do Senado, retirando a segurança de que haveria os 49 votos necessários para aprovar uma emenda constitucional. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, atribuiu publicamente essa articulação a Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho.

Portanto, não estamos discutindo uma intenção futura. Estamos falando do que aconteceu.

A proposta poderia ter avançado naquele dia.

Não avançou. E a escala 6×1 continua.

Agora tentam embrulhar essa posição política numa palavra bonita: liberdade.

Flávio Bolsonaro e setores do PL defendem maior espaço para que empregado e empregador negociem jornada e escala de trabalho. Parece maravilhoso: o trabalhador teria “liberdade” para negociar com o patrão.

Mas desde quando capital e trabalho possuem a mesma força numa negociação individual?

De um lado está quem possui o capital, controla a empresa, contrata e pode substituir o trabalhador. Do outro está quem vende sua força de trabalho porque precisa do salário para pagar aluguel, alimentação, transporte e sustentar a familia.

Não existe equivalência entre essas forças.

É justamente por reconhecer essa desigualdade que surgiram o Direito do Trabalho, a jornada máxima, o salário mínimo, as férias, o descanso semanal, os sindicatos e a negociação coletiva. Se trabalhador e patrão fossem economicamente iguais, boa parte dessa legislação seria desnecessária.

Flávio Bolsonaro já respondeu de que lado está.

Ao defender uma alternativa baseada na flexibilização e na chamada “livre negociação”, em vez de transformar as 40 horas semanais e os dois dias de descanso em direito geral, fez sua escolha política.

Vamos colocar essa tal liberdade dentro da vida real.

Imagine um trabalhador de baixa renda, com filhos e contas para pagar. O patrão apresenta a escala. O empregado responde: “Não concordo. Quero trabalhar cinco dias e descansar dois.”

O patrão pode simplesmente dizer: “Há outra pessoa esperando a vaga.”

Acabou a negociação.

Cadê a liberdade?

A discussão torna-se ainda mais importante quando observamos o enorme crescimento da produtividade do trabalho. Nas últimas décadas, automação, computadores, robótica, inteligência artificial e novos sistemas de gestão permitiram produzir muito mais em muito menos tempo.

Então surge uma questão econômica fundamental:


QUEM FICA COM OS GANHOS DA PRODUTIVIDADE?


Se a produtividade aumenta, mas seus benefícios são apropriados predominantemente pelo capital na forma de lucros, dividendos e acumulação, enquanto o trabalhador continua entregando seis dias da semana para descansar apenas um, qual foi o progresso social?

Modernizamos as máquinas e conservamos a jornada.

Reduzir a jornada significa também distribuir parte dos ganhos históricos de produtividade.

A jornada de oito horas encontrou resistência. As férias remuneradas encontraram resistência. O descanso semanal encontrou resistência. Direitos que hoje parecem elementares foram apresentados, em diferentes momentos da história, como ameaças às empresas e à economia.

Nenhum deles caiu do céu.

Foram conquistas da classe trabalhadora.

É por isso que existe enorme diferença entre estabelecer a escala 5×2 como direito e simplesmente mandar o trabalhador negociar sua jornada.

Quando a lei estabelece um direito universal, protege principalmente quem possui menor poder de barganha. Quando tudo é entregue à negociação individual, quem possui maior poder econômico tende também a estabelecer as condições.

E quase nunca esse alguém é o trabalhador.

Por isso, o episódio de 2 de setembro precisa permanecer na memória da classe trabalhadora.

Quem trabalha em supermercado, farmácia, shopping, restaurante, indústria ou qualquer atividade submetida à 6×1 precisa saber o que aconteceu.

Porque política econômica não é uma discussão abstrata.

Ela decide quem fica com a renda, quem fica com os ganhos da produtividade e até quem fica com o tempo da nossa vida.

A escala 5×2 significa mais tempo para os filhos, para a família, para estudar, cuidar da saúde, descansar ou simplesmente exercer o direito de não viver exclusivamente para trabalhar.

O ser humano não nasceu para entregar seis dias de cada semana ao capital.

Por isso, depois do que aconteceu, toda vez que Flávio Bolsonaro e o PL falarem em “liberdade de negociação”, cabe uma pergunta:


LIBERDADE PARA QUEM?


Colocar patrão e empregado frente a frente e fingir que possuem o mesmo poder não cria liberdade. Transforma desigualdade econômica em suposta liberdade contratual.

E bloquear o avanço de um direito coletivo para depois dizer ao trabalhador que ele pode negociar sozinho com quem controla seu emprego não é modernização.

É manter a 6×1 com outro nome.

Flávio Bolsonaro e seus aliados fizeram sua escolha.

Agora cabe à classe trabalhadora conhecê-la — e não esquecê-la quando chegar a hora de fazer a sua nas urnas.

 

*Plinio Cesar Albuquerque Coêlho é professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). É mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando na Universidade de Ciências Empresariais e Sociais (UCES), em Buenos Aires.

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5 de set.
1 min de leitura

Logo após chegar ao STF, o ministro terrivelmente evangélico prometeu abandonar o instituto ITER que recebeu dinheiro público. Promessa não cumprida, agora André Mendonça de novo promete deixar sua cria, alegando que nada recebe dela. Interessante e, talvez, perdoável, se o Instituto passasse pelo crivo da licitação, para abocanhar o meu, o seu, o imposto pago - por nem todos, é bom lembrar!

 
 
 
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