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Textos do abolicionista Joaquim Nabuco vestem perfeitamente a nossa Terra da Santa Cruz ainda hoje


*Felipe Sampaio*

Duzentos anos depois, o Brasil ainda peleja no divã da história com seu transtorno obsessivo colonial, dessa vez, assombrado pelo pesadelo de um banco Master. Quem sabe, seja uma vocação daquelas, de nascença. Talvez, um gene, hereditário. Ou, Deus nos livre, um cancro, incurável. Em 2022, Laurentino Gomes transcrevia em seu avassalador “Escravidão III” alguns trechos do abolicionista Joaquim Nabuco, que vestem perfeitamente a nossa Terra da Santa Cruz ainda hoje.

“Um país já velho… com paisagem marcada pelo abandono… cultiva o desprezo pelos interesses do futuro e a ambição de tirar o maior lucro imediato…, qualquer que seja o prejuízo das gerações futuras… Queimou, plantou e abandonou… não edificou escolas, não construiu pontes, nem melhorou rios… não concorreu para progresso algum na zona circunvizinha”. (O Abolicionismo, 1883).

O que Nabuco descrevera acima – seis décadas corridas da Independência e às vésperas da República – estava em conformidade com o modelo colonial europeu em geral, abrindo galinhas dos ovos de ouro, às custas do meio ambiente e da vida de povos originários e africanos. Vale refletir se o Brasil de hoje não permanece uma República pela metade, onde interesses políticos e econômicos inconfessáveis ainda se aliam a valores arcaicos da sociedade, como se ainda fôssemos segregados, piratas, bandeirantes… simplesmente Vorcaros. Todos gigantes de botas, cada um a seu modo, apenas de passagem pelo Brasil para raspar-lhe o tacho.

Nesse sentido, cabe lembrar que, em pleno século XIX, quando outras colônias e monarquias tradicionais já iam longe na instalação de suas instituições democráticas, o Brasil insistia no sentido oposto. Os EUA já eram república, a Revolução Francesa dava frutos, o Haiti fervia liderado por negros, a revolução industrial transformava as sociedades e a escravidão era abolida mundo afora. Enquanto isso, em 1822, o Brasil torna-se, não uma república, mas, um império na América (cujo imperador ‘independente’ era o herdeiro do trono colonizador!). Não era à toa que, enquanto o mundo criava a máquina a vapor, telefone, eletricidade, vacinas, e diferentes formas de democracia, o Brasil seguia convictamente agrário, tendo como principal fator de competitividade o massacre de pessoas negras sequestradas. Não surpreende que, em pleno caos climático e geopolítico, brasileiros continuem distraídos na contramão, sem uma atitude que corresponda à estatura do desafio global, sequer das nossas limitações e desvios locais. Basta ver quanta gente bacana frequentava as poltronas (e o caixa) do Master.

Quando finalmente a escravidão foi abolida no Brasil, quase no séc. XX, milhões de africanos e indígenas haviam sido raptados, escravizados ou mortos (de fazer inveja a qualquer maníaco do holocausto). A República só chegaria um ano depois – um golpe de Estado patrocinado por escravocratas ressentidos com o rei – liberal demais para nossas elites. O conceito brasileiro de República no século XIX ainda era dissociado da definição de democracia (por aqui considerada uma ideia anárquica). Quem sabe, aquela primeira visão de república – autoritária e concentradora – persista no DNA brasileiro. Quem sabe, explique, até hoje, a naturalidade das desigualdades, da devastação ambiental, da violência e dos arrotos antidemocráticos, bancados por tantos Vorcaros festejados na vida brasileira.

 
 
 
4 de set.
1 min de leitura

Atualizado: 6 de set.

Como não vivemos na Roma de Cícero, nem Catilina é vivo, nem a mulher de César é protagonista. Bem que ela se beneficiaria da expressão acima (em inglês, of course). Para, semelhante ao ministro André Mendonça e sua alegada honestidade, dizermos que há honestos e desonestos, more or less.

 
 
 
3 de set.
4 min de leitura

Atualizado: 4 de set.


                Orlando SAMPAIO SILVA


               Com fins classificatório, político e ético, passo a reportar-me a posicionamentos sociais e políticos presentes na sociedade humana e que se caracterizam pelo epíteto DIREITA.

               Cada vez mais acentuadamente, a partir das últimas décadas do Século XX, tornou-se costumeiro, nos meios políticos e nos jornalísticos, principalmente pessoas públicas serem subdivididas ou classificadas em três grupos com algumas subdivisões. Estas classificações objetivam marcar ou caracterizar posições ideológicas dos classificados. As posições básicas são: DIREITA   /   CENTRO   /   ESQUERDA. Entre a direita e o centro, e entre o centro e a esquçerda, estariam os classificados em uma gradação que indicaria maior ou menor proximidade das posições básicas, extremas: CENTRO-DIREITA e CENTRO-ESQUERDA.

               Esta constelação de opções ou posicionamentos assim classificados não indica apenas opções em face da estrutura econômica da sociedade e sua dinâmica, como costumeiramente se pode encontrar em artigos e comentários na imprensa, mas não só aí. A direita, do ponto de vista economicista, está embricada com uma visão neoliberal da economia dos países. Esta organização econômica assim intitulada (neoliberal) é típica do capitalismo que vem sendo constituído principalmente ao longo das Idades Moderna e Contemporânea, tendo como marco inicial as Grandes Navegações/ Expansionismo colonialista/Expansionismo da exploração de bens naturais ou não em novas terras conquistadas/Escravidão moderna e o fim do feudalismo, no final da Idade Média-início da Idade Moderna. Também a Revolução Industrial, que marcou um grande salto econômico e tecnológico no sistema capitalista, e que junto com a Revolução Francesa, sinalizaram a passagem para a Idade Contemporânea. Nesse período bitemporal, se foi fundamentando, por um lado, no desenvolvimento econômico capitalista e, por outro, em algumas ideias florescentes no movimento revolucionário francês, esquemas de estruturas e de organizações social e estatal. Estas, apesar da aparência, não implicaram na prevalência de sistemas políticos republicanos, democráticos ou não democrático, e, no fim das monarquias, muitas das quais absolutistas. Nesta fase da história, tem início a perda crescente do poder político do Vaticano-Igreja Católica. Após a Revolução Francesa, logo se instauraou o Terror e não demorou para que Napoleão Bonaparte fosse auto-coroado Rei da França.

               O neoliberalismo não tem necessariamente compromisso com sistemas políticos democráticos. Seu fundamento básico se encontra no fortalecimento do sistema capitalista com o crescimento do capital privado, sem limites de qualquer tipo, O capital deve crescer mediante o fortalecimento do lucro dos seus donos, sem nenhum compromisso com a justiça social na distribuição dos bens forjados no sistema. Para tal, segundo esta concepção capitalista, é fundamental ser constituído o “Estado mínimo”. Conforme esta visão patrimonialista, os países ou as sociedades devem se constituir em Estados e estes devem ter a função precípua de garantir a segurança para que o patrimonialismo cresça, o capital seja acumulado nas mãos dos capitalistas, ou seja, dos detentores do capital privado. Todas as responsabilidades ou tarefas na sociedade que podem propiciar lucro devem ser asseguradas aos detentores do capital, que se constituem na classe mais alta, dominante na sociedade. Esta apropriação ocorre em detrimento do capital e seus bens também beneficiarem as demais classes sociais  -  média e baixa, e suas subdivisões. Educação e saúde, por exemplo, são áreas do espectro social que podem ser exploradas de forma a propiciar o lucro; assim, elas, no sistema neoliberal, devem estar em mãos do setor privado da sociedade, independente das necessidades básicas da população. Nesse sistema, a concepção norteadora, a ideia básica é a de que “o Estado deve garantir ao setor privado a gerência e a apropriação das riquezas e, sob esta gerência, dizem eles, o “bolo” crescerá; o povo, a sociedade precisam esperar o “bolo” crescer, para então ser o mesmo repartido, dividido”. Esta é uma “utopia” cujos instituidores não estão preocupados ou comprometidos com esta “divisão”, com esta “repartição” ou coparticipação. Eles temem a revolta dos carentes!  Assim é idealizado o estado neoliberal e esta é uma concepção social, econômica e política que é assumida por seus participantes como um ideário, um sistema estrutural da DIREITA, em oposição ao da ESQUERDA, que é estatizante e centrada não nos interesses da classe dominante, mas, sim, na atenção às necessidades dos setores mais pobres, não capitalizados e necessitados da sociedade.

               Esta é a DIREITA economicista capitalista.

               Porém, há outra DIREITA, sendo esta de caráter mais estritamente político-ideológico. Trata-se dos movimentos políticos que proliferaram na primeira metade de Século passado. Eles são: o Fascismo e o Nazismo. Essas ideologias têm semelhanças entre si, mas não necessariamente são inteiramente iguais, não se confundem em todos os seus aspectos. Ambas propagam como formas de governar sistemas autoritários, ditaduras, ausência das liberdades, estados policialescos e militaristas. O fascismo completa estas características com um culto à personalidade do ditador todo poderoso. Há quem diga ser o Nazismo influenciado pelo pensamento do filósofo Nietsche, que, em suas obras, erige a ideia de ser forjado ou gerado o super-homem, em um posicionamento  crítico, ético e ontológico ante a humanidade, o ser, o ente,  como se apresentariam em seu tempo, Os fascistas se julgam herdeiros  do autoritarismo militarista e expansionista do Império Romano, escravagista, autoritário e dominado por uma casta nacionalista privilegiada, que se julgava herdeiros ou influenciada pelos saberes filosóficos e literários gregos. O exemplo mais categórico do sistema e da liderança política autoritária fascista encontra-se na Itália de Mussolini. Já o Nazismo, além das características antes referidas, ele é marcado pelo racismo. O nazismo cultuava (e cultua) a categoria racial ariana, branca, que era considerada superior às demais raças, e elegeu a etnia judaica como o modelo mais drástico da inferioridade humana. Para os nazistas, os judeus deveriam ser sacrificados, extintos, suprimidos da face da terra, com a prática de um genocídio visceral, como estava acontecendo na Alemanha nazista sob o comando de Adolf Hitler. A Alemanha nazista com Hitler e seus apaniguados civis e militares foi o caso mais trágico da prática desse sistema na história da humanidade.

          Políticos brasileiros, que, nos dias atuais (a partir do forjamento do bolsonarismo e como saudosismo da Ditadura-Militar), se intitulam abertamente de direita, salvo raríssimas, lamentáveis e condenáveis exceções, ao se postarem em seu partidarismo ou posicionamento de direita, se esquecem ou omitem a revelação referente a serem ou não partidários do neoliberalismo capitalista e, também, do nazifascismo! O povo brasileiro deve estar alerta ante a presença agressiva desta categoria solerte e perigosa de políticos no cenário político do país. Estamos próximos da escolha eleitoral de políticos para os Poderes Legislativo e Executivo. Rigor e responsabilidade nas escolhas!

 

 

 

 

 
 
 
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