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Quando a gente fala em elite pensa logo naquele povo cheio da grana, esnobe, metido a besta, que vive do pedigree ou da bolsa de grife comprada por mil salários mínimos.

Essa é a elite que domina pelo poder econômico e pela tradição. Mas o mundo está cheio de elites.

A prática desse estrato social e econômico encontra semelhança com a elite intelectual e cultural, por exemplo. Aquela gente que vive espreitando espaço nas academias científicas, nos partidos de esquerda, nos grupos de classe média e nas áreas mais diversas das artes e do conhecimento.

Para a elite econômica, não basta ter. É preciso que o outro não tenha. Ela vive da miséria alheia. Se regozija com isso. Gosta da humilhação.

Para a elite intelectual, aquela cheia de pavulagem, é preciso humilhar quem é do povo. Aí parte para o preconceito linguístico, para a discriminação de classe e para a desqualificação de tudo que é popular. Ela precisa se manter no degrau mais alto da inteligência, pensa.

Assim como a elite econômica, a elite intelectual não se contenta em saber, ela quer provar que o outro não sabe. É uma consciência e prática do colonizador.

Todas as almas de fora são pagãs.

Tenho visto isso o tempo todo.

As lideranças populares são párias para essa gente. São desqualificadas para poder mostrar que eles - aquela elite que se considera mais inteligente - possa se sentir superior.

Essa elite nunca leu ou se leu abandonou a ideia de intelectual orgânico do pensador italiano Antonio Gramsci. Ou acha que é possível defender a classe proletária sentada no posto de filósofo da república platônica.

Fico com os intelectuais da periferia, da sarjeta e da várzea. Nós sabemos quem somos.

Escrevo isso provocado pelo período eleitoral e pensando na dificuldade que a esquerda tem de disputar o poder no Amazonas. Aqui, houve um afastamento tremendo das bases populares, porque há uma elite viciada no jogo eleitoral sem povo. Tudo virou líquido e o discurso perdeu força ideológica e motivadora.

A classe trabalhadora não tem consciência de classe, é verdade. E nunca terá enquanto as lideranças populares forem combatidas pela pretensa elite intelectual. Essa divisão é produto do capitalismo e reproduzido, equivocadamente, por gente que se diz revolucionária ou combate a injustiça social.

Os intelectuais são trabalhadores e a divisão entre trabalho artesanal e intelectual deve ser abolida. ¹

É preciso que os intelectuais pequenos-burgueses, como conceituava Lênin, entendam que a classe proletária tem seus próprios intelectuais e esses são suas lideranças sindicais, partidárias, militantes das associações populares e de todo movimento social.

Deixem de leseira. A bandeira de luta do proletariado no país de maior desigualdade social do mundo é a qualidade de vida. Na fome, é a comida que conta e não o Manifesto Comunista.

É na luta contra a fome e a desigualdade social que está o espírito anticapitalista.

A luta por justiça social não é simbólica. Ela é real quando se manifesta por ações concretas. A solidariedade é concreta enquanto ação de classe. O hospital, a escola, a defesa do meio ambiente, da cultura, atender demandas populares são ações concretas da transformação social.

A luta por uma sociedade justa e solidária tem que ser real e não simbólica. É preciso acolher quem tem trabalho popular, quem vive nas periferias, no interior, nas favelas e morros.


*Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 
3 de set.
1 min de leitura

A pergunta, um bordão criado e usado por Chico Anísio, chega às altas esferas. Agora, são homens togados. Ligados aos interesses, pessoas e empresas frequentemente levadas às barras dos tribunais, esforçam-se esses agentes públicos em mostrar-se iguais aos que lhes cabe julgar. Igualdade é isso - diria um filósofo de esquina.

 
 
 

Imaginar que todos os agentes públicos sejam dotados de virtudes sobre humanas, enquanto privados da possibilidade de adquirir maus hábitos, será o pior dos juízos a que poderemos ser levados. Fôssemos todos membros de uma sociedade de justos e puros, para que serviriam as leis? Não ostentássemos peculiaridades inerentes à pretensa superioridade em relação às outras espécies animais, nada haveria além dos instintos para orientar nossa conduta. Justifica-se, portanto, a sentença dita, nem sempre em correspondência à conduta de muitos dos que cbnsideramos humanos. Dizer que o homem é o único animal que sabe que sabe, está muito longe da ignorância vigente. Há, assim, os que dão testemunho que valida a expressão, mas não falta razão para admitir em crescendo aqueles que limitam sua aplicabilidade. Não se dando conta de sua própria consciência, há os que não conseguem perceber que ciência e consciência nem sempre estão acordes. Em termos simples, mas nem por isso destituídos de fundamento, poderíamos lembrar que a educação e o culto à Ciência nem sempre convergem para a obra meritória que se deve esperar de todo ser realmente humano. Daí constituir-se mero slogan apostar todas as fichas na transformação do conhecimento em verdadeira panaceia. Só muito recentemente pessoas sem grau acadêmico formal chegaram ao poder, após prolongado período em que os tidos como doutos estabeleceram a sociedade desigual e cruel em que convivemos. Para que tem servido tanta Ciência? Alguns preferem passar ao largo dessa questão, não faltando dentre esses os que veem a desigualdade como determinação de um deus, chame-se ele Jesus, Alá ou Jeová. Dentro desse raciocínio, cabe a hipótese que alimenta todo tipo de preconceito e supremacismo. Também a recusa a enfrentar o conflito entre classes e, portanto, a renúncia à assunção da própria cidadania, com as exigências e consequências dela resultantes. A existência de pobres de direita não é, portanto, algo surgido do nada, nem mero acidente de percurso. A participação de muitos que se declaram lideres religiosos e usam a alegada fé como cultivo de currais eleitorais e obtenção de mandatos, têm muito a ver com isso. Também o tem o verdadeiro suicídio institucional em que parece mergulhar o Poder Judiciário. Aos cidadãos de bem interessaria ter magistratura isenta, em que os membros agiriam de modo diferente daqueles que levam os agentes de atos ilícitos ao devido processo legal. Não é isso o que testemunhamos hoje. Ao contrário, ao maléfico propósito de enfraquecer o Poder Judiciário, aliam-se membros desde mesmo poder, como se lhes interessasse cavar a sepultura do poder a que pertencem.

 
 
 
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