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Nem imagino

o homem grave

peito coberto de medalhas

justo orgulho transformado

em arrogância

o poder transpirando em

cada poro

hunos alanos visigodos

nenhum capaz de impor

a força dos medos

porque ao medo

nunca fora dada a

hora

fazer da paz

o elo necessário

era quanto

cumpria neste

agora

feito de dor

lamento lancinante

um tal momento

atroz

simples instante

perdas contadas

em caudal de rio

cortante

ao som do grito

que se faz

o mais pujante...


Merda é o que

se tem feito

mas agora é

apenas desejado!


 
 
 

O fato não surpreende

a consciência não o permite

tão conhecido

o objetivo

no máximo,

tênue suspeita

seríamos absorvidos

por outro cogumelo

como o foram

os de Nagasaki e Hiroshima

os despelados como a

menina do Vietnam

na palma de nossa mão

cigana nenhuma leria

nem as baratas esperariam

para sorrir sozinhas

eis que a natureza

explicada na sua

secreta verdade

coloca dentro da nossa casa

faz conviver conosco

um não-ser

insidioso torpe invisível

alimentado pela desigualdade

beneficiário do preconceito

do ódio da ignorância

a percorrer mudo

terras oceanos montanhas

ares

espalhando a morte

a mesma que Opennheimer

não previra

e no entanto

chegou

cogumelo indiferente

ao olhar mais aguçado

à sensibilidade mais

apurada

ao instinto perverso

pensado como apanágio

dos mais ferozes animais

não fosse o homem

o de maior talento

a mão há muito deixou de afagar

apedrejar é mais fácil

a boca já não beija

escarrar é preciso

faz tempo os tempos

não são augustos

nem existem anjos restantes

no que resta

no verso e no reverso

de nossa mais interior

intimidade.


José Seráfico


Manaus, 25 de abril de 2020


 
 
 

Foram os dias

flutuantes de Noé

explorador do cio

de tantos pares

promessa de encher

de habitantes

rios florestas lagos

ilhas montanhas

mares...


quantos os anos

a Moisés dados

em trabalhosa cansativa

procissão

caminho esperançoso

para chegar

à sua terra da

promissão


quanto durou o jejum

de um salvador

as olivas desdenhadas

ao redor

necessário visitar o templo

vergastar o infiel

empedernido

com o chicote

promover-lhe o exemplo


nascido o filho

opulenta ou pobre

seja a cena

cercando a esperança

pelo amor desatada

que a bonança

chegue após a

quarentena


com Maomé

o tempo não se

fez diferente

Saul Salomão e Davi

de suas vidas

quatro décadas

dedicaram

a conduzir sua gente

numa busca incessante

envolvente


agora aturdidos

acovardados

frágeis sobreviventes

por um vírus

humilhados

vermes bípedes

de amor insolvente

solvem esperanças

sonhos muitas vezes

mal sonhados...

 
 
 
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