O que nos resta?

O fato não surpreende

a consciência não o permite

tão conhecido

o objetivo

no máximo,

tênue suspeita

seríamos absorvidos

por outro cogumelo

como o foram

os de Nagasaki e Hiroshima

os despelados como a

menina do Vietnam

na palma de nossa mão

cigana nenhuma leria

nem as baratas esperariam

para sorrir sozinhas

eis que a natureza

explicada na sua

secreta verdade

coloca dentro da nossa casa

faz conviver conosco

um não-ser

insidioso torpe invisível

alimentado pela desigualdade

beneficiário do preconceito

do ódio da ignorância

a percorrer mudo

terras oceanos montanhas

ares

espalhando a morte

a mesma que Opennheimer

não previra

e no entanto

chegou

cogumelo indiferente

ao olhar mais aguçado

à sensibilidade mais

apurada

ao instinto perverso

pensado como apanágio

dos mais ferozes animais

não fosse o homem

o de maior talento

a mão há muito deixou de afagar

apedrejar é mais fácil

a boca já não beija

escarrar é preciso

faz tempo os tempos

não são augustos

nem existem anjos restantes

no que resta

no verso e no reverso

de nossa mais interior

intimidade.


José Seráfico


Manaus, 25 de abril de 2020


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