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Não sendo o rei

que caia a torre

seteiras e olheiras desmontadas

cegas as facas

perdidas as setas

balas enferrujadas

transposta a barra

mar aberto

clarão desperto

em escura noite

tanto tempo cultuada

aos navegantes a mensagem

não-cifrada

desta vez os cifrões

apodrecidos

à insciência abatida

humilhada

batalha vencida

inimigo em retirada

defesas cuidados

limpeza higiene muita vez

abandonada

promessa de vida

não obstante ainda mais

ameaçada

é apenas uma batalha que se

encerra

afastando para longe

o que faz mal

tecido que se tece

em mortalha

a recomposição dos paióis

e do arsenal

nem por isso

dá por finda a

guerra...


Manaus, 17 de janeiro de 2021, minutos após a aprovação, pela ANVISA, do uso das vacinas Coronavac e Astra/Zeneca.



 
 
 

Desta não escapamos

o vírus foi mais forte

forçou-nos a abandonar vocês

não sabemos se deixamos

só que trouxemos conosco

tanta saudade

a falta do beijo sorridente

do neto

a preocupação com o emprego

do filho

o jogo de damas

com o amigo

até o jornal de todo dia


O cafezinho tomado

a horas certas

mesmo o pijama velho

puído quase sem cor

veio conosco e nossas

saudades

não estamos tristes

a tristeza não

cabe em nosso coração

ressequido

exangue


Vale mais saber

menor o egoísmo

desaparecida a ganância

mais humanizados os que

se pensavam humanos

enfraquecido o desamor

removido todo preconceito

pactuada a felicidade

tarefa que a todos

atrai envolve entusiasma

não seja este

sonho incansável

morto junto conosco.






 
 
 

Disseram-me: cala-te

não me calei.

Insistiram: guarda tua pena

outras pagarás!

Fiz-me surdo.


Ameaçaram-me:

na tua boca poremos

o gosto do fel

em tua vida

também!

Perseverei...


Olhos sempre postos

no amanhã

ouvidos atentos ao

menor ruído

quanto mais perdido

o som

mais sensível

às dores do mundo


As penas da vida

têm na ponta de meus dedos

o transporte que leva

da cabeça

ao cérebro endoidecido

de um débil mental mecânico

os sonhos ainda possíveis

as frustrações irrecuperáveis

a memória do que ficou

em vida...


Quanto mais desejam

ver-me calado

aumenta o tom

da minha voz

se pedem que meus

dedos apertem algum

gatilho

ou contas sagradas

sobre o teclado de um computador

eu os ponho.


Esse diálogo

o mudo em suas

peças invisíveis

tudo aceita

se entregue por mãos

que dizem o

indizível

já nem se dando conta

da impossibilidade da

conversa habitual...

Manaus, 04.01.2021



 
 
 
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