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Praça de São Marcos

sem pombos...

Não!

Não é obra do

espírito santo

santos quase não existem

nem do mouro

soberano e desdenhoso

no alto de sua

torre

o gato em pisar cauteloso

também isolado

aturdido

ostensiva desolação

desprezadas mesas e gôndolas

garçons e gondoleiros

o olhar distante

desencontrado

a cidade também

flutua não mais ao sabor

de pontes e suspiros

livros jamais ignorados

restam esquecidos

testemunho mudo

do afeto e gesto

tristes tradutores

sem sangue

sem sentimentos

vida!

Veneza

à espera da morte?...

Manaus, 12 de março de 2020

 
 
 

Ser invisível a separar

pais de filhos

marido de mulher

irmãos de irmãos

amigos e tantos

quantos fingimos próximos

e semelhantes

junta-os todos

na angústia e no

medo

de um amanhã

que não se sabe

tira o sabor

da vida

(quando não ela mesma)

de tudo o mais

quanto o prazer que lhe dá o

ser vivida

desnuda contudo

sentimentos sopitados

anseios e apetites

deslavados

acompanha-o certa fúria

genocida.

Manaus, 17 de agosto de 2020.

 
 
 

O fato não surpreende

a consciência não o permite

tão conhecido

o objetivo

no máximo, tênue

suspeita

seríamos absorvidos

por outro cogumelo

como o foram

os de Nagasaki e Hiroshima

os despelados como a

menina do Vietnam

na palma de nossa mão

cigana nenhuma leria

nem as baratas esperariam

para sorrir sozinhas

eis que a natureza

explicada na sua

secreta verdade

coloca dentro da nossa casa

faz conviver conosco

um não-ser

insidioso torpe invisível

alimentado pela desigualdade

beneficiário do preconceito

do ódio da ignorância

a percorrer mudo

terras oceanos montanhas

ares

espalhando a morte

a mesma que Opennheimer

não previra

e no entanto

chegou

cogumelo indiferente

ao olhar mais aguçado

à sensibilidade mais

apurada

ao instinto perverso

pensado como apanágio

dos mais ferozes animais

não fosse o homem

o de maior talento

a mão há muito deixou de afagar

apedrejar é mais fácil

a boca já não beija

escarrar é preciso

faz tempo os tempos

não são augustos

nem existem anjos restantes

no que resta

no verso e no reverso

de nossa mais interior

intimidade.

 
 
 
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