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21 de jun.
2 min de leitura

Do alto do 11° andar, a vista pode lançar-se sobre o infinito que tem fim. Onde - quem o sabe? Ele, no entanto, está lá. A convidar os que o vêem, tirem ou não proveito de sua existência e de sua permanência, à contemplação inevitável. Sua grandeza sugere quase tudo quanto pode passar pela imaginação humana. Esta, sempre maior que o tamanho das águas contempladas. Aquelas que passam diante de nós e jamais voltam, como Heráclito lembrou. Mas também aquelas, empoçadas nas cidades ou contidas por limites claros e definidos. Como nos açudes e lagos. Nenhuma dessas capaz de trazer à mente do veranista, do navegador, do mergulhador ou do artista, as sensações experimentadas por Caymmi, que o fizeram dizer: o mar/quando quebra na praia/é bonito, é bonito...Pobres mortais, a que Clio e Calíope negam intimidade, escasseia o talento do sábio baiano. O que não impede os olhos postos no horizonte distante de verem o que a visão não alcança. Aquele sentimento simultâneo, mas não excludente, entre o deslumbramento e o pavor. Logo a arte feita de versos e sons remete à de Munch, registrada em tela e tinta, que O grito suscita. Enquanto as águas permitem conjeturar sobre a superfície líquida onde se esconde a vida de tantos seres conhecidos e desconhecidos; enquanto sobre elas trafegam grandes embarcações cheias de promessas e riscos; lá, onde os mergulhadores, cientistas e bombeiros resgatam vidas, recolhem alimentos, produzem Ciência, lá também se escondem os adamastores de que Camões se ocupou. Cá, o homem contempla o mar e faz dele a razão do mergulho dentro de si mesmo. À margem das águas, ele delas não se sente excluído. O benefício resultante de vê-las, como o quadro de Munch, a canção de Caymmi e o poema de Camões, não tem tamanho! Como o amor ..

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*Da varanda de um 11° andar, o editor contempla o Atlântico. Salinas, Pará. 21-06-2026.

 
 
 

Um salto e um sonho de voo. O momento de plena liberdade superou o medo, e tudo o que ela queria era sentir seu corpo mergulhado no nada por alguns instantes. Depois, um balançar seguro, um pêndulo e a gravidade, apenas.

O que seria uma breve aventura juvenil se tornou um mergulho sem volta. O sonho se destruiu pela irresponsabilidade de quem deveria garantir segurança.

Mas, tão lamentável quanto a morte de uma mulher jovem, foram as manifestações de desrespeito e selvageria nas redes sociais. Por dias, necrófilos se revezaram violando aquele corpo feminino sem vida.

Mensagens foram postadas, sem o menor recato, manifestando desejo macabro de consumo do corpo daquela moça que sonhava voar. Tudo o que os necrófilos viam era o objeto da sua volúpia doentia. Não era um corpo feminino inerte, vítima do imponderável. Era um corpo a ser consumido, sem reação da vítima, que agora já não tinha vida.

O desejo sombrio de prazer sexual pelo cadáver, manifesto publicamente por uma horda de psicopatas não apenas da jovem moça. Profanou o sagrado e destroçou toda a existência humana. O altruísmo foi atirado no abismo da degenerescência.

A violação, pelas redes sociais, do corpo morto é uma prática que junta tecnologia da comunicação e total ausência de limite ético, moral e, até mesmo, humano. Quando necrófilos se utilizam da comunicação de massa para manifestarem seus desejos lúgubres, algo muito grave está ocorrendo na humanidade.

A objetificação da mulher se manifesta não mais em círculos sociais. Agora, seu corpo está sendo violado e violentado em rede mundial, sem o menor escrúpulo e com total ausência de humanidade. O machismo estrutural não apenas agride, oprime e mata. Agora, violenta abertamente a mulher morta.

É o nível mais perverso e inumano criado pelo sistema patriarcal. Não é exceção. É a precipitação da conduta misógina e machista. Não existe mais alma nesses indivíduos rastejantes. São seres sem essência, sem amor-próprio, sem qualquer resquício de compaixão.

O machismo que mata também estupra o corpo feminino morto. E o ato de extrema violência é publicado com manifesto de regozijo e pretensa autoafirmação. Não existe mais alma nesse indivíduo. A doença machista chegou ao seu estado terminal.

Trata-se de uma enfermidade social, agravada pela insistência em objetificar a mulher. É o fundo de um poço ságua,sem vida, sem oxigênio, repleto de lama fétida.

Minha solidariedade a todas as mulheres. Sei que a violência não as intimidará. Pelo contrário, a luta vai continuar. A luta emancipatória das mulheres é uma luta pela humanidade e pelos melhores valores humanos.

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O autor é sociólogo*.





 
 
 
20 de jun.
2 min de leitura

              Orlando SAMPAIO SILVA*


Quero mergulhar no mais profundo do meu ser,

lá onde se encontram meus ideais, meus pensamentos,

meus sentimentos, meus valores, minha subjetividade.

Nesta dimensão do meu ego,

conservo todos os estímulos às minhas ações

de construção, de produção e de reprodução.

Aí está a fortaleza da minha força vital.

Quem eu sou?

Posso responder a esta indagação,

de vez que conheço esse ser,

- o meu eu -

desde aqueles tempos arcaicos

em que vivia no mundo cinzento.

Acompanho o forjar deste ser desde então.

Ao longo do tempo,

constituí-me incorporando em mim

o colorido dos raios solares

no frio dos amanheceres

e no calor dos crepúsculos nos horizontes,

ainda que perdidos em Shangrilá...

Após o ocaso,

vem a escuridão,

e este personagem, o meu ser,

aprendeu a ver onde não há luz,

e, a caminhar nas trevas, sem percalços,

apenas iluminado

pela luminosidade fulgurante das estrelas.

Essa construção constitutiva deste ser

foi longa...

e ela prossegue

neste trilhar desbravador de presentes,

que se sucedem,

e de futuros, que não param de chegar.

Hoje, aqui estou, aqui sou

e aqui penso.

Ergo sum.

Este ser

que testemunha a complexidade da vida,

e que alimenta seus projetos

no imponderável, que ainda virá;

que, com afetos e com amor,

é estimulado, em sua subjetividade,

pelo prazer dos atos reprodutivos,

mas, também, que edifica

essa nova torre de Babel

onde, ao contrário da outra, há compreensão

e entendimento entre os que compartilham a obra,

no diálogo

e na construção idealizada

dos tempos de paz, que busca perpetuar.

Este ser existe,

vive em um mundo simbólico

de paz interior

e de paz na sociedade dos humanos.

Apenas assim o meu ser,

o meu ego

encontra o continente que acolhe

a sua totalidade ontológica,

e que, no transcurso da vida,

como um Prometeu,

busca distribuir o fogo transformador

que ilumina espaços e gentes.

                                                                           (S. Paulo, 06/8/2019)

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 *Antropólogo, advogado, professor, poeta, o autor é tripulante deste blogue, o decano deles. Frequentemente, seus textos em prosa ou poesia são postados neste espaço.

 

 

 
 
 
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