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O mar, amar*

Do alto do 11° andar, a vista pode lançar-se sobre o infinito que tem fim. Onde - quem o sabe? Ele, no entanto, está lá. A convidar os que o vêem, tirem ou não proveito de sua existência e de sua permanência, à contemplação inevitável. Sua grandeza sugere quase tudo quanto pode passar pela imaginação humana. Esta, sempre maior que o tamanho das águas contempladas. Aquelas que passam diante de nós e jamais voltam, como Heráclito lembrou. Mas também aquelas, empoçadas nas cidades ou contidas por limites claros e definidos. Como nos açudes e lagos. Nenhuma dessas capaz de trazer à mente do veranista, do navegador, do mergulhador ou do artista, as sensações experimentadas por Caymmi, que o fizeram dizer: o mar/quando quebra na praia/é bonito, é bonito...Pobres mortais, a que Clio e Cíclope negam intimidade, escasseia o talento do sábio baiano. O que não impede os olhos postos no horizonte distante de verem o que a visão não alcança. Aquele sentimento simultâneo, mas não excludente, entre o deslumbramento e o pavor. Logo a arte feita de versos e sons remete à de Munch, registrada em tela e tinta, que O grito suscita. Enquanto as águas permitem conjeturar sobre a superfície líquida onde se esconde a vida de tantos seres conhecidos e desconhecidos; enquanto sobre elas trafegam grandes embarcações cheias de promessas e riscos; lá, onde os mergulhadores, cientistas e bombeiros resgatam vidas, recolhem alimentos, produzem Ciência, lá também se escondem os adamastores de que Camões se ocupou. Cá, o homem contempla o mar e faz dele a razão do mergulho dentro de si mesmo. À margem das águas, ele delas não se sente excluído. O benefício resultante de vê-las, como o quadro de Munch, a canção de Caymmi e o poema de Camões, não tem tamanho! Como o amor ..

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*Da varanda de um 11° andar, o editor contempla o Atlântico. Salinas, Pará. 21-06-2026.

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