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O livro Confissões da Poesia, de Silvio Romano, chegará aos leitores em julho. O poeta teve a gentileza de comunicar o adiamento da sessão de autógrafos, que ocorreria dia 10 próximo. Faz assim, quem respeita seus leitores.

 
 
 

Se ainda não houvessem números suficientes para mostrar quanto o capitalismo é nocivo à sociedade humana, recentes registros estudados por cientistas japoneses suprem a suposta carência estatística. Mesmo sabendo-se quanto doenças adquiridas por causa do trabalho ocorrem em todos os países, o Japão parece mais afetado pelo fenômeno. As justificativas de ordem cultural, que atribuem o fenômeno ao amor ao trabalho, levando ao lá chamado karaoshi, não explicam tudo. Servem, porém, para acender a luz de alerta que deve preocupar todos os governantes, mundo afora. Do ponto de vista ideológico, nada influi nos graus de ocorrência do fenômeno, conhecido no Brasil como em todos os demais países. Até porque, em lugar nenhum do mundo as relações sociais fogem ao neoliberalismo, de que a China mostra a intenção de afastar-se. Em região onde o trabalho nos canaviais causa males e mortes em índices expressivos, de que Araçuí (MG) é o exemplo, chama-se a isso binole. Lá e cá, e em todos os continentes, a exploração do trabalho humano tem sido a marca mais visível dos valores fundamentais do capitalismo. Nada a surpreender, sempre que o egoísmo e a competição reinam soberanos. Mesmo – e até mais por isso - se a tecnologia vem anunciada da poupança do esforço dos trabalhadores, a consequência mais provável (a experiência assim o diz) é o desemprego. Se a introdução das inovações tecnológicas promove acumulação em escala excepcional, ela também gera novas e maiores necessidades no principal agente da produção – o trabalhador. No país onde o capitalismo mais avançou, é expressivo o número de pessoas que morrem à porta dos hospitais, apenas porque não têm como pagar os serviços negados pelo estado norte-americano. Pequenos avanços, como experimentados durante a gestão de Barack Obama, têm sido reduzidos ou eliminados. E nada indica que essa tendência será interrompida, pelo menos enquanto o soba atual permanecer no poder. Marx, se vivo fosse, enfrentaria problema de que só os filósofos (os quixotescos, também) têm consciência – previsões desagradáveis a quem as faz, sempre lhes trazem dores, quando se confirmam.

 
 
 

Muniz Sodré*


Não são terroristas as duas maiores organizações criminosas nacionais sancionadas pelo governo norte-americano. Não por lhes faltarem motivações ideológicas ou religiosas, como se vem apontando. O terrorismo internacional que derrubou as torres gêmeas nos EUA, explode bombas em lugares públicos e incita à autoimolação de fanáticos tem uma singularidade: não negocia. Ou seja, não é político-ideológico. Nem espiritual, pois seu apelo ao divino é mero rótulo para a vingança. Terrorismo é guerra civil permanente de desterrados.

Terror é um sentimento de pavor ou de ansiedade extrema, geralmente causado por violência ou ameaças. É uma forma radicalizada do medo, que excede a capacidade de controle e paralisa os mecanismos de defesa do indivíduo. Não se confunde com o simples temor, que não afeta a possibilidade de pensar e reagir. O terror emerge dos momentos de repressão desenfreada de um regime político ou das ações movidas pelo fanatismo, no passado e no presente. O Irgun (dissidência da Haganah, organização paramilitar sionista), que explodiu um hotel de ingleses em 1946, matando 91 pessoas, era terrorista. A Al-Qaeda é polo centralizador do terrorismo árabe. Os grupos de supremacia branca nos EUA, como os Proud Boys e a Ku Klux Klan, são estruturalmente terroristas.

Em princípio, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) não têm nada a ver com essas descrições. São máfias voltadas para o contrabando de armas, tráfico de drogas, extorsão, lavagem de dinheiro, assaltos, torturas e execuções. Nelas, porém, inexiste a dinâmica de suicídio inerente às fantasias identitárias que sustentam a mitologia de uma divindade onipotente, de um regressivo califado ou mesmo de uma branquitude unitária. Nem a matriz vingativa que rege as necropolíticas da extrema direita.

Vingança, uma pulsão propriamente terrorista, responde em parte pelo que vem acontecendo nos EUA. Trump é pretexto para que as elites brancas e os rednecks empobrecidos concretizem o seu histórico ressentimento contra imigrantes, negros, mulheres, asiáticos e latinos. Nem sequer as Forças Armadas norte-americanas escapam ao escrutínio discriminatório: as promoções de oficiais de alta patente têm excluído negros e mulheres, de modo sistemático.

O neofascismo emergente nos EUA é a face terrorista do neoliberalismo. Compreende-se, assim, que essa dimensão velada pelo marketing da democracia de exportação tente projetar sobre outros, por interesses econômico-financeiros momentâneos, a pecha do terror. Essa oblíqua classificação é decisão política, e não técnica, de um sistema imperial. O que se quer mesmo é desmoralizar a soberania jurídica brasileira, torpedeando o Pix, à sombra de escusos desígnios eleitorais. Combate ao crime é ambígua tela de fundo para uma chantagem deslavada.

Colar seriamente o rótulo sancionado a tumores sociais como PCC e CV (que os governos nacionais, sim, irresponsavelmente, deixaram crescer) implicaria auscultar a urbanidade periférica, cujo cotidiano oscila entre o medo e o terror impostos por essas facções. Ou seja, escutar politicamente a voz das comunidades submetidas. Terrorismo, se há, é só para os desamparados: são vidas paralisadas pela ditadura do crime.

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*Professor Emérito da UFRJ e jornalista. Artigo publicado na Folha de São Paulo, 06-06-2026.

 
 
 
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