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Célebre e vergonhosa reunião, realizada no Palácio do Planalto, em 22 de abril de 2019, soou como clarim. Nem por isso despertou a resistência dos que defendem a natureza, e com ela a paz. Presidida pelo próprio chefe do Poder Executivo, a tragédia anunciada, nem por se ter interrompido a partir de 2024, cessou de todo. O proclamador da guerra contra territórios e povos logrou assento em outro Poder, desta vez encontrando ressonância para sua fúria assassina. Muitas das crises fabricadas pelo Poder Legislativo, em sua feroz cruzada contra os outros dois poderes republicanos, acabaram por anular o combate às mais nocivas políticas de terra arrasada promovidas pelo atual governo. Com celeridade maior e mais predatória, as decisões do Congresso parecem empenhadas em alcançar o extermínio das populações, ao mesmo tempo exaurir o potencial de recursos existentes nos rios, solo e subsolo do País. Com a agravante de que muitos dos territórios onde se concentram esses recursos já são controlados por organizações criminosas. Assim, os que têm concorrido para fortalecer a ação dos delinquentes organizados podem ser considerados seus cúmplices. O mais recente resultado desse conluio traduz-se na aprovação de projeto de lei que proíbe a destruição dos equipamentos que usados nas atividades ilegais. Se a decisão do Congresso for vetada pelo Presidente da República, é quase certo que os interessados rejeitem o veto. A experiência o tem revelado. Embora esse seja somente um dos muitos passos dados, aberta a porteira, é o tema que mais expressa a avidez do rebanho em atravessar o rito e o ritmo democráticos.

 
 
 

• O que explica a resiliência eleitoral de políticos que deveriam ter afundado faz tempo?

• Flávio Bolsonaro está agora no meio da Times Square, com a arma na mão e o corpo à sua frente estendido no chão


Joanna Moura*


"Eu poderia atirar em alguém no meio da Quinta Avenida e ainda assim não perderia nenhum eleitor."

A frase saiu da boca de Donald Trump com a empáfia que lhe é característica. O ano era 2016 e Trump ainda disputava as primárias do partido republicano. A bravata soou para muitos como mais uma das insanidades inconsequentes ditas dia sim, dia também pelo então pré-candidato, mas os anos seguintes provaram que, em boa medida, Trump estava certo.

Trump não chegou a atirar em ninguém, mas trabalhou duro para testar a lealdade de seus apoiadores. Entre 2016 e 2024, foi investigado por tentativa de obstrução de justiça no caso da interferência russa nas eleições de 2016, sofreu dois processos de impeachment —um por pressionar um governo estrangeiro a investigar um adversário político e outro por incitação à invasão do Capitólio— e, já fora da presidência, passou a responder a múltiplos processos criminais, incluindo tentativas de reverter o resultado eleitoral e retenção ilegal de documentos confidenciais.

Em 2024, tornou-se o primeiro ex-presidente dos Estados Unidos a ser condenado criminalmente, no caso de falsificação de registros para encobrir pagamentos durante a campanha. Mesmo assim, em janeiro de 2025, Trump foi reconduzido à Casa Branca para um segundo mandato presidencial.

Voltemos agora nossos olhares para o Brasil, e consigo visualizar Bolsonaro, em sua mansão, entre um arroto literal e outro, arrotando alguma coisa parecida com a frase dita por Trump em 2016.

"Eu poderia encher alguém de bala no meio da Praça dos Três Poderes e, mesmo assim, o povo ia votar em mim, táokei?"

Estaria ele errado? Afinal, o que pode explicar a inabalável relevância política de um homem cuja atuação —ou falta dela— durante uma pandemia matou mais de 700 mil pessoas? O que poderia explicar o apoio incondicional a um homem que desdenhou de gente morrendo, trabalhou ativamente pela disseminação de fake news e contra a vacinação?

Como se não bastasse sua perversa condução da pandemia, —o mais grave de todos os seus crimes— Jair falsificou cartão de vacinação, tentou afanar joias presenteadas ao Estado brasileiro, ampliou e capitalizou em cima das emendas secretas, se envolveu com alguns dos mais podres personagens da política e, finalmente, conspirou contra a democracia ao planejar um golpe de Estado que previa inclusive a morte do presidente, vice-presidente e de ministros da Suprema Corte.

E mesmo assim ouso afirmar que, caso estivesse elegível, Jair seguiria com boas chances de vitória. Não à toa, seu filho Flávio, aquele que, em sua época da Alerj, prestava homenagem a milicianos e empregava em seu gabinete familiares do Adriano da Nóbrega, aquele das rachadinhas e da loja da Kopenhagen que faturava menos na Páscoa e mais nos dias de pagamento da Alerj, se mantém competitivo na disputa pela Presidência. Mesmo diante desse histórico e de todas as evidências de que a fruta não cai longe do pé, Flávio chegou à frente numérica das pesquisas. Até agora.

Semana passada, vazaram os áudios amorosos de Flávio para Daniel Vorcaro, o banqueiro ladrão responsável pela maior fraude financeira da história do Brasil. A mensagem é explícita. Flávio pede dinheiro a Daniel. Depois nega, ao vivo, para o repórter da Intercept.

Flávio está agora no meio da Times Square (ou da Praça dos Três Poderes, deixo a encenação a seu critério), com a arma na mão e o corpo à sua frente estendido no chão. E todos nós vimos (e ouvimos) quem cometeu os disparos. Resta saber se, ainda assim, ele não perderá nenhum voto.

__________________________________________________________________________________*Joanna Moura, Folha de São Paulo, 19-05-2026.

 
 
 

Marginal, genericamente, é vocábulo empregado para tudo quanto esteja à margem. De um rio, do oceano e de outros fenômenos da natureza. Da Lei, também. Manaus, por exemplo, está à margem esquerda do Rio Negro. Belém ocupa a mesma posição, em relação à baía do Guajará. Há, em São Paulo, avenidas que correm às margens dos rios Tietê e Pinheiros. Em todas essas cidades, como em todos os outros estados e países, há os que vivem à margem da Lei. A maioria, que não pode sequer alegar que vive, vê-se forçada à marginalidade. A sobrevivência animal exigindo submeter-se aos caprichos, vontades e perversidades de outro tipo de marginal. O que, orientado pelo mais desumano egoísmo, condena os demais aos sofrimentos e dores que todo cidadão consciente e no uso dos mais elementares valores humanos consideraria inspiradores de sua conduta. Os primeiros, despossuidos de mais que sua própria miséria material, cada dia mais desprezados e alvos da maldade que os outros, miseráveis morais, acumulam ao longo de sua maldita vida. Pior, quando se os comparam, observa-se verem-nos de mãos dadas, como se fossem iguais, para além das aparências. Daí o comportamento de marginais simulando hostilidade a situações por eles mesmos criadas, em relação aos objetos de sua ganância, seu egoísmo e sua hedionda malignidade. O discurso anti-corrupção, por exemplo, é manifestação genuína, quando pronunciado pelos miseráveis materiais. Não é menos que descarado simulacro, se vem da boca dos produtores e beneficiários da desigualdade. Entre os que clamam contra a roubalheira do dinheiro público, encontramos gente que a pratica, hoje já não mais preocupada com o encobrimento dos fatos. Exemplo mais rasteiro, também frequente, é ocupar lugar em filas destinadas aos segmentos tidos por prioritários, na forma que a Lei estabelece. Sem se darem conta da marginalidade de seu ato. Aquele que faz do beneficiário nada menos que um marginal.

 
 
 
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