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Os pretextos para impedir a redução da jornada 6 X 1 são os mesmos que antecederam a chamada Lei Áurea. Também nada têm de diferente, se os compararmos à criação do salário mínimo. Como diferença não há, se for lembrada a criação do FGTS. Mais recente, a desenhar o perfil de nossas elites econômicas, o enterro da proposta de tributar as grandes fortunas. Como a de Daniel Vorcaro, de alguma forma e em algum momento, iniciadas com expressivos e suculentos nacos saídos do cofre público. A resistência à promoção do combate à desigualdade, como previsto na Constituição Federal, revela, de fato, a face perversa do egoísmo e da ganância. Há muito, tornei-me surdo às alegações dos especuladores e especialistas por eles arregimentados, para quem os números importam mais que as pessoas. Assim, não conseguirá envolver-me em discussão sobre os problemas de nossa economia, todo aquele que excluir a desigualdade dos itens a discutir. Se aos poderes republicanos cabe entregar-se ao cumprimento do artigo 3° da Lei Maior, isso não dispensa todo e qualquer cidadão de também curvar-se ao imperativo constitucional. A não ser que cada um se pense apenas res, coisa, não ser humano. É pequena a probabilidade da transformação de coisa em ser humano. Mais fácil a Jesus foi transformar água em vinho. Como o consumo do vinho cresce ano-pós-ano, por que garantir água aos que não podem consumir outra coisa?

 
 
 

Walbert Monteiro*


As relações humanas se fragilizam porque não se assentam sobre fidelidade, dever ou doação, mas sobre conveniência. Amizades se desfazem ao primeiro conflito. Casamentos sucumbem à incapacidade de suportar frustrações. Laços familiares se enfraquecem. A convivência social transforma-se numa arena de interesses cruzados, em que o outro vale enquanto satisfaz, trazendo consequências visíveis. Cresce o individualismo, diminui a tolerância, enfraquece o sentido de responsabilidade coletiva.

A liberdade, valor fundamental, passa a ser confundida com ausência de limites, quando, na verdade, só se realiza plenamente quando orientada por princípios éticos sólidos. E a constatação surpreendente é que, na chamada “aldeia global” interligada pelos mais diversos meios de comunicação, se testemunhe o crescimento do isolacionismo, pessoas sofrendo de depressão. É desconcertante o paradoxo de saber que nunca estivemos tão conectados por redes e tão desconectados por dentro. Há muita exposição de opiniões e pouca escuta verdadeira. Nunca se proclamou tanto o respeito à diversidade e, simultaneamente, se demonstrou tanta intolerância diante de quem pensa diferente. Proclama-se a liberdade, mas sufoca-se a consciência; exalta-se a autonomia, mas despreza-se a responsabilidade; reivindicam-se direitos, mas esquecem-se os deveres.

Não me vejam como saudosista, conservador e retrógrado. Mas, há que se reconhecer que o progresso material, desacompanhado de fundamentos morais consistentes, gera distorções profundas. Uma sociedade que minimiza a dignidade humana e absolutiza conveniências momentâneas, perde o próprio sentido de humanidade. Uma sociedade que protege com maior intensidade o periférico, com fervor o acessório, desprezando o que deveria ser absoluto, revela confusão de valores.

Sei que meu pensamento é utópico, mas é preciso resgatar referências e recuperar o sentido do que é essencial. A vida humana — em qualquer circunstância e em todas as suas fases — não pode ser relativizada. A ética não pode ser moldada ao sabor dos interesses. A liberdade não pode prescindir da responsabilidade. Urge, portanto, recuperar a centralidade do ser humano, sem cair no sentimentalismo vazio nem na brutalidade utilitarista. Reafirmar o valor da ética, reconhecer a importância de princípios que não devem ser negociados ao sabor das conveniências, restaurar o sentido de compromisso nas relações, não é nostalgia, mas exigência para qualquer futuro minimamente civilizado. E uma civilização só é verdadeiramente humana quando estabelece uma hierarquia moral clara, fazendo com que homem e mulher ocupem lugar central, inegociável, superior a qualquer moda ideológica ou emoção seletiva. Sem isso, a compaixão se torna incoerente, a liberdade degenera em arbitrariedade e o progresso não passa de verniz sobre um vazio ético cada vez mais profundo.

Não sobreviveremos se transformarmos pessoas em coisas, vínculos em conveniências e princípios em mercadorias. Sem esse reencontro com o essencial, se não restabelecermos o sentido de limites, de dever, de responsabilidade e de respeito absoluto à dignidade humana, continuaremos sofisticando discursos enquanto empobrecemos a consciência — um paradoxo que já não pode ser ignorado.

As contradições do nosso tempo manifestam-se no cotidiano, nas escolhas pessoais, nas atitudes coletivas. Superá-las exige coerência, consciência crítica e compromisso com a verdade. Em meio à fluidez da modernidade líquida, talvez o maior desafio seja justamente este: reencontrar aquilo que não pode — e não deve — se dissolver.

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*Jornalista e escritor, o autor é membro da Acadêmia de Letras e da Academia de Jornalismo do Pará.

 
 
 

Walbert Monteiro, advogado, escritor e jornalista paraense, comparece ao ESPAÇO ABERTO. Lá, o visitante encontrará interessante e oportuno texto sobre as contradições presentes nas relações humanas. São palavras que suscitam e justificam a teflexão dos que as lerem. Confiram!

 
 
 
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