As contradições do nosso tempo (II)
- Professor Seráfico

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Walbert Monteiro*
As relações humanas se fragilizam porque não se assentam sobre fidelidade, dever ou doação, mas sobre conveniência. Amizades se desfazem ao primeiro conflito. Casamentos sucumbem à incapacidade de suportar frustrações. Laços familiares se enfraquecem. A convivência social transforma-se numa arena de interesses cruzados, em que o outro vale enquanto satisfaz, trazendo consequências visíveis. Cresce o individualismo, diminui a tolerância, enfraquece o sentido de responsabilidade coletiva.
A liberdade, valor fundamental, passa a ser confundida com ausência de limites, quando, na verdade, só se realiza plenamente quando orientada por princípios éticos sólidos. E a constatação surpreendente é que, na chamada “aldeia global” interligada pelos mais diversos meios de comunicação, se testemunhe o crescimento do isolacionismo, pessoas sofrendo de depressão. É desconcertante o paradoxo de saber que nunca estivemos tão conectados por redes e tão desconectados por dentro. Há muita exposição de opiniões e pouca escuta verdadeira. Nunca se proclamou tanto o respeito à diversidade e, simultaneamente, se demonstrou tanta intolerância diante de quem pensa diferente. Proclama-se a liberdade, mas sufoca-se a consciência; exalta-se a autonomia, mas despreza-se a responsabilidade; reivindicam-se direitos, mas esquecem-se os deveres.
Não me vejam como saudosista, conservador e retrógrado. Mas, há que se reconhecer que o progresso material, desacompanhado de fundamentos morais consistentes, gera distorções profundas. Uma sociedade que minimiza a dignidade humana e absolutiza conveniências momentâneas, perde o próprio sentido de humanidade. Uma sociedade que protege com maior intensidade o periférico, com fervor o acessório, desprezando o que deveria ser absoluto, revela confusão de valores.
Sei que meu pensamento é utópico, mas é preciso resgatar referências e recuperar o sentido do que é essencial. A vida humana — em qualquer circunstância e em todas as suas fases — não pode ser relativizada. A ética não pode ser moldada ao sabor dos interesses. A liberdade não pode prescindir da responsabilidade. Urge, portanto, recuperar a centralidade do ser humano, sem cair no sentimentalismo vazio nem na brutalidade utilitarista. Reafirmar o valor da ética, reconhecer a importância de princípios que não devem ser negociados ao sabor das conveniências, restaurar o sentido de compromisso nas relações, não é nostalgia, mas exigência para qualquer futuro minimamente civilizado. E uma civilização só é verdadeiramente humana quando estabelece uma hierarquia moral clara, fazendo com que homem e mulher ocupem lugar central, inegociável, superior a qualquer moda ideológica ou emoção seletiva. Sem isso, a compaixão se torna incoerente, a liberdade degenera em arbitrariedade e o progresso não passa de verniz sobre um vazio ético cada vez mais profundo.
Não sobreviveremos se transformarmos pessoas em coisas, vínculos em conveniências e princípios em mercadorias. Sem esse reencontro com o essencial, se não restabelecermos o sentido de limites, de dever, de responsabilidade e de respeito absoluto à dignidade humana, continuaremos sofisticando discursos enquanto empobrecemos a consciência — um paradoxo que já não pode ser ignorado.
As contradições do nosso tempo manifestam-se no cotidiano, nas escolhas pessoais, nas atitudes coletivas. Superá-las exige coerência, consciência crítica e compromisso com a verdade. Em meio à fluidez da modernidade líquida, talvez o maior desafio seja justamente este: reencontrar aquilo que não pode — e não deve — se dissolver.
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*Jornalista e escritor, o autor é membro da Acadêmia de Letras e da Academia de Jornalismo do Pará.

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