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De porretes a tarifas, a soberania cerceada

26 de jul.
9 min de leitura

Roberto Amaral*


Tanto a preeminência inglesa sobre o Brasil quanto, na sua sucessão, o imperialismo estadunidense, que se instala nas primeiras décadas da nossa República — nas pegadas da decadência britânica — para chegar a estes dias com a fúria trumpista, têm sido objeto de estudos e de reflexão mais aprofundada a partir da formação de pesquisadores universitários, fruto da criação de cursos de Ciência Política e Relações Internacionais e, concomitantemente, do maior acesso a documentação.

Ao lado do papel das universidades (vale mencionar a UnB, a PUC-Rio, a USP e o antigo IUPERJ, hoje hospedado na UERJ), é de mencionar o estímulo à pesquisa e às dissertações de mestrado e doutorado, bem como o acesso facilitado a fontes primárias, propiciado pela abertura de arquivos norte-americanos, franceses, ingleses e portugueses. Igual relevância se deve aos intercâmbios internacionais e aos incentivos e bolsas de estudo financiados por agências nacionais, como o CNPq e a Capes, e mesmo por organizações internacionais, caso das Fundações Ford, Rockefeller e Fulbright, além da USAID. Assinale-se, igualmente, ainda neste contexto, a contribuição dos chamados brasilianistas, como Thomas Skidmore, Alfred Stepan, Kenneth Maxwell, Leslie Bethell e Alan K. Manchester.

Consabidamente, parte do financiamento internacional às ciências sociais esteve inserida no contexto da Guerra Fria e da disputa de influência política dos EUA na América Latina. Mesmo assim, muito de relevante foi produzido.

Fora do âmbito universitário e dos espaços do Itamaraty, as preocupações com a política internacional circunscreviam-se a poucas instituições; raras eram as revistas especializadas e poucos os intelectuais, historiadores e pesquisadores que se dedicavam ao tema. Dentre esses, certamente o mais conhecido e lido terá sido José Honório Rodrigues. O ambiente se altera a partir do final do governo constitucional e democrático de Getúlio Vargas, das tímidas iniciativas de Juscelino Kubitschek, como a OPA (Operação Pan-Americana), e da didática crise com o FMI. Mas o tema só conquista destaque a partir de 1961, com a Política Externa Independente (PEI), patrocinada por Jânio Quadros, implantada em seus cruciais primeiros tempos por Afonso Arinos e estruturada como tese por San Tiago Dantas.

Assim, de fraque e cartola, a temática — nossa subordinação aos sucessivos impérios, e a necessidade de superá-la — finalmente será recepcionada pela inteligência acadêmica e, afinal, pautada pela imprensa. Será sustentada pelo governo de João Goulart, sem retoques, mas com dificuldades óbvias, se considerarmos o recrudescimento da Guerra Fria, a crise dos mísseis em Cuba e as articulações golpistas do governo dos EUA, abertas por John F. Kennedy e concluídas por Lyndon B. Johnson em 1º de abril de 1964, nos termos conhecidos.

A partir do golpe, e vistas suas fontes e seus projetos, postos às claras já no Ato Institucional nº 1, escrito por Francisco Campos e datilografado por Carlos Medeiros e Silva (futuro ministro da Justiça) para a assinatura dos generais, qualquer sorte de política independente seria inadmissível, e o regime militar tratará de seguir com fidelidade canina a ordem dos interesses políticos e geoestratégicos dos EUA, que tanto haviam contribuído para o Primeiro de abril. Nosso embaixador em Washington, o primeiro nomeado pelo mandarinato militar, e em seu primeiro pronunciamento na capital estadunidense, anuncia a cartilha que orientará seu ofício: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”.

E assim foi.

Esta declaração não pode ser desqualificada como uma gafe, eis que se trata da explicitação consciente e militante da ideologia da classe dominante brasileira. O general-embaixador Juracy Magalhães não é um fardado qualquer. Sua história deita raízes na Revolução de 1930 e na ditadura do Estado Novo, a que serviu e de que se serviu como interventor na Bahia (nomeado por Getúlio Vargas), de onde emergiria como líder político. Militar, participaria de todas as quarteladas que marcaram a segunda metade do século passado, inclusive da deposição de Vargas e, finalmente, do golpe de 1964, que o faria, além de embaixador nos EUA — o primeiro da ditadura, como vimos — ministro das Relações Exteriores e ministro da Justiça.

A preeminência norte-americana, a fase imperialista, manifesta-se mais precisamente a partir da segunda década do século passado, mas sua influência ideológica vem de antes, pois vai ao encontro do “americanismo” de Joaquim Nabuco. O antigo líder abolicionista, prócer destacado da elite intelectual e econômica de Pernambuco, deputado-geral no Império, embaixador em Washington entre 1905 e 1910, antevia o século XX como o “século americano” e nisso resolveu investir. 

Pragmático, transitara do monarquismo à República e pregava a necessidade de o Brasil ocupar uma posição privilegiada junto aos EUA. Pouco atento à realidade (Nabuco será embaixador durante a presidência de Theodore Roosevelt — 1901-1909 —, a quem se deve a política do big stick!), acreditava que a amizade que oferecia aos EUA protegeria o Brasil de intervenções das decadentes potências europeias. Potências que, como é sabido, não nos ameaçavam.

Assinalo esse período como o primeiro marco da influência ideológica dos EUA, que aqui chega com a Proclamação da República e o recesso do positivismo (e, no mesmo embalo, das lideranças maçônicas que vinham do Império), tanto na política quanto na formação dos quadros militares. Por então, a Inglaterra ainda mantinha sua presença e sua influência no comércio e no setor de serviços e, principalmente, na área financeira (a Casa Rothschild chega ao Brasil com os empréstimos que financiaram a Independência e nos jogaram de mãos e pés atados no colo da Coroa britânica), presença e influência que se vão esmaecendo à medida que se afirmam, já a partir dos anos 1920-30, as relações com os EUA, mediadas principalmente por nossas exportações de café. 

A grande influência, ainda econômica e já política, ideológica e cultural, opera-se de forma mais clara a partir da Segunda Guerra Mundial. Sai a City de Londres, nos voltamos para Wall Street.

Neste ponto, os desdobramentos são múltiplos e abarcam todos os campos — econômicos, políticos e ideológicos — que, ainda na Itália, emprestarão novas cores e ditarão novos rumos para as Forças Armadas brasileiras — daí em diante, americanófilas, desenraizadas de qualquer sorte de projeto nacional e, incuravelmente insubordinadas, fraturando seguidamente a ordem constitucional, de agosto de 1954 até 1985, quando o último general ditador, saindo pela área de serviço, deixa as dependências do Palácio do Planalto.

(Quando a densa poeira de hoje baixar, será possível conhecer e trazer ao crivo da história a participação de segmentos ponderáveis das Forças Armadas na fracassada intentona de janeiro de 2023.)

A presença, a influência e o mando do imperialismo manifestam-se mediante formas e meios os mais variados. O cardápio é extenso e rico, pois contempla o poder econômico, o diktat político-militar (as intervenções, as invasões, os golpes de Estado e as guerras) e o soft power ideológico. Os produtos que se espalham mundo afora trazem também seus valores, o American way of life, e ambos são comprados e consumidos. 

No rastro da potência econômica e militar, impõe-se a presença política e ideológica, formatando “corações e mentes”, com o monopólio da fala e da imagem, a serviço de seus interesses, sejam econômicos, sejam geopolíticos, pondo por terra as aspirações de soberania daquelas nações que não lograram apresentar-se, no presente, como potências militares.

Superada política e culturalmente a subordinação colonial, vencida a influência francesa e o predomínio britânico, caminhando para a maioridade tardia, o maior país da América do Sul era uma virtual colônia cultural da grande potência do Norte, que formará nossos pesquisadores, nossos cientistas, nossos historiadores e formará, profissional e doutrinariamente, nossos oficiais superiores. 

Será, enfim, a lente por intermédio da qual contemplaríamos o mundo que nos era apresentado como modelo a copiar, e certamente é a fonte na qual vai beber o gênio de Nelson Rodrigues, com o seu achado do “complexo de vira-latas”, a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do “Primeiro Mundo”, ou, em outros termos, mas ainda em reflexão e palavras rodriguianas, o “Narciso às avessas”, que cospe na própria imagem.

Este é o presente que reproduz o passado. E, tanto no presente quanto no passado, as tropas invasoras têm o caminho aberto pela alienação das elites locais (recomendo a leitura de “Kissinger no meio do redemoinho”, texto de Luís Cláudio Villafañe e Rogério de Souza Farias, na Piauí deste mês).

Vimos como a Avenida Paulista reagiu aos primeiros tarifaços impostos ao Brasil por Washington: servilmente, sem nenhuma crítica ao ato de força que atingia nossa economia. Chega agora o segundo tarifaço, há muito anunciado e há muito esperado, porque, justiça lhe seja feita, a imprensa cobriu muito bem as andanças do senador Flávio Bolsonaro nas cercanias da Casa Branca. Repete-se o capachismo.

O novo pacote de tarifas afetará “cerca de 3 mil itens exportados e mais de US$ 11 bilhões em vendas da indústria e do agronegócio brasileiro” (Valor, 17/07/2026).  Mas a alienação da classe dominante não sofre abalos. O que se ouve e o que se lê é o velho cantochão empresarial, a que adere uma coorte de “especialistas”, a ditar “bons modos” ao nosso governo, e por bons modos leia-se: “não há nada por fazer”, senão negociar nos termos impostos pela Casa Branca, ou seja, sentar-se à mesa com o parceiro inconfiável e ainda poderosíssimo, porque é ele que escolhe as cartas, reserva para si os ases, os reis e o coringa, e ainda pode, ao seu talante, alterar as regras do jogo. 

Nada obstante, insistem os empresários e repete o que se chama de “grande imprensa”: “é hora de negociar”, e não se fale em  reciprocidade. Ou: “às favas a dignidade nacional”, que nos deve lembrar a conhecida exaltação retórica do coronel Passarinho — exemplo conspícuo da caserna engalanada — na reunião do Ministério Costa e Silva que instituiu o AI-5: “Às favas todos os escrúpulos de consciência.” 

O conselho, ditado a um general presidente da República, bem se aplica ao quadro presente, pois nada nos recomenda esperar de nossas lideranças empresariais senão a contabilidade de seus lucros imediatos. Às favas, portanto, com nossa soberania, com nossa dignidade, com nosso amor-próprio, com os velhos sonhos de conversar com o mundo de cabeça erguida e tendo o que dizer.

A agressão de Washington se opera no curso lógico de sua investida imperialista sobre a América Latina, revivida como seu “quintal”. Neste contexto, cresce a importância da América do Sul e, nela, de nosso país, rico em minerais críticos essenciais à tecnologia dual do século XXI, como as terras raras e o lítio. As consequências são sabidamente péssimas. Mas como explicá-lo a um empresariado forâneo, a uma classe dominante alienada, a Forças Armadas doutrinadas pelo inimigo? Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Argentina, Paraguai... como não enxergar o cerco? O que se opera, por detrás dos tarifaços e de outras impertinências, como as que alcançam o STF, é, nas palavras de Hussein Kalout (citado por César Felício, “Objetivos de Trump vão além de interferir na política do Brasil”, Valor, 17/07/2026), “cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental”.

O fato é este. O mais são suas consequências.

***

Os crimes do anfitrião — Encerrou-se no último domingo, sem deixar saudades para a torcida brasileira, a Copa do Mundo da FIFA 2026 — marcada não só por bom futebol e  festa nas arquibancadas, mas também por lances esdrúxulos fora do campo, como constrangimentos a jogadores e torcedores do Sul Global, perseguição à seleção iraniana e até mesmo intervenção direta do projeto de autocrata estadunidense para anular um cartão vermelho aplicado — com justiça, por um árbitro brasileiro — ao craque de seu time. A poucos quilômetros do estádio que assistiu à indiscutível vitória espanhola estão encarcerados Nicolás Maduro e sua esposa, sequestrados por militares dos EUA em janeiro deste ano, durante ataque ilegal que vitimou cerca de 100 pessoas e franqueou aos agressores o controle do bilionário setor de petróleo e gás da nação sul-americana.


Burguesia invertebrada — Nesse contexto, e enquanto Donald Trump ameaça a realização das eleições legislativas previstas para novembro, num passo arriscado que pode consolidar o fechamento do regime, e o Tesouro dos EUA começa a produzir moedas com a efígie do incumbente, o inexcedível Estadão derrama-se em loas ao que identifica como vigor da democracia americana: “Ao completar 250 anos de independência sem rupturas, os EUA reafirmam ao mundo o valor da estabilidade das instituições democráticas, pilar do seu formidável desenvolvimento”.


Moral grouchiana– A imprensa pouco comentou e comentará um dado eloquente da Copa que ora se encerra: a ausência da Federação Russa. Desde fevereiro de 2022, FIFA e UEFA suspenderam seleções e clubes russos de suas competições, em razão da invasão da Ucrânia (resposta de Moscou ao avanço da OTAN), decisão confirmada pela Corte Arbitral do Esporte (CAS). De princípio, nada a objetar: agressões militares não deveriam ser premiadas com normalidade esportiva. O que salta aos olhos, porém, é a gritante assimetria. Os EUA, que sediaram a maior parte do torneio e a própria finalíssima, não sofreram qualquer sanção esportiva, apesar das agressões ao Irã e à Venezuela, e o patrocínio — diplomático e financeiro —ao genocídio palestino. A FIFA, que se apresenta como guardiã dos valores universais do esporte, aplica seus ditames conforme a geografia do poder. E o mundo responde com um silêncio tonitruante.

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* Com a colaboração de Pedro Amaral

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