top of page

Doze horas e quarenta minutos

ponteiros fixos

me põem imóvel

meus olhos furados

pela cena improvável

o sol contradiz o marcador

são diferentes suas rotações

e relações

dentro do oito

na madeira modelado

os cínzeos traços

não escondem

o pêndulo inerte

inaudível torna-se o

som sem reverbero

ao silêncio imposto

pelo tempo

oh, tempo!

que tudo e a todos

submete

quando a hora

ainda havia pouco

mal dera sete

badaladas incabíveis

na caixa de madeira

contemplada por visão

confusa

como a pedir fosse

revogada

forma de verso

(ou reverso)

a sentença poética

dita por Cazuza.


Manaus, 16/01-2021

 
 
 

Carnaval sem Momo

mesmice imposta

pior que tudo

- sabe-se como

à alegria

mascarados são diferentes

ao menos nas máscaras

encobrindo rostos

escondidas intenções

mal dissecadas

desérticas almas desalmadas

e o desgosto

armando propósitos

objetivos interesses

a custo alto

muito alto

arquitetados


não é banda

o que passa

à janela

quando muito a

ambulância estridente

o terror com os seus traços

braços dados à

ignorância

o mal feito

e subseres humanos

subservientes


em desfile funéreo

permanente

não sai às ruas

o bloco tão esperado

é bloqueado o dizer

do inconfidente

surdo fica o tambor

bem ritmado

algo sem ritmo

algoritmo do silêncio

cúmplice e sócio

assoberbado


alas não há

escolas são fechadas

estandartes que de amor

não são

proclamam roucas cuícas

trágica maldição

certo rufar acompanha

um abre-covas

sem comissão de frente

alegóricas mensagens

maus augúrios

enquanto no peito

o coração bate

todo dia menos forte

onde futuros

como fazê-los

diferentes

se o desfile

acabará em

morte?






 
 
 

Não acabou nosso carnaval

desta vez ele não veio

fez-se cinzento o

firmamento e tudo o mais

o medo

a angústia

a dúvida

mal escondidas

máscaras sobrepostas

rostos quase desprovidos

desconhecidos sentimentos

vírus e vermes

conluio trágico

trágica empreitada

movendo-os solerte

insana caminhada

ao fim: o encontro de

tanto corpo inerte

os dias todos

como todas as noites

a quarta-feira que

não se sabe ao certo

quando a areja

brisa refrescante

a todos proteja

ou se queima o sol

esmaecendo até fazer-se

vil deserto


outras são as cinzas

desta quarta-feira

pierrôs colombinas piratas

rainhas do Egito escondidas

não se sabe em que lugar

se não há matas

tombadas árvores

folhas ressequidas


ódio feroz contra

elas se desata

na morbidez de desejos

insensatos

inspiração engenhos

malfazejos

transformam tudo em

extenso cemitério

os atos todos

conduzindo ao fim

cinéreo.


Nestes dias nesta banda

não é da dor a despedida

menos de algum amor

que agora não se

canta

ódio posto em seu lugar

as contas não são aquelas

medidas de

acumulação invulgar

assustadora

bolsos off-shores bancos

esconderijos arrogantes

nem é sério o homem que

a conta

multidão em covas

acomodada

moça triste

ela sim, amofinada

as vantagens contadas

por distraído faroleiro

impossível de contar

em meio ao nevoeiro

estrelas não chegaram

à janela

nem à toa estava a

Vida

esmaecida, sem sangue

amarela

tambor clarins silenciados

dia teimoso em fazer-se

alvorecente

convocação que traz

à vida

a sofrida gente

só um ruído macabro

se ouvia

conduzindo mais um finado

ao destino

irrecorrente...

bandeiras outrora de alegria

não cabem na mão

do mal regente

deixa-as ao largo

também o mau gerente...












Manaus, 11-02-2021










 
 
 
bottom of page