top of page

Orlando Sampaio Silva*


Amonitas e Moabitas

          A cidade em que viviam Ló, sua esposa e suas duas filhas    -  Sodoma  - estava em chamas. “Ló com sua mulher e suas jovens filhas, sem que os ameaçadores [habitantes de Sodoma] os pudessem ver, fugiram da cidade, na certeza de estarem protegidos pelo seu Deus. Segundo a tradição bíblica, Deus puniu os moradores de Sodoma e de Gomorra por seus erros, destruindo as duas cidades com fogo e enxofre. Porém, a mulher de Ló, Ad, Ayla ou Edith (nomes alternativos referidos em meio à tradição rabínica judaica e, por outros estudiosos do texto sagrado), na fuga, não conseguiu conter-se e, na ansiedade da tentação, olhou para trás e contemplou Sodoma incendiada. De imediato ela foi transformada em uma estátua de sal. (Nessa área do Mar Morto, onde teria se registrado essa ocorrência, ainda hoje encontram-se as maiores reservas de sal do Mundo). A mulher de Ló fora punida pela desobediência... Deus, ao fazer a proibição, sabia qual seria o comportamento da mulher de Ló!

          A destruição das duas cidades teria ocorrido há cerca de 3.700 anos.

          Ló e suas duas filhas virgens   - sendo Paltith a mais velha das irmães, e Tamires a mais nova -, depois de breve estada na pequena cidade de Zoar, passaram a viver em uma caverna nas montanhas. Estando o pai já em idade avançada, as filhas, desiludidas e desesperançadas de que seriam procuradas ali por possíveis maridos, embebedaram o pai, e, então, mantiveram relações sexuais com ele. Em consequência, cada uma gerou um filho (incestuoso). Estes filhos foram: Bem-Ami (filho da filha mais nova, Tamires) e Moabe (filho da filha mais velha, Paltith). Bem-Ami veio a instituir a etnia Amonita, e Moabe foi o instaurador dos Moabitas, tendo cada um se tornado dirigente do povo a que deu origem, conforme narrado no Velho Testamento. [Fora o nome de Ló, os demais nomes próprios referidos decorrem da tradição e das contribuições de intérpretes da Bíblia].

__________________________________

*Orlando SAMPAIO SILVA, in “Novas Interpretações Referentes à Formação e à Vida do Povo Hebreu/Judeu” (Ed. Scortecci, 2021)

 
 
 

José Alcimar de Oliveira*

 

A dialética de Hegel é a forma básica de toda dialética, mas somente depois que ela foi extirpada de sua forma mística, e isto é precisamente o que distingue meu método (Marx). 

 

               01. Não sou analista de geopolítica nem tenho filiação intelectual genética. Filho de Ana Nilda e Marcondes, retirantes nordestinos que em 1955 fugiram das secas (e bem mais das cercas) de Jaguaruana, no Vale do Jaguaribe, Ceará, e buscaram sobrevivência na comunidade de Bela Vista, em Manacapuru, AM, às margens do portentoso rio Solimões, meus pais, embora privados do direito à escolaridade, tudo fizeram para que seus 12 filhos escapassem ao jugo do analfabetismo promovido pelo Estado brasileiro, controlado que é pela magna didática do capital. Na dialética da história é a luta pela sobrevivência que comanda a vida. Eis o texto de Vidas secas que nos foi dado pela graça do grande Graça.  

               02. Sou um cultor dos jardins filosóficos do sábio, materialista e cosmopolita Epicuro, pensador que está no centro do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Marx. Um TCC com estrutura intelectual e orgânica muito acima das medianas teses de doutorado do atual, serial e doentio produtivismo acadêmico.  A vaidade, sob métrica e disfarce de burocracia e formalidade, é um motor que impulsiona um fazer vazio de saber.  A mim, sempre me tocou o profeta Amós, um cultivador de sicômoros, que diante do chamado à profecia respondeu que não era profeta, nem filho de profeta. 

               03.Vejo o mundo a partir da periferia estabelecida por um mundo que se julga ter centro. O centro, para mim sempre móvel, é o lugar onde vivo, piso e penso. Estou em Manaus, cidade (e anticidade) ao mesmo tempo bela – um presente do Negro rio – e estruturalmente desigual e maltratada pelo setor mais tosco, arrivista e boçal de sua classe dominante.  A alma verdadeira de Manaus, que resiste e vive entre as cinzas do progresso sem alma, é a que procede da ontologia de seus povos originários. Numa de suas afinadas crônicas Clarice Lispector escreve que Brasília havia sido tomada pelos ratos. Que crônica, se a tivesse alinhavado, Clarice reservaria a Manaus?

               04. Afinal, quem de fato está encurralado (ou, no apelo conotativo, em-cu-ralado) nessa geopolítica de 2025?  O Império do Norte vai invadir a Venezuela? E as fronteiras econômicas, políticas e geopolíticas? Ninguém as leva em conta? São mais fortes que as fronteiras geográficas. É bom considerar que a Venezuela, com a maior reserva conhecida de petróleo do mundo, tem fronteiras políticas e econômicas com Irã, China e Rússia. Com o Irã, a Venezuela tem acordo estratégico firmado por 20 anos em áreas como defesa, tecnologia, agricultura, petroquímica, cultura. A China é o maior importador do petróleo venezuelano. E o Irã?  Não é de somenos que 90% das exportações de petróleo do Irã vão para a China. E a Rússia, que na América Latina tem com a Venezuela sua maior relação bélica e comercial?  

               05. E diante desse devir, o que dizer de nossa mídia-lixo, vassala e afinada ao Império? Sigamos, como bem apontava o iconoclasta Nietzsche, a fortalecer o pensar filosófico como estratégia de subtrair à estupidez sua boa (e decomposta) consciência.

               06. Porque a linguagem, mais do que morada do ser, conforme Heidegger, é sobretudo abrigo de ídolos, como bem registra o velho Francis Bacon. O quanto enreda a linguagem das redes.

               07. Sob as bênçãos de Padim Ciço e do filósofo-artista Chico César, Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.  

_________________________________

 *Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA - Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (AM) e Jaguaribe (CE). Em Manaus, AM, outubro de 2025.

 
 
 

Samuel Hanan*


Pela primeira vez na história, uma capital de estado na Amazônia – Belém – vai sediar a COP 30, a Conferência das Partes, reunindo os países signatários da Convenção das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. A escolha do Pará como sede desse evento mundial para discutir questões relacionadas ao aquecimento global e às alterações climáticas é emblemática e se traduz em oportunidade única para o Brasil chamar a atenção do planeta para a necessidade de a preservação da floresta amazônica passar a ser encarada como uma obrigação mundial, se de fato o objetivo for assegurar o bem-estar das futuras gerações. É o momento oportuno para mostrar – e comprovar – aos demais países que, ao contrário do senso comum, o Brasil tem feito um esforço enorme, a um custo gigantesco para a população amazônica, para manter a floresta em pé e assegurar a sobrevivência do maior banco genético do planeta (custo local).


"O Brasil tem o dever de deixar claro que os países do G7 já conhecem o tamanho da renúncia econômica dos estados amazônicos e não podem mais ficar silentes em relação a essa realidade".


A floresta amazônica está preservada em mais de 84%, mesmo depois da exploração – inclusive internacional – ao longo dos 525 anos do descobrimento do Brasil. Esse patamar foi e está sendo garantido pelos sete países inseridos na Amazônia, ao custo de renúncia econômica total de US$ 317 bilhões/ano pela não exploração dos recursos naturais, segundo estudo do Banco Mundial (2023).

A preservação da floresta é resultado da devoção e do amor de mais de 18,7 milhões de amazônidas que vivem na região Norte e que pagam muito caro por esse trabalho invisível aos olhos do mundo – em especial cerca de 13 milhões de amazônidas que residem no interior, longe das capitais. A comunidade internacional, notadamente os países do G7, cujo PIB é superior a 60% do PIB mundial (US$ 66,70 trilhões), precisa tomar conhecimento das enormes desigualdades que afligem essa parcela de brasileiros.

Embora ocupe 45,5% da área territorial brasileira, a Amazônia abriga apenas 8,7% da população nacional (vazio demográfico) e produz somente 6,2% do PIB (vazio econômico). Um quarto desse território é constituído de terras indígenas, onde vivem 310 mil pessoas dos povos originários. Outros 10,54% são áreas de preservação permanente e 14,31% são áreas de uso sustentável. Isto é, metade do território amazônico é área de uso restrito, limitando, portanto, sua exploração econômica. Outro dado dá bem a dimensão da floresta: o território amazônico corresponde à área de 27 países europeus somados, cuja população totaliza 488 milhões de habitantes e teve PIB de US$ 19,20 trilhões em 2024. Apesar da grandeza territorial da região, a população dos estados amazônicos tem, em média, renda mensal per capita 29% inferior à dos brasileiros de outras regiões. A discrepância é ainda maior no estrato da população que reside fora das capitais da Amazônia (interior): renda per capita 64% menor que a média nacional – apenas US$ 4.780,00 por habitante/ano, contra a média nacional de US$ 10.249,00 por habitante/ano. É preciso dar voz a essa população e ouvidos ao que disse Joe Biden, então presidente dos Estados Unidos, em 2023: “É impossível preservar a floresta, tão importante para o equilíbrio ambiental e climático, sem que os países ricos e desenvolvidos façam contribuição efetiva e expressiva”. Biden não estava sozinho nessa cruzada. Lars Peter Hansen, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2013, também já havia alertado que os países ricos têm de contribuir para manter a floresta em pé, reforçando o pensamento de Erna Solberg, ex-primeira-ministra da Noruega, para quem não há como preservar sem incluir o resgate dos habitantes da região.

O Brasil tem o dever de deixar claro na COP 30 que os países do G7 já conhecem o tamanho da renúncia econômica dos estados amazônicos e não podem mais ficar silentes em relação a essa realidade. Somente as terras indígenas, que somam mais de 1,01 milhão de km², deveriam ser utilizadas para efeito de emissão de títulos de crédito de carbono, gerando receita de bilhões de dólares por ano, sem sacrifício de nenhum governo e de nenhuma pessoa.

Há, evidentemente, uma demanda global pela preservação da Amazônia. Entretanto, o custo disso permanece local. Para equilibrar a balança, os países ricos deveriam contribuir com US$ 196 bilhões/ano ao Brasil (62% da floresta e os respectivos 62% da renúncia econômica), segundo o estudo do Banco Mundial. E, como a preservação não encontra resistência na sociedade mundial, há também alternativas de apoio no setor privado. Um exemplo: se as maiores fabricantes mundiais de refrigerantes, cervejas e água mineral adicionassem ao preço de varejo de cada unidade apenas US$ 0,01 ou US$ 0,02 (duas moedinhas de um penny) em cada unidade comercializada no mundo, como parte de uma campanha Save the Forest, viabilizaria contribuição anual de cerca de US$ 20 bilhões/ano.

Obviamente, cabe ao governo brasileiro fazer sua parte e apresentar propostas claras e absoluto comprometimento na COP 30, notadamente quanto ao combate aos garimpos e madeireiras que atuam ilegalmente na Amazônia, ao desmatamento, à pesca predatória, à poluição de rios, lagos e igarapés, ao turismo sexual e ao tráfico de armas e drogas na região. É preciso, ainda, atuar firmemente para a recuperação de áreas degradadas e garantir incentivo para atividades que contribuam para a preservação ambiental conciliada ao resgate da dignidade humana da população local, incluindo o turismo ecológico, eventos científicos e a indústria integrada do pescado, de frutas tropicais e de fármacos.

Além disso, são imprescindíveis a proteção do aquífero S.A.G.A. – Sistema Aquífero Grande Amazônia, que cobre 1,2 milhão de km² –, o inventário florestal (nunca feito por nenhum dos governos nacionais) e a conscientização sobre a contribuição do regime de chuvas, garantido pela floresta por meio dos “rios voadores”, para o Centro-Oeste, Sul e Sudeste, indispensável para o agronegócio e para a produção de energia elétrica limpa e mais barata. Aliás, com a COP 30, é hora de parte da imprensa nacional e de intelectuais brasileiros que criticam a renúncia fiscal do governo federal para a Amazônia reconhecer que os amazônidas são credores, e não devedores, pois suas renúncias econômicas são dezenas de bilhões de dólares maiores do que a renúncia fiscal que beneficia aqueles estados.

O mundo não pode mais adiar ações concretas para frear as mudanças climáticas. A COP 30 é, portanto, uma oportunidade que não pode ser desperdiçada pelo Brasil, para que a comunidade internacional seja sensibilizada sobre a questão do povo do Amazonas – caboclos, indígenas e ribeirinhos, principalmente –, injustamente sacrificados por proteger a floresta que, mantida em pé, beneficia o planeta inteiro. Representantes de mais de 190 países estarão com os pés na Amazônia. É a hora certa para que eles também voltem os olhos para a dignidade de seus habitantes.

________________________________________________________________________________

*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva” e “Caminhos para um país sem rumo”. Site: https://samuelhanan.com.br


 
 
 
bottom of page