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Esperar clima  tranquilo a  envolver decisão no ambiente político atual é acreditar em Papai Noel. Daí, a necessidade de ponderar a cada dia maior complexidade característica das relações humanas. Quando se trata de relações pertinentes a duas ou mais nações, maior há de ser o cuidado do decisor. Não è difícil imaginar, portanto, a atenção que o governo brasileiro tem dispensado ao convite de Donald Trump, para assentar o Brasil num tal (e mais que suspeito) Conselho de Paz. Suspeitar de que se trata de mais uma oportunidade de o soba norte-americano impor sua vontade e humilhar seus convidados, não é ilegítimo, nem mero ato de resistência. Ainda que não se tratasse de um convite feito pelo mais belicoso de todos os arrogantes presidentes norte-americanos, as condições e exigências para participar de uma previsível farsa desmerecerão o governante dócil e acessível. Não faltam exemplos da brutalidade, mais que da deseducação de Trump, em questões e momentos que tais. Mais que claras, as verdadeiras motivações do anfitrião têm pouco a ver com a resolução da tragédia que ele produziu em Gaza, como a que ele estimulara, e fez registrar na Ucrânia, e iniciou recentemente no Irã. A tanto o têm levado o amor aos livros – Diário, Caixa e Razão – e o desespero por testemunhar o papel que, não demora, o BRICS desempenhará na geopolítica em escala planetária. Agora, acrescida do virtual esfacelamento do braço armado que a OTAN mantém, a representação atualizada dos Cérberos continentais. Nem se fale da probabilidade de o tal Conselho exigir, em algum momento que ainda não se pode prever - o sacrifício da vida de jovens nacionais dos países assentados nas poltronas estofadas do infame colegiado. Esse, com certeza, preço muitíssimo mais alto que a quantia em dinheiro a ser posta nas mãos do apóstolo dos infernos. O que alega interesse  na Paz, mesmo se para chegar a ela ameaça espalhar a guerra e matar milhões de seres humanos, não merece crédito. Por isso, ponderar entre ser cúmplice de mais um holocausto ou resistir e ser agredido, só há um limite: a dignidade humana. Mais que qualquer outra variável, é essa que haverá de sobrepor-se a tudo mais quanto queiram os carrascos da humanidade.

   

 
 
 

Quando o conde Cesare Beccaria (*1738, Milão; +1794, Milão) lançou as bases do que viria a ser o moderno Direito Penal, sua intenção era a de humanizar a punição dos delinquentes. Sequer a sociedade humana havia chegado aos tempos do devido processo legal. Matava-se como resposta ao crime das formas que a História acabou por qualificar hedionda. Queimavam-se hereges nas praças, criava-se a fama do dr. Guillotin, apedrejavam-se as mulheres adúlteras, fuzilavam-se adversários, a forca recebia os descontentes. O proverbial olho por olho, dente por dente, em que se resumia a Lei de Talião (lei da retribuição), vindo do sec. XVIII a.C., assumia a vingança como forma de pena atribuída aos que o poder considerava criminosos. O tempo seguia seu curso e, no XVIII d.C., o filósofo, jurista, expoente do iluminismo milanês trazia luzes que, embora ainda acesas, tremeluzem sob crescente reivindicação dos que buscam oxigênio nas trevas. Incapaz de fazer dos estabelecimentos penais ambientes propício à ressocialização dos delinquentes, a sociedade e os estados, pelos que os têm governado, tornam-se sensíveis às novas demandas. Percebem-nas, porém, como estímulos ao regresso, não à criação e conquistas de valores duramente elaborados, muitas vezes à custa do sangue humano. Para além do que as fogueiras, a guilhotina, a forca e os fuzis produziram. Bandido bom é bandido morto ergueu-se como o mantra de grande parte dos que se dizem interessados na segurança, individual ou coletiva. Danaram-se eles a estimular a produção, comercialização, porte e uso de armas, cada dia mais letais. Com a vantagem de exercerem a vingança sem sequer sujar as mãos e as roupas. Basta-lhes ter a mente emporcalhada, ainda que não se deem conta disso. Ou, dando-a, nada os incomoda. Agora, a transformação de penitenciárias em solares de veraneio ou resorts e jardins oferecidos ao deleite dos amantes entra na pauta. Mesmo se os para lá mandados responderam ao devido processo legal, com a agravante de que eles mesmos, os processados, julgados e apenados respondem pela abundante produção de provas dos crimes cometidos. Chega a ser tragicamente ridículo que os defensores do bandido bom é bandido morto levantem bandeiras que transformariam penas em vingança, como ao tempo do talião. Imagine-se que ainda hoje fogueiras, forcas e guilhotinas estivessem em uso! E o devido processo legal  não se tivesse cumprido...

 
 
 

No mínimo preocupantes, as ideias de um general brasileiro, expostas em livro lançado nos Estados Unidos da América do Norte, também surgem em hora nada oportuna. Segundo o noticiário, na obra, o oficial até 2025 integrante do alto comando das forças armadas defende a ampliação das funções e prerrogativas militares nas decisões políticas do País. Pode-se traduzir essa ampliação na autorização constitucional para os quartéis interferirem nas decisões reservadas ao poder civil, a despeito de mal termos superado a crise causada pelo frustrado golpe de estado, em 08 de janeiro de 2023. Ali, fracassou a tentativa de fazer da organização militar, permanente e armada, tutora dos três poderes republicanos. Uma excrescência política, se consideradas as duas características incompatíveis com o papel reivindicado por parcela significativa dos seus integrantes. O fato de ser permanente não é, a rigor, sede da qualquer inquietação. Esta reside na peculiaridade de tratar-se de organizações armadas. Seu poder de influência, portanto, recomenda contenção e limites nem sempre valorizados ou defendidos pelos respectivos quadros profissionais que a integram. Sabe-se quanto a tradição política no continente parece pouco sensível à submissão dos cidadãos armados, enquanto tal, ao poder civil. Não sendo assim, as missões específicas das forças armadas acabam prejudicadas, enquanto parte significativa do oficialato superior tenta imiscuir-se nas questões reservadas ao poder civil. Disso dão conta as rupturas institucionais registradas, como o golpe empresarial-militar de 1964 e o golpe frustrado no início de 2023 o atestam.

 
 
 
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