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Tantos os problemas que dificultam as atividades e a vida dos brasileiros, que até o estabelecimento de prioridades acaba por ser ignorado. Sem que essa omissão consiga ocultar contradições lesivas ao Estado Democrático de Direito que a grande maioria dos cidadãos e lideranças dizem cultivar. Enquanto membros do Poder Judiciário cuidam de aplicar a lei com o rigor e segundo os preceitos do devido processo legal, no entorno deles registram-se condutas no mínimo suspeitas, cujo conteúdo deveria levar também à mais transparente investigação. Quando nossos olhos se voltam para o Legislativo, às críticas aparentemente indignadas sobre a despesa pública soma-se novo saque contra os cofres públicos. Além de abocanharem para si mesmos expressiva parte do orçamento nacional, deputados e senadores criam novas despesas, dando maior substância à impressão que a população tem deles: são apenas roedores que veem em cada rubrica um pedaço de apetitoso queijo. Trata-se do exemplo, ainda que não o mais contundente, do distanciamento dos congressistas da representação que lhes foi conferida pelos cidadãos. Os membros do Executivo não se podem excluir desse cenário. Enfrentando achaques, chantagens e todo tipo de pressão, as legítimas e as ilegitimas, acabam por tornar-se cúmplices das intenções, ações e resultados dos que os fizeram reféns. Há, em curso, e cada dia mais acelerado, um processo de construção do caos. Em nome de uma tal governabilidade, criam-se mecanismos que impossibilitam o cumprimento do que deveria ser o fundamental, se admitida a sentença de Platão. Essencialmente político, o homem se faz sociedade e nela pode dar vazão às suas vontades, aos seus sonhos, à satisfação de suas necessidades. Nada melhor, para fazê-lo, que a democracia, onde as maiorias se constituem e governam, respeitando os direitos das minorias. Mais que isso, recusando expedientes e decisões que frustrem a probabilidade da tão pregada rotatividade do poder. Quando o caos se estabelece e das penitenciárias vêm as ordens que movem o mundo fora dela, o estado é substituído pelas organizações criminosas, qualquer a área de atuação dos delinquentes apenados.

 
 
 

O uso de robôs e a irritação por eles causada nos seres humanos que não se envergonham de sua condição fez-me lembrar dois presidentes norte-americanos. Alguns dirão que sou um desocupado, a tal ponto que a memória se volta para seres quase inteiramente desprezíveis e que pouco fizeram pela humanidade. No caso, Lyndon B. Johnson e Gerald Ford. O primeiro governou os Estados Unidos da América do Norte de 1963 a 1969 e o outro, de 1974 a 1977. Para qualificar Ford, o sucessor de John Kennedy dizia do outro que era incapaz de mascar chicletes e andar, concomitantemente. Com isso, Johnson queria dizer que na prejudicada cabeça de Ford, tico e teco, o par de neurônios existentes não se encontravam. Uma coisa de cada vez. Por que me lembro deles, quando mensagem de robô me alcança desprevenido e cometo, por distração, a imprudência de lhe dar atenção? A razão está em que robôs atendem a programa que não encontra correspondência no que se passa na mente humana, desde que haja um mínimo de inteligência dentro dela. As tentativas de imitar à perfeição dons naturais e adquiridos no decorrer da vida humana, até onde consigo enxergar, têm sido frustradas. Ainda agora, vejo-me diante de exemplo que não pretendo ignorado pelos meus circunstantes, distantes geograficamente que alguns estejam. Deu-se de dar atenção a uma dessas mensagens e a tudo quanto ela determinou, até conseguir contato por telefone, e à viva voz, com uma pessoa de carne e ossos. Portadora, ela sim, de inteligência. Natural, o que é melhor ainda. A mensagem chamava-me para uma consulta médica, informando-me a antecipação da que estava prevista. Minha resposta, de boa-fé e dirigida ao robô – logo se vê! – informou a possibilidade de manter a data que me ofereciam ou me ser sugerida outra. Optei pela segunda hipótese. Isso deu margem à segunda mensagem: a oferta de outra data, no horário matutino e poucos dias após a primeira e recusada oferta. Informei, ainda ao mesmo “interlocutor sem inteligência”, minha opção pelo dia, no horário matutino. Em seguida, a “burrice artificial” me confirmava. No dia escolhido, eu seria recebido às 13:30. Ocorreu-me a ideia de perguntar qual o fuso horário que o “interlocutor” estava usando. Não o fiz. Ao mesmo tempo, informei apenas, ainda pelos meios chamados virtuais e para o robô, da minha irritação e da absoluta incapacidade para lidar com máquinas, em lugar de gente. Só então, consegui ser atendido por uma pessoa, com o sangue correndo pelas veias e artérias. Consegui o atendimento que me fizera perder tanto tempo. Aproxima-se a manhã em que serei atendido e aumentou minha repugnância pela desumanização que nos querem impor. Enquanto der, resistirei. Arrisco sugerir aos que me leem a mais firme resistência ao tratamento de instituições, empresas, estabelecimentos, profissionais que pensam sermos meras cópias do Ford descrito por Johnson.

 
 
 

Haverá quem diga que uma coisa nada tem a ver com a outra. Podem até ter razão, mas não toda. Refiro-me ao momento que abre perspectivas mais promissoras para os que pretendem aprofundar a democracia, defendê-la bravamente e conduzir o País ao destino que por muitas razões e peculiaridades lhe cabe. Interpretando o sentimento da maioria da população, o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Edson Fachin propõe um código de ética a ser observado por seus colegas de magistratura. Não o faz sem fortes razões, como sabe todo brasileiro interessado em ver a sociedade fugir à barbárie que muitos desejam volte a imperar. O fato a ele relacionado diz respeito à solicitação do Ministério Público Militar, pedindo à Justiça especializada o reconhecimento de indignidade nos militares punidos por um conjunto de crimes que o órgão máximo do Poder Judiciário classificou como obra de uma organização criminosa. Uma coisa - a submissão dos magistrados de qualquer instância à limitação de suas prerrogativas - e outra - a exclusão e procedimentos consequentes, como a perda de patente e a extinção da monstruosidade chamada morte ficta - são peças fundamentais na recuperação e na reconstrução do País. Em, ambas, o início do que pode desembocar no amadurecimento democrático e cidadão de nossa sociedade, desde que as forças que se valem da tolerância exacerbada atentatória à igualdade de todos, quando se trata da cidadania, não consiga mais uma vez obstar o avanço até aqui registrado. Faz tempo, advogo alterações no processo de indicação, aprovação e nomeação dos membros do Supremo Tribunal Federal. A indicação de nomes para integra-lo, feita por outro poder, é em si mesma deficitária, se levarmos em conta o sistema republicano. O simulacro consistente na sabatina do indicado pelo Senado não destoa. Culmina esse processo enviesado a nomeação pela caneta do Chefe do Poder Executivo. Se me perguntam qual a melhor forma de compor o STF, confesso não ter condições de, sozinho, dar resposta definitiva. Como está - e a realidade me socorre - é impossível esperar algo melhor do que vem ocorrendo. Há mais que harmonia e autonomia, eis que interesses aparentemente divergentes, respeitadas as vocações republicanas, cedem lugar à cumplicidade e à tolerância do que de mais agressivo podem a república e a democracia tolerar. A tal ponto, que o fechamento de um banco, do qual se tem apurado extenso e disseminado elenco de crimes, mobiliza lideranças dos mais diversos setores - e de praticamente todos os poderes. Na outra frente, é preciso reconhecer que a leniência com que foram e têm sido tratados certos profissionais da caserna, acabaram por gerar o ambiente que, qual câncer metastásico, interfere na vida política nacional. Por isso, do STF e do STM podem vir os primeiros passos que levarão à democracia plena. É o mínimo que a sociedade espera.

 
 
 
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