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A construção do caos

Tantos os problemas que dificultam as atividades e a vida dos brasileiros, que até o estabelecimento de prioridades acaba por ser ignorado. Sem que essa omissão consiga ocultar contradições lesivas ao Estado Democrático de Direito que a grande maioria dos cidadãos e lideranças dizem cultivar. Enquanto membros do Poder Judiciário cuidam de aplicar a lei com o rigor e segundo os preceitos do devido processo legal, no entorno deles registram-se condutas no mínimo suspeitas, cujo conteúdo deveria levar também à mais transparente investigação. Quando nossos olhos se voltam para o Legislativo, às críticas aparentemente indignadas sobre a despesa pública soma-se novo saque contra os cofres públicos. Além de abocanharem para si mesmos expressiva parte do orçamento nacional, deputados e senadores criam novas despesas, dando maior substância à impressão que a população tem deles: são apenas roedores que veem em cada rubrica um pedaço de apetitoso queijo. Trata-se do exemplo, ainda que não o mais contundente, do distanciamento dos congressistas da representação que lhes foi conferida pelos cidadãos. Os membros do Executivo não se podem excluir desse cenário. Enfrentando achaques, chantagens e todo tipo de pressão, as legítimas e as ilegitimas, acabam por tornar-se cúmplices das intenções, ações e resultados dos que os fizeram reféns. Há, em curso, e cada dia mais acelerado, um processo de construção do caos. Em nome de uma tal governabilidade, criam-se mecanismos que impossibilitam o cumprimento do que deveria ser o fundamental, se admitida a sentença de Platão. Essencialmente político, o homem se faz sociedade e nela pode dar vazão às suas vontades, aos seus sonhos, à satisfação de suas necessidades. Nada melhor, para fazê-lo, que a democracia, onde as maiorias se constituem e governam, respeitando os direitos das minorias. Mais que isso, recusando expedientes e decisões que frustrem a probabilidade da tão pregada rotatividade do poder. Quando o caos se estabelece e das penitenciárias vêm as ordens que movem o mundo fora dela, o estado é substituído pelas organizações criminosas, qualquer a área de atuação dos delinquentes apenados.

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