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Atualizado: 17 de fev.

Chamei de câncer social o mal que se instalou na sociedade brasileira, espalhando metásteses por todos os setores. A corrupção, condenado em palavras aparentemente unívocas, ainda assim persiste, cada dia ampliando a desigualdade cuidadosa e obscuramente planejada. O Brasil teima em ocupar posição vergonhosa no que antes se chamou concerto de nações, transformada a expressão no desacerto das nações.  Nem mais o  Poder Judiciário consegue debelar o mal, que o vai corroendo, ao sabor dos mesmos interesses que criam os mensalões, os orçamentos secretos, as emendas parlamentares. Todos esses – mas não só eles – expedientes de que se valem membros instalados em posições-chaves no arranjo quase-republicano vigente. A propósito da permanência do Brasil em posição constrangedora no ranque da percepção de corrupção, comparadas mais de cem nações integrantes da Organização das Nações Unidas, comentários os mais desencontrados são divulgados. Repetem o discurso moralista importantes órgãos de comunicação, no amplo e sempre lembrado direito de livre expressão. Uma das características de nossa democracia capenga, é a dissonância entre a realidade e a percepção que ela enseja. Não raro – para não dizer, frequentemente – os moralistas de plantão deixam a descoberto a motivação que tanto se esforçam por esconder. O que, em si, representa apenas o gesto de quem sabe o crime que comete, mas proclama moral a que não está afeito. Daí a suspeita a que são remetidos os observadores atentos, que veem no grau em que os cenhos cerrados emolduram o palavreado de suposta indignação uma cena no mínimo grotesca. O sujo falando do mal lavado, diriam nossos ancestrais. Só isso explica a suposta indignação dos que deploram – como haverá de deplorar qualquer brasileiro dotado do mais escasso sentimento de solidariedade – a recorrente posição do Brasil no ranque da corrupção. Só que, entre uns e outros, as razões são substancialmente diferentes. Envolvidos em falcatruas de toda natureza, das quais a participação em trama golpista e em outros sortilégios que o mercado patrocina e favorece, há o recurso às consequências da corrupção sobre o cotidiano dos brasileiros. Para os excluídos e postos na base da pirâmide, o quanto o desvio de recursos financeiros importa a redução de verbas para tornar menor a desigualdade é o que conta. O dinheiro que falta às ações nas áreas de saúde, educação, habitação, segurança pública, saneamento transportes etc. condiciona a percepção dos necessitados. Não seguem a mesma orientação os favorecidos pela corrupção, eis que a segurança jurídica dos investidores é o que deve ser destacado. Que faltem recursos para a execução de políticas públicas nas áreas em que é mais flagrante a desigualdade, desde que para esses moralistas e para os que lhes interessa defender, proteger, promover e servir, seja assegurada a captura da dinheirama envolvida. Que se dane a segurança dos cidadãos, os mais pobres, se os investidores tiverem a certeza de que não se reduzirão o que já amealharam e terão mais e maiores oportunidades de multiplicar. Até porque, no caso brasileiro, a corrupção parece ter só uma face – a dos que vendem seu parecer, seu voto, sua opinião, seu poder de fogo à defesa e à manutenção da desigualdade para eles tão desejada e benfazeja. Os que os compram ficam de fora dessa equação de soma menos qualquer coisa. E nunca será pouco...

 
 
 

O rio e seu leito integram expressiva porção do pensamento e obra de artistas e homens da ciência. Alguns afirmam não haver uma só das mais prósperas cidades antigas, que se tenha estabelecido longe das águas. O Nilo, o Ganges, o Sena, o Tejo são dados como exemplos, não sendo desprezível a inclusão do Amazonas e do São Francisco, no rol dessas águas benfazejas. De Heráclito, um pré-socrático de Éfeso, vem a poética constatação - homem nenhum consegue banhar-se duas vezes nas mesmas águas. No caso da Amazônia, coube ao acreano Leandro Tocantins (não por coincidência, nome de um rio), timbrar outra constatação - o rio comanda a vida. As águas que escondem o que o poeta Paes Loureiro chama encantarias são também as que afogam seres humanos e abrigam destroços dos titaniques, seja qual for o seu tamanho. Mas a vida moderna, incapaz de deter a ambição e o egoísmo humanos, atribui outras qualidades e reivindica outras formas de usar os rios. Já não mais como objeto da apreciação da natureza ou lugar de contemplação e prazer. Pô-los a serviço da aproximação de pessoas seria reduzir sua importância e tolher o processo de acumulação privada dos bens e riquezas com que a natureza dota diversas regiões do Planeta. Desigual, injusto e amoral, o desejo de enriquecimento material fala mais alto. Entregar aos desígnios particulares as vias aquáticas, portanto, é mostrado como imperativo, ao qual se deve sacrificar o desfrute da maioria das populações que sobrevivem às suas margens. Favorecer o dibubuio do qual resultam a paz de espírito e a sabedoria acumulada é substituído pela transformação dos cursos d'água em vias por onde trafegam interesses reservados àqueles cuja dignidade e humanidade reduzem-se ao acúmulo de riqueza material. E só ela...

Daí minha preocupação, ao constatar o processo que poderá resultar em restrições cada dia maiores ao uso dos rios pelos que à sua margem se estabeleceram. Não é de outra coisa que se diz, quando agentes econômicos pretendem aumentar seus lucros, mantendo sob controle a navegação fluvial. Logo se menciona a probabilidade de entregar mais uma parte dos recursos naturais à avidez e à ganância, tão presentes já hoje na sociedade. Quase ninguém atenta - ou, se atenta, o esconde - para o fato de que inexistente ou reduzida a sonegação fiscal, o poder público teria a capacidade de bem gerir os recursos naturais. E pô-los a favor de todos, não de só alguns espertalhões, capazes até de criar um deus punitivo e belicoso. E vai tudo por águas abaixo. Mas não para todos.

 
 
 

Tramita no Congresso Nacional a proposta de financiar a aquisição da primeira arma, com dinheiro público. Em síntese, o estímulo e o financiamento da violência armada, tão ao gosto das elites brasileiras. Desde que as vítimas da mortandade pretendida não sejam os membros da bancada da bala, seus familiares e amigos e os incautos que neles votaram. A Comissão de Segurança da Câmara já aprovou - por óbvio - a monstruosidade. Nada mais, nada menos que substituir os livros e outros instrumentos de educação por revólveres, pistolas e assemelhados. Os mesmos que defendem a pena de morte e aplaudem sempre que dela decorra um assassinato, feminicídio em sua maioria. Também os que usam o slogan "Deus, pátria e família" e têm conseguido levar à frente seus vícios e sua brutalidade. Concomitantemente à grita pela redução do Estado e ao corte de recursos para as funções sociais, os deputados em maioria atribuem benefícios aos que se integrarem ao já chamado Programa Minha Primeira Arma, que desembocará no Senado. Quando boa parte da sociedade reivindica maior atenção do Estado à qualidade de vida da grande maioria da população, os representantes das elites que detêm o controle e por causa disso capturaram o aparelho estatal, tratam de criar situação ainda mais grave. Já não lhes basta legislar contra a cultura e a paz, eles avançam é parecem dispostos a recriar no País o clima de guerra permanente, vigente de 2019 a 2022. O amor às armas revelado em projetos como esse do deputado Marcos Pollon (PL-MS) corresponde ao desprezo dele e de seus correligionários pela vida humana. Nada que traga alguma novidade a respeito da visão de mundo que os caracteriza, empenhados, cada dia com mais apego, à violência e aos resultados por ela provocados. Depois da Câmara dos Deputados, a matéria será submetida à apreciação do Senado. É preciso que os cidadãos amantes da Paz, por isso dotados de amor ao próximo e solidariedade, rejeitem o Projeto de Lei do parlamentar do PL. Do contrário, à monstruosidade prestes a ser oficializada, contará com a cumplicidade de todos - de fora e de dentro do Congresso. Nem se diga absurdo o projeto, tantas as vezes em que fenômenos inverossímeis têm ocorrido. Em casos assim, a credulidade não passa de alegação sem sentido e destinada apenas a legitimar os atentados contra o Estado Democrático de Direito e a Vida humana.

 
 
 
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