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Percepções e consequências da corrupção

Atualizado: há 12 horas

Chamei de câncer social o mal que se instalou na sociedade brasileira, espalhando metásteses por todos os setores. A corrupção, condenado em palavras aparentemente unívocas, ainda assim persiste, cada dia ampliando a desigualdade cuidadosa e obscuramente planejada. O Brasil teima em ocupar posição vergonhosa no que antes se chamou concerto de nações, transformada a expressão no desacerto das nações.  Nem mais o  Poder Judiciário consegue debelar o mal, que o vai corroendo, ao sabor dos mesmos interesses que criam os mensalões, os orçamentos secretos, as emendas parlamentares. Todos esses – mas não só eles – expedientes de que se valem membros instalados em posições-chaves no arranjo quase-republicano vigente. A propósito da permanência do Brasil em posição constrangedora no ranque da percepção de corrupção, comparadas mais de cem nações integrantes da Organização das Nações Unidas, comentários os mais desencontrados são divulgados. Repetem o discurso moralista importantes órgãos de comunicação, no amplo e sempre lembrado direito de livre expressão. Uma das características de nossa democracia capenga, é a dissonância entre a realidade e a percepção que ela enseja. Não raro – para não dizer, frequentemente – os moralistas de plantão deixam a descoberto a motivação que tanto se esforçam por esconder. O que, em si, representa apenas o gesto de quem sabe o crime que comete, mas proclama moral a que não está afeito. Daí a suspeita a que são remetidos os observadores atentos, que veem no grau em que os cenhos cerrados emolduram o palavreado de suposta indignação uma cena no mínimo grotesca. O sujo falando do mal lavado, diriam nossos ancestrais. Só isso explica a suposta indignação dos que deploram – como haverá de deplorar qualquer brasileiro dotado do mais escasso sentimento de solidariedade – a recorrente posição do Brasil no ranque da corrupção. Só que, entre uns e outros, as razões são substancialmente diferentes. Envolvidos em falcatruas de toda natureza, das quais a participação em trama golpista e em outros sortilégios que o mercado patrocina e favorece, há o recurso às consequências da corrupção sobre o cotidiano dos brasileiros. Para os excluídos e postos na base da pirâmide, o quanto o desvio de recursos financeiros importa a redução de verbas para tornar menor a desigualdade é o que conta. O dinheiro que falta às ações nas áreas de saúde, educação, habitação, segurança pública, saneamento transportes etc. condiciona a percepção dos necessitados. Não seguem a mesma orientação os favorecidos pela corrupção, eis que a segurança jurídica dos investidores é o que deve ser destacado. Que faltem recursos para a execução de políticas públicas nas áreas em que é mais flagrante a desigualdade, desde que para esses moralistas e para os que lhes interessa defender, proteger, promover e servir, seja assegurada a captura da dinheirama envolvida. Que se dane a segurança dos cidadãos, os mais pobres, se os investidores tiverem a certeza de que não se reduzirão o que já amealharam e terão mais e maiores oportunidades de multiplicar. Até porque, no caso brasileiro, a corrupção parece ter só uma face – a dos que vendem seu parecer, seu voto, sua opinião, seu poder de fogo à defesa e à manutenção da desigualdade para eles tão desejada e benfazeja. Os que os compram ficam de fora dessa equação de soma menos qualquer coisa. E nunca será pouco...

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