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Naufrágio

O rio e seu leito integram expressiva porção do pensamento e obra de artistas e homens da ciência. Alguns afirmam não haver uma só das mais prósperas cidades antigas, que se tenha estabelecido longe das águas. O Nilo, o Ganges, o Sena, o Tejo são dados como exemplos, não sendo desprezível a inclusão do Amazonas e do São Francisco, no rol dessas águas benfazejas. De Heráclito, um pré-socrático de Éfeso, vem a poética constatação - homem nenhum consegue banhar-se duas vezes nas mesmas águas. No caso da Amazônia, coube ao acreano Leandro Tocantins (não por coincidência, nome de um rio), timbrar outra constatação - o rio comanda a vida. As águas que escondem o que o poeta Paes Loureiro chama encantarias são também as que afogam seres humanos e abrigam destroços dos titaniques, seja qual for o seu tamanho. Mas a vida moderna, incapaz de deter a ambição e o egoísmo humanos, atribui outras qualidades e reivindica outras formas de usar os rios. Já não mais como objeto da apreciação da natureza ou lugar de contemplação e prazer. Pô-los a serviço da aproximação de pessoas seria reduzir sua importância e tolher o processo de acumulação privada dos bens e riquezas com que a natureza dota diversas regiões do Planeta. Desigual, injusto e amoral, o desejo de enriquecimento material fala mais alto. Entregar aos desígnios particulares as vias aquáticas, portanto, é mostrado como imperativo, ao qual se deve sacrificar o desfrute da maioria das populações que sobrevivem às suas margens. Favorecer o dibubuio do qual resultam a paz de espírito e a sabedoria acumulada é substituído pela transformação dos cursos d'água em vias por onde trafegam interesses reservados àqueles cuja dignidade e humanidade reduzem-se ao acúmulo de riqueza material. E só ela...

Daí minha preocupação, ao constatar o processo que poderá resultar em restrições cada dia maiores ao uso dos rios pelos que à sua margem se estabeleceram. Não é de outra coisa que se diz, quando agentes econômicos pretendem aumentar seus lucros, mantendo sob controle a navegação fluvial. Logo se menciona a probabilidade de entregar mais uma parte dos recursos naturais à avidez e à ganância, tão presentes já hoje na sociedade. Quase ninguém atenta - ou, se atenta, o esconde - para o fato de que inexistente ou reduzida a sonegação fiscal, o poder público teria a capacidade de bem gerir os recursos naturais. E pô-los a favor de todos, não de só alguns espertalhões, capazes até de criar um deus punitivo e belicoso. E vai tudo por águas abaixo. Mas não para todos.

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