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Depois que o direitista Charlie Kirk foi assassinado a tiros, nos Estados Unidos, parece crescer a preocupação das lideranças e dos cidadãos avessos a tais práticas, nos Estados Unidos da América do Norte, tanto quanto no Brasil. Pode ser até exagerada minha percepção de que o produto mais típico da sociedade norte-americana é o serial-killer. Talvez ainda seja exorbitante dizer ser esse tipo de delinquente um dos mais importantes itens das exportações norte-americanas. Hoje, episódios como os de Columbus University e outros menos lembrados passaram a ser noticiados em outros pontos do Planeta. Nações tidas e havidas como modelos de paz e concórdia, como a Noruega e a Suécia, também já experimentaram a amargura de ações semelhantes. Em qualquer hipótese, essa é apenas parte dos costumes do país de Trump, sendo que a violência e a resolução de problemas sociais, econômicos e de outra natureza, não raro é encontrada num projétil metálico, disparado de arma letal. Ou seja, a violência parece ingrediente do caldo de cultura ianque. No caso da política, igualmente, é preciso achar normal e saudável que quatro presidentes sejam mortos em consequência do disparo de uma arma de fogo, para tolerar a reiteração dessas manifestações do american way of life. Pior, para admiti-la em nossas outras nações. Este, me parece, problema desdenhado, quando se sabe que o golpe de estado frustrado em 08 de janeiro de 2023 incluía dentre seus objetivos a eliminação física do Presidente da República, do vice-Presidente e de um Ministro da mais alta corte de Justiça do País. Tirar a vida de qualquer ser humano, onde quer que ocorra, qualquer que seja seu pretexto, é algo que não pode se admitido como correspondente à condição de humanidade que reivindicamos, para nós mesmos e para terceiros. A Lei, neste caso, dispõe de meios que podem impedir a consumação de simples assassinatos, como se vê nos institutos da legítima defesa e do estado de necessidade. No primeiro caso, o risco de morrer permite ao ameaçado defender-se, sem que disso decorra a incursão no crime tipificado como assassinato. No outro, o preceito de que a Vida é nosso maior bem assegura ao que, para preservar-se a si mesmo, acaba por levar à morte o outro. Esta hipótese costuma ser ilustrada quando um passageiro de barco, em pleno naufrágio, disputa um salva-vidas com outro náufrago. Na legítima defesa, a proporcionalidade da reação da pessoa ameaçada, em relação ao risco da ameaça é levada em conta. Nem é tão curioso, pois a experiência deixa isso bastante claro, que a direita mata mais que a esquerda. Aí, é uma questão de valores, que o interesse por ignora-los e fazer de conta que não subjazem à escolha por algum dos lados do espectro político e ideológico acaba por atribuir normalidade à selvageria que os pretensos imperadores do Mundo espalham, Planeta afora. Seja quem for a vítima, reze pela cartilha que lhe pareça melhor, os bons cidadãos não podem admitir normalidade no uso de violência como forma de resolver problemas. Qualquer que seja a natureza deles. Fazê-lo representa, enfim, a confissão de impotência e impossibilidade em tornar-se - e manter-se - humano.

 
 
 

Desprezem-me os que se dizem realistas. Presos à objetividade que impede seus sonhos e os faz apegados à experiência consagradora da rotina, negam a tênue linha com que é traçado o destino da humanidade – ou seremos pessimistas, ou nos orientará o otimismo. Fossem Cervantes e sua mais importante e humana criação inspirados pelo pessimismo, fruto da negação e do desencanto, o escritor manchego já teria soçobrado. Com ele, a grande viagem de que Sagres terá sido apenas o ponto de partida. Nós, cidadãos, primeiro do Novo Mundo, depois do Planeta inteiro, não podemos ater-nos ao naufrágio anunciado. Não é de boias que precisamos, mas de sonhar cada vez mais. Com todas as nossas energias, porque o futuro está à frente, e qualquer hesitação ou vacilo nos fará andar para trás. O que mais temos perdido, nos momentos decisivos e cruciais da trajetória humana, é a capacidade de olhar à frente, mantidos pela ilusão de que o ontem será (?) melhor que o amanhã. Mesmo quando levamos a tecnologia a tão ousados patamares, talvez inebriados pela falsa promessa de virarmos deuses, esquecemos de que nada obstará o progresso – da Ciência, da Vida humana, da Sociedade. É do homem e de seu senso de coletividade, portanto, que resultará o futuro. Se o passado não pode ser mais que fonte de sabedoria e inspiração, a impossibilidade de fazê-lo não impede a construção de um futuro melhor. Tal construção, fundamentada no que o ser humano tem de melhor, é a única saída para o dilema eterno – a Vida absorvendo a morte, sem amesquinhá-la; apenas tomando o momento derradeiro como ponto final de trajetória individual. Nem por isso a Vida se extinguirá. Antes, podem anunciar-se, a cada morte, novos horizontes, sonhos renovados, lições de que a humanidade não se tem que envergonhar; antes, terá marcado seu desenvolvimento pela ação dos que, sobreviventes, têm os olhos voltados para o devir, jamais serão escravos do que passou. Se aos pessimistas o sonho parece transgressão imperdoável, aos otimistas cabe a virtude da Esperança. É esse o único alimento capaz de levar-nos a um futuro menos inglório.

Manaus, 19 de setembro de 2025.

 

 
 
 

Engana-se quem pensa esgotado o paiol de bombas políticas alimentado e operado pela direita. Também incorrem em equívoco os que concebem a união nacional como a tolerância às praticas criminosas dos que perdem eleições e tentam fragilizar a hesitante democracia em andamento. Hoje, a tolerância que se transformou em cumplicidade instalou-se e se mantém - forte, é necessário dizer - no Poder Legislativo. O corporativismo se agrava, produzindo cenas, pronunciamentos e - o que é ainda mais grave - leis destinadas a proteger, não o legítimo exercício do mandato parlamentar. Enquanto o País enfrenta as consequências da ação criminosa de um dos membros daquele poder, dedica-se a Câmara dos Deputados à inglória tarefa de dar-lhe proteção que em nada aproveita o Brasil e sua população. Mesmo quando o Poder Judiciário resiste à retaliação de governante de país estrangeiro, os supostos representantes do povo, por sua maioria, tratam de neutralizar os esforços pela manutenção da soberania. Esta, entendida como prerrogativa de quem se percebe como imperador do Planeta. Por isso, a Constituição é rasgada com frequência, como se fosse de suas inspiração e objetivo dar guarida e oferecer habeas-corpus permanente a criminosos comuns, ainda quando a serviço de interesses avessos e alheios à maioria da população. Em um país onde os trabalhadores têm gradativamente reduzidos os direitos que os protegem faz mais de oito décadas, estabelecem-se novas, ilegítimas e perversas condições de desigualdade. De tal forma, e com tanto desdém pelo interesse público, os deputados criam mais um privilégio, porque de outra coisa não trata a decisão de justificar as faltas de um parlamentar que sequer tem residência no Brasil. Nem está ausente, dentre os pretextos para mais essa manifestação de absoluto desprezo pela sociedade, a opinião pública e os trabalhadores o discurso do ódio tantas vezes tolerado. É certo que, consumada pelo Poder Legislativo, a PEC da Blindagem (da Bandidagem, diz boa parte dos comentaristas e a minoria parlamentar) acabará nas barras do tribunal. O caráter inconstitucional e os propósitos resultantes dele deverão ser vigorosamente repudiados, como o foi a tentativa criminosa de responder às urnas com um golpe de estado. Antes disso, poderá o Presidente da República, porque assim o garante a Constituição Federal, vetar PEC que entretém a oposição, quando um de seus membros, mesmo afastado do território onde seu mandato foi conquistado, dedica-se ao malfadado estímulo a ações lesivas ao povo brasileiro. Os da esquerda, excluída pequeníssima parcela dos que apenas invejam a criatividade malsã e característica dos que constroem, defendem e justificam a desigualdade, haverá de opor-se, cada dia mais tenazmente, contra essa e tantas outras tentativas de poluir o já apodrecido ambiente político. A resposta da esquerda, como se tem observado, deve vir das urnas. Todo cidadão envergonhado e arrependido - porque os há, às dezenas de milhões - dispõe do voto, sabe que é das eleições e dos candidatos escolhidos que poderá vir a discussão serena, objetiva e benéfica ao povo. É sabido quanto há, no Parlamento e nas penitenciárias, autores de crimes da mais variada ordem e natureza. Também é reconhecido o papel que o Poder Judiciário tem feito, revelado e homenageado pela maioria das nações, sempre que conduz o devido processo legal. Algo inédito na nossa História, a condenação de réus de alto coturno pode servir de exemplo aos representantes ditos populares. O contrário, como a PEC protetora de marginais o atesta, apenas vinca a face da Câmara com as rugas da desonra e da traição.

 
 
 
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