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O noticiário desta quinta-feira (12-03) destaca a criação, por jovens estudantes, de um jogo baseado no estupro coletivo de jovens. Os criadores, alunos de engenharia da computação, não frequentam aulas em escolas da periferia de alguma das cidades mais empobrecidas do País. Constituem um grupo de uma das mais respeitadas instituições de ensino, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, cuja fama e competência leva a gravar facilmente na memória a sigla – é o ITA, a que se atribuem tantas façanhas e avanços tecnológicos. Endinheirados ou não, os alunos desse estabelecimento são parte das elites, pelo menos do ponto de vista educacional, às vezes até científica. Isso é o que de mais importante deve ser destacado. Mais que revelar mau caráter dos jovens criativos, o fenômeno apenas testemunha os valores que os inspiram e os sentimentos que esses valores incutem em suas mentes. Não é o aspecto lúdico por si mesmo, que embute o perigo do jogo. Jogos têm sido recomendados por cientistas do comportamento, tanto quanto por médicos e profissionais especialistas nas múltiplas formas de terapia em uso. O jogo dos estudantes do ITA, porém, vai além de algum eventual uso positivo, eis que o aspecto recreativo é suplantado pela naturalização de um fenômeno que nada tem – de lúdico ou terapêutico. O estupro, inspirador dos estudantes, e os que o praticam haverão de agradecer a ajuda (involuntária ou apenas desatenta que seja) à prática criminosa. Ver com olhos de brincadeira algo que atenta contra os direitos humanos corresponde a estimular a prática delinquente – pior, ainda – fazendo dela mais uma forma de lazer e diversão. Constitui, portanto, manifestação cabalmente perversa, assemelhando-se à defesa, estímulo e recomendação da tortura. Impossível deslembrar que o trabalho dos estudantes de engenharia da computação do ITA encontra fundamento no clima que se estabeleceu no País, quando governantes se empenhavam em aproveitar, sempre que pintasse um clima, para aproveitar-se do corpo de adolescentes. O mesmo tempo em que a produção, comércio, porte e uso de armas de fogo tinha nos gabinetes oficiais seu núcleo de decisão. Esse é o clima, que não pinta por acaso.

 
 
 

Tem-se tornado cada dia mais difícil enfrentar o dilema em que são postos os falsos democratas. Não apenas porque veem cair por terra a mentira que transformou a mais guerreira nação do Mundo como exemplo democrático a ser seguido. Concorre para desmoraliza-los a conduta do seu guru e atual líder, cujas decisões e ações desmentem a farsa e intranquilizam todos os povos. Não muito pior que alguns de seus antecessores, o que torna Donald Trump execrável é, paradoxalmente, sua única, ainda que trágica qualidade - ele é sincero. Não esconde de ninguém sua arrogância, brutalidade e seus mais perversos propósitos. Não obstante, ele encontra quem o bajule, cultue e siga. Não faltam falsos patriotas, em outros países, a incidir nessa repugnante conduta. O Brasil, como se sabe, não foge a esse comportamento deplorável. Alguns alegam suposto conservadorismo, como pretexto para justificar sua traição. Como se já não fosse uma evidente desumanidade pretender - pior, defender, estimular e promover - a desigualdade social com a qual convivemos. Nem os meios de comunicação fogem a esse comportamento. Aparentam indignação com a morte de crianças, ao mesmo tempo em que admitem legitimidade na guerra. Uma espécie de humanitarismo seletivo. Em que a causa - a guerra - parece legítima e sua inevitável e desejada consequência - a morte de seres humanos - é considerada dano colateral.


 
 
 

Chamei câncer social a realidade brasileira, em que se torna difícil estabelecer diferença entre criminosos e cidadãos de bem. Por enquanto, tentam passar por boa gente indivíduos que passar pela frente de uma delegacia policial entregue a pessoas sérias e respeitáveis, seria correr risco demasiado.  De serem presos. Pelo que fizeram e não pagaram e pelo que vêm fazendo, a despeito de tudo, e ainda ameaçam fazer. Em meio às metásteses espalhadas por esse quase absurdo tipo de comprometimento das células, figuras cujo merecimento as levaria às grades de penitenciárias de segurança emergem da lama em que desenvolvem seus talentos predatórios e perversão crescente de que se imbuem. Como a malária, a doença de Chagas e outras endemias, a corrupção parece insuperável. Dela não escapam, em especial, os que um dia provaram do agradável sabor do poder, seja ele exercido em qualquer dos institutos descritores da república. Executivo, Legislativo e Judiciário, assim, sofrem a ação corrosiva da volúpia, não apenas pelo poder em si, mas pelo que dele pode resultar. Basta que oferecido ou posto em mãos dos que, total e absolutamente pobres, encontram realização com o dinheiro – ganho honestamente ou fruto de expedientes tidos por esses mesmos “poderosos” como mero exercício de criatividade. Malsã, todavia. O germe desse mal, longe de encontrar-se em bactérias, fungos ou vírus, provém dos valores que orientam sua conduta como agentes públicos e seus cúmplices. A essa endemia tem-se dado o nome de corrupção, onde operam com igual escala de responsabilidade e desembaraço, portadores de mandatos ou decretos de nomeação e seus paus-mandados, na esfera pública e na privada. Alguns desses predadores sociais, alheios a qualquer valor aproximado do que se tem por dignidade, acabam por cobrar a tolerância da sociedade, de quem se julgam credores, pelo cumprimento de obrigação legal e de ofício. Pena que, do outro lado, a maioria dos cidadãos desperdice a oportunidade que o exercício democrático lhe permite: votar nos que restam dignos e capazes de professar valorescondizentes com a liberdade, a democracia e o sonho. Garantido o direito de manifestar sua vontade – o mais efetivo e radical traço distintivo dos animais -, o eleitor, frequentemente, tem preferido seguir o andar da carruagem, renunciando àquilo que o faz diferente do burro, da raposa, do rato e de outras espécies que ainda não lograram chegar à condição humana. Daí a necessidade de, também serem promovidos os devidos cortes na corte que se chama suprema.

 
 
 
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