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Têm circulado pelas redes peças de propaganda eleitoral que desafiam a Justiça especializada e seus tribunais, do Superior aos estaduais. Nelas, antes mesmo de ser dada a largada oficial pelo órgão competente, o TSE, têm aparecido coisas que é preciso ter muito estômago para aturar. Não é só esse, porém, o aspecto absurdo do fenômeno. Em si mesmo, a antecipação da campanha eleitoral deveria motivar o Ministério Público e os partidos a ingressar com ações judiciais pertinentes. Seria preciso, no entanto, que os órgãos oficiais tivessem em sua direção servidores conscientes de seu papel e sensíveis aos valores que sustentam a república e orientam o exercício do poder, nas democracias. Não é esse o caso, portanto. Já os partidos, pelo que eles de fato representam, defendem e reivindicam, nada é mais lógico, nem desejável. O que menos lhes interessa é o cumprimento do rito próprio das democracias e do sistema constitucional que as consagra. Agindo em nome de interesses mais distantes dos anseios da sociedade, os partidos são apenas a sede de sua fome e de sua sede, em apetite que estupefaria até Pantagruel. Se o fato em si - a propaganda eleitoral antecipada e, portanto, marginal - é falta grave, a qualidade de alguns dos propagadores aumenta o grau de ofensa à Lei e desafia os melhores sentimentos dos cidadãos comuns. Estes, se são desejáveis seus pronunciamentos favoráveis ou não às candidaturas, deveriam integrar-se à campanha, em seu tempo e hora certos. Usar pronunciamentos de presidiários, aqueles que experimentaram a apenação oriunda do devido processo legal, é acinte desqualificado e torpe. Imagine-se que um candidato vá ao presídio, gravar com Marcola ou outro dos muitos condenados que hoje estão enjaulados ou mantidos em instalações menos constrangedoras, como propagandistas! Se a moda pega...


 
 
 

Na caserna, costuma-se (ou se costumava, ao tempo em que eu me fazia oficial da reserva) usar a expressão tocar horror, sempre que as coisas aparentam instabilidade ou ameaça. É o que vem ocorrendo no meio político, agora que as investigações da Polícia Federal fornecem extenso rol de envolvidos em práticas criminosas de que se pensava incapazes os mais afamados gangsters. Não bastassem as conhecidas formas de os interesses de grupos capturarem o aparelho do estado, dando concretude à expressão de Marx - o comitê gestor da burguesia -, ação de um aventureiro transformado de play-boy em banqueiro acaba por mostrar mais um, a ser inserido no extenso rol de ilícitos utilizados. Daria um romance em si mesmo, o percurso vencido pela dinheirama movimentada, tendo como protagonistas, de um lado, agentes autoproclamados empresários do setor financeiro; do outro, autoridades públicas, cujo coletivo abrange desde dirigentes de instituições supostamente controladoras e portadores de mandatos parlamentares, nos mais diversos escalões da república. Alguns dos observadores, mais preocupados em passar pano na sujeira que o rastro dos protagonistas produz, teimam em buscar saída para os delinquentes. Estes, entretanto, todo dia são desmentidos pelas provas pacientemente colhidas pelos agentes da Polícia Federal, provocando verdadeiro bolero de Ravel - dois prá lá, dois prá cá. À falta de argumento, tentam assemelhar sua conduta com as dos adversários, até o momento em que confessam seus crimes, na esperança de que a comiseração da sociedade lhes favoreça. Pois parte dos profissionais da comunicação tem seu lugar nessa comédia de horrores, quando o horror exige doses mais fortes de Rivotril e congêneres. Por isso, esses porta-vozes mal disfarçados insinuam que o afastamento de seguidores dos delinquentes se dá, de forma crescente, para evitar sejam comprometidos pelos atos de suas lideranças. Nada mais falso. Talvez, propositalmente falso. O que os cúmplices adoradores fazem, quando dão sinais de afastamento de seus inspiradores e líderes, é evitar que se comprometam ainda mais com as práticas de seus ídolos. Comprometidos todos eles estão, quer quando autorizam o funcionamento de um banco que não passou de um saco sem fundo, quer quando apresentam ou aderem à proposta de ampliar o Fundo Garantidor de Crédito, no Congresso Nacional. Se a coisa for longe, como manda o Estado Democrático de Direito, correremos o risco de ter que construir mais e maiores penitenciárias, país a dentro.

 
 
 

Minha suspeita é a de que à vida de qualquer pessoa corresponderia um romance. Há, porém, os que o tem escrito, e os outros, que não encontraram alguém disposto a fazê-lo. Não se trata apenas de peças autobiográficas, como se pode constatar à leitura de tantos dos mais renomados romances. Estes, os há os de capa-e-espada, como os há os romances que entretinham meninas-moças, lá se vão algumas décadas. M. Delly não me deixa mentir. Os Dumas, igualmente. Outros romancistas preferiram ou preferem enveredar por outros territórios, por isso que não têm faltado escritores como Saint-Éxupery, Ernst Hemingway, Stephen King, Machado de Assis, José Saramago, Victor Hugo, Dostoievsky, Dalcídio Jurandir, Benedito Monteiro, e Paulo Jacob e Álvaro Maia, para não esquecer os nossos. O romance policial, que permitiu aos leitores saber do talento de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, poderia avançar e multiplicar-se, caso nossos escritores atentassem para o farto material posto à disposição de seu talento. Com um ingrediente que, mesmo sem ser novo, alcançou proporções realmente romanescas. Refiro-me ás tramas que envolvem a política, o mundo das finanças e o poder. Nesses ambientes, encontra-se farto manancial de articulações, amizades e relações de todo teor, a desafiar os mais argutos e inspirados observadores da fauna humana. Com a vantagem de contarem, sem a menor dificuldade, com multidão de protagonistas, seja dos que praticam as ações que as autoridades policiais e judiciárias (em menor medida, as autoridades penitenciárias) investigam, seja na seara em que cenhos cerrados servem menos para a transparência de legítima indignação, que para esconder os vínculos que pouco a pouco vão sendo expostos à luz solar. Veja-se, por exemplo, o desenvolvimento de uma trama que ocupa a maioria dos meios de comunicação e frequenta gabinetes dos mais importantes da república. Há desde aventureiros que posam de honestos banqueiros (se isso for possível) e dirigentes de poderes supostamente republicanos, até mandatários populares e membros do Judiciário candidatos à vaga de protagonista nos interessantes romances que estão por ser escritos. Posso garantir que, se ninguém for preso, se não há romancista interessado, se tudo acabará como de costume, minha experiência pessoal indica maior a necessidade de ler algo que se refira ao tema. Talvez seja difícil encontrar heróis em qualquer das tramas narradas, mas abundarão vilões e bandidos, mais desejáveis atrás das grades ou nas páginas de romances policiais, de terror ou, mesmo, eróticos (ingrediente que não tem faltado nesse mundo obscuro), a encher páginas e páginas impressas. De minha parte, certa vez escrevi um relato quase-romanesco, a que dei o título A república dos anões. Trabalho que apareceu como folhetim em A Crítica, a abordagem do chamado anões do orçamento transformou-se em livro, editado em 1995, pela Editora Lorena, de Manaus. As cifras envolvidas naquele (apenas um, miserável desse ponto de vista)crime nem troco seriam das que se registram nas relações suspeitas de hoje.

 
 
 
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