Tocou horror
- Professor Seráfico

- 15 de jun.
- 2 min de leitura
Na caserna, costuma-se (ou se costumava, ao tempo em que eu me fazia oficial da reserva) usar a expressão tocar horror, sempre que as coisas aparentam instabilidade ou ameaça. É o que vem ocorrendo no meio político, agora que as investigações da Polícia Federal fornecem extenso rol de envolvidos em práticas criminosas de que se pensava incapazes os mais afamados gangsters. Não bastassem as conhecidas formas de os interesses de grupos capturarem o aparelho do estado, dando concretude à expressão de Marx - o comitê gestor da burguesia -, ação de um aventureiro transformado de play-boy em banqueiro acaba por mostrar mais um, a ser inserido no extenso rol de ilícitos utilizados. Daria um romance em si mesmo, o percurso vencido pela dinheirama movimentada, tendo como protagonistas, de um lado, agentes autoproclamados empresários do setor financeiro; do outro, autoridades públicas, cujo coletivo abrange desde dirigentes de instituições supostamente controladoras e portadores de mandatos parlamentares, nos mais diversos escalões da república. Alguns dos observadores, mais preocupados em passar pano na sujeira que o rastro dos protagonistas produz, teimam em buscar saída para os delinquentes. Estes, entretanto, todo dia são desmentidos pelas provas pacientemente colhidas pelos agentes da Polícia Federal, provocando verdadeiro bolero de Ravel - dois prá lá, dois prá cá. À falta de argumento, tentam assemelhar sua conduta com as dos adversários, até o momento em que confessam seus crimes, na esperança de que a comiseração da sociedade lhes favoreça. Pois parte dos profissionais da comunicação tem seu lugar nessa comédia de horrores, quando o horror exige doses mais fortes de Rivotril e congêneres. Por isso, esses porta-vozes mal disfarçados insinuam que o afastamento de seguidores dos delinquentes se dá, de forma crescente, para evitar sejam comprometidos pelos atos de suas lideranças. Nada mais falso. Talvez, propositalmente falso. O que os cúmplices adoradores fazem, quando dão sinais de afastamento de seus inspiradores e líderes, é evitar que se comprometam ainda mais com as práticas de seus ídolos. Comprometidos todos eles estão, quer quando autorizam o funcionamento de um banco que não passou de um saco sem fundo, quer quando apresentam ou aderem à proposta de ampliar o Fundo Garantidor de Crédito, no Congresso Nacional. Se a coisa for longe, como manda o Estado Democrático de Direito, correremos o risco de ter que construir mais e maiores penitenciárias, país a dentro.

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