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Esperar que do belicoso Donald Trump venha algo dignificante é próprio da ignorância política. Sua sede de poder e lucro tudo corrompe. Ao mesmo tempo, a eventualidade de acionar o botão atômico leva o soba norte-americano a desafiar todos os fundamentos da democracia. Em especial, o princípio da autodeterminação dos povos. Não bastasse ele ter feito do território ucraniano espaço de sua guerra particular; de Gaza seu quintal; da Venezuela a nova Cuba, ele agora interfere diretamente nas eleições argentinas. O medo de Trump, governante de um império em declínio, torna-se pior, pelo papel de crescente influência do BRICS e pela resistência de governos como o do Brasil. Difícil é ele ser convencido de que os Estados Unidos da América do Norte precisam mais dos outros países que estes precisam dele. As finanças, lá, estão comprometidas, tanto pela dependência de importações de bens estratégicos, quanto pelos investimentos chineses. Reconquistar indústrias exportadas para aproveitar vantagens financeiras, à custa de perdas econômicas, vai-se mostrando algo inexequível. Pelo menos, por enquanto. Trump já se deu conta disso, constatável pelas quatro operações fundamentais da matemática. Está chegando o dia em que o provérbio trocará de sentido: contra a resistência, não há força capaz de triunfar.

 
 
 

Raríssimas, duas manifestações de inteligência de algum dos ditadores brasileiros merecem ser lembradas. Ambas, saídas da boca de Ernesto Geisel, o único deles que parecia um anacrônico nacionalista. Para Ulysses Guimarães, talvez a mais importante liderança da oposição, o militar gaúcho pediu que contivesse seus correligionários radicais. A Geisel caberia a contenção dos radicais ao seu próprio lado. No que diz respeito às relações internacionais, o ditador do período 1982-1986 mostrou sabedoria e equilíbrio muitas vezes ausente nos profissionais da diplomacia. Lembrou Geisel que o Brasil não tinha amigos, mas interesses. Nesse caso, ele mirava nas vantagens comerciais, não apenas nos vínculos ideológicos com as demais nações. Assim, os arroubos muito bem calculados por Donald Trump e certo destempero identificado em falas de Lula fazem lembrar o que o ditador brasileiro recomendou ao Senhor Diretas. Na posição de liderança que ambos ocupavam, era preciso estar de olho atento na realidade maior - o País e toda sua complexidade - e no ambiente (chamemos assim) doméstico, a saber: o Estado brasileiro que a um cabia conduzir; a organização partidária e o Congresso, postos sob a direção do outro. Lula e Trump se veem na mesma situação de Geisel e Ulysses, respeitadas as circunstâncias. Quanto aos interesses mais que às amizades pessoais, que o Presidente norte-americano destacou, vale observar como Geisel encarava a aproximação e o tratamento dado a outras nações. O exemplo de que o ditador brasileiro acreditava no que dizia é atestado por uma decisão que muitos do seu círculo mais próximo recusavam. Quem reatou relações do Brasil com a China foi Ernesto Geisel. Se não se pode ter ilusões quanto aos acenos de Donald Trump, simplesmente desprezá-los não será o melhor.

 
 
 

Donald Trump, mais que o governante de um estado poderoso e com forte inclinação bélica, já não consegue surpreender ninguém. Exceção feita aos que optam por ignorar - ou fingem faze-lo - sua índole e sua vocação. Tornado célebre por ocupar espaço nos media, não só como anunciante, aproveitou-se da oportunidade que o avanço tecnológico proporciona aos que têm muito na boca e muitíssimo pouco na cabeça. Dirigindo e apresentando um programa de televisão, ele conseguiu inserir-se na onda direitista que varre o mundo, o que acabou por faze-lo Presidente dos Estados Unidos da América do Norte, mesmo sendo aquela pessoa a quem, na anedota conhecida, não se entregaria um relógio para guardar. Porque se tenha mostrado o retrato vivo dos tempos atuais, estendeu sua liderança a outros países, em que governantes cultores dos mesmos (des)valores e adeptos das mesmas práticas maravilham-se com suas grosseiras, tristes e trágicas façanhas. Uma delas, que só surpreende os que, desatentos, não enxergam um palmo adiante do nariz. Desta vez, ele passa por contribuinte e promotor da paz na faixa de Gaza, em contradição com toda sua atuação anterior. Esta, como sabe qualquer cidadão medianamente informado, pô-lo como grande incentivador e apoiador, político e financeiro do genocídio que seu preposto Benjamin Netanyahu executa contra os palestinos. Em outra frente, faz de seu servil escudeiro (uma espécie de Sancho Pança às avessas, de um Dom Quixote falso)o inimigo de Wladimir Putin. Em suma, transforma o território disputado entre Ucrânia e Rússia no terreno em que os maiores interesses em jogo correspondem a seu país e a seus próprios negócios. À custa da morte de ucranianos e mercenários que os dólares fornecidos ajudam a envolver. Tudo isso, para, depois de fulminar todas as tentativas de encerrar o conflito, aparecer como o grande defensor da paz. Em relação a esta, ele nunca fez segredo: deseja ter sua ação nefasta coroada com o Nobel. Mais que o Presidente de uma nação rica e poderosa, ou de um empresário habituado no uso de práticas no mínimo duvidosas, ele é um prestidigitador. Mas não está sozinho, dirão com muita razão os que observam o cenário mundial.


 
 
 
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