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As cartas

Em uma de suas mais belas e sugestivas canções, Ivan Lins assemelha a dança do poder ao jogo de cartas. Uma a uma, vão caindo as cartas figuradas, dos valetes aos reis, até que a democracia se impõe. Referida, em linguagem poética, à ditadura empresarial-militar no mais trágico e vergonhoso período de nossa história quase-republicana, a peça do pianista, compositor e cantor usava a figura da cartomante e suas profecias. Agora, mais que cartomantes, policiais e cientistas políticos, sociólogos e observadores de todos os matizes apenas analisam os fatos ocorridos no dia-a-dia de nossa sociedade. Com a vantagem de que, valetes nada valentes, eles mesmos concorrem para facilitar as previsões. O que lhes sobra em covardia vem acompanhado de extrema burrice, a tal ponto que as provas da delinquência dos reis e vassalos nus se torna perceptível a qualquer observador. Mesmo aos menos dotados de perspicácia e atenção. Um a um, vão sendo recolhidos às penitenciárias - quando não fogem para o exterior - delinquentes da mesma estirpe e igual dna. Uma sucessão que ameaça - ou anuncia - ver conduzidos pelas autoridades policiais outros valetes, damas e súditos de rei posto e receptivo aos novos hóspedes das penitenciárias brasileiras. Algo que acrescenta aos préstimos das cartomantes o devido processo legal. Como ingrediente dele, a apuração rigorosa e correta da conduta das figuras de um baralho em que, se azes há, esses portam o distintivo da Polícia Federal, do Ministério Público e das togas (nem sempre adequadas, nunca será demais lembrar) do Poder Judiciário. A nudez do rei é revelada, arrastando com ela a hipocrisia posta à luz solar. É preciso avaliar quanto poetas e música ajudam a derrubar o dominó dos que desejam domínio e acabam, como a Greta Garbo da peça teatral, nos desvãos da História. Não será exagero, nem inoportuno, lembrar que Átila, o rei huno, tanto quanto Adolph Hitler, também tornaram-se imortais. Por péssimas razões, como as que marcarão a lembrança de Netanyahu e Trump. Além dos outros, já postos atrás das grades. Quando não físicas, morais, de que trata a tal prisão domiciliar.

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