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Walbert Monteiro*


A expressão utilizada pelo próprio Pontífice é significativa: trata-se de “uma ajuda preciosa”, embora exija, ao mesmo tempo, “uma abordagem sóbria e vigilante”. Em outras palavras, Leão XIV propõe discernimento e responsabilidade, sem medos.

A preocupação central da Encíclica não está na tecnologia em si, mas na possibilidade de que o ser humano se torne vítima do próprio poder que criou. Nesse contexto surge uma imagem bem significativa: a comparação com a Torre de Babel. No item 94, o Papa recorda o antigo relato bíblico para alertar sobre o risco de uma humanidade fascinada por suas conquistas técnicas, mas incapaz de amadurecê-las ética e socialmente. A referência se reveste de atualidade. O problema não está na inteligência artificial, mas na ilusão de que o progresso tecnológico, por si só, seja capaz de responder às questões fundamentais da existência humana.

Há a prudente advertência de que, quando a técnica deixa de ser instrumento e passa a ocupar o centro da vida, o homem corre o risco de perder a referência de sua própria dignidade. A tecnologia pode ampliar capacidades, mas não substitui consciência, responsabilidade moral, compaixão, liberdade nem sentido de transcendência. No meu entendimento a expressão que melhor sintetiza a Encíclica aparece repetidamente ao longo do texto: a necessidade de “salvaguardar o humano”.

No item 117, Leão XIV reafirma que nenhuma inteligência artificial, por mais sofisticada que seja, vive uma experiência humana concreta. Não conhece a dor, o amor, a amizade, a responsabilidade moral, o sofrimento, a esperança ou a entrega. Pode processar dados, mas não possui consciência; pode simular linguagem, mas não possui alma.

A Encíclica recorda, assim, uma verdade essencial frequentemente esquecida em tempos de fascínio tecnológico: o valor do ser humano não está na eficiência, na produtividade ou na capacidade de processamento, mas na sua condição de pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus, algo frequentemente esquecido no mundo da ciência.

É igualmente importante destacar a proposta apresentada nos itens 139 e seguintes, quando o Pontífice sugere uma verdadeira “aliança educativa para a era digital”, passagem bem construtiva do documento. Em vez de simplesmente denunciar riscos, o Papa propõe caminhos concretos: educação crítica, formação ética, fortalecimento das relações humanas, responsabilidade social e desenvolvimento de uma cultura digital que preserve a liberdade e a dignidade da pessoa.

A mensagem do papa Leão XIV é positiva. A Igreja não se coloca contra a Inteligência Artificial. Reconhece seu potencial e compreende sua inevitável presença no futuro da humanidade. O que o Sumo Pontífice pede é que ela permaneça subordinada ao bem comum e à promoção integral da pessoa humana.

Não nos deixemos contaminar pelo entusiasmo ingênuo ante os avanços tecnológicos nem ficar dominados pelo medo irracional diante deles. Existe a terceira via proposta pela Encíclica Magnifica Humanitas: a da prudência orientada pela ética. O verdadeiro desafio não é construir máquinas cada vez mais inteligentes, mas garantir que os seres humanos continuem sendo plenamente humanos.

Entendo que a maior contribuição da Encíclica seja recordar que o futuro não será decidido apenas pelos algoritmos que criarmos, mas pelos valores que escolhermos preservar.

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• Jornalista e escritor, membro da Academia de Letras do Pará, colaborador d'O Liberal.

 
 
 

O jornalista, advogado e escritor Walbert Monteiro, amigo de velhos tempos, é daqueles cristãos que restam sinceros, no mar de hipocrisia que banha imenso rebanho. Frequenta e faz parte, portanto, daqueles a que se pode atribuir o adjetivo fiel, quando se trata da compreensão, da apreensão e das práticas dos valores que os evangelistas apontaram nas prédicas do Nazareno. Graças a isso, é capaz de interpretar as palavras do sucessor de Francisco e fazer de sua interpretação algo que leve seus correligionarios, os verdadeiros e os outros, a profunda e sincera reflexão. Uma tarefa - sejamos óbvios - hérculea, em tempos que fizeram do templo balcão de negócios, a empresa que nem a Fausto ocorreu de criar. Ontem, O Liberal, de Belém, editou o segundo texto de Walbert, comentando a primeira encíclica de Leão XIV. IntituladoMagnifica Humanitas, o pronunciamento papal ratifica, reforça e mantém o caminho que o cardeal argentino inspirado no santo de Assis indicou aos vinculados à Igreja. Incomodava a Francisco, como maltrata Leão, a renuncia à condição humana, o chamado animal superior embevecido - igualmente imbecilizado - pelas promessas da tecnologia. Tido como o animal superior, porque ao instinto natural acrescenta a consciência que cria cultura, filosofia e Ciência, o homem parece seduzido pela possibilidade de tornar-se, ele também, o mais feroz, voraz e desumano dos seres criados a partir de Adão e Eva, ou da evolução dos primatas, segundo o digam sua inteligência e seus mitos e ritos. Tudo, porém, no aparente uso do livre arbítrio, este também fruto da percepção e da interpretação que só a consciência oferece. 0 texto de Walbert, claro, leve e preciso, ocupa nosso Espaço Aberto.

 
 
 
25 de jun.
1 min de leitura

Duas constatações, ao redor do jogo do Brasil ontem: 1°. Somos a equipe mais lenta dos disputantes. 2°. Fora do gramado, Neimar pelo menos não passa mais tempo deitado. Uma terceira poderia ser acrescentada, mas não o faço, antes de dar três toques na madeira: a vitória sobre a Escócia diz pouco; a seleção dos gringos é a mais fraca desta Copa.

 
 
 
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