- Professor Seráfico

- 28 de jul.
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Naquele sorriso encantador havia uma certa angústia, pois faltava alguma coisa. Ela não sabia. Ninguém ao seu redor sabia. O incômodo era quase imperceptível, no entanto ele existia, calado. Ela não sabia que faltava conhecer o mundo.
O tempo passou. Novos desafios surgiram, implacáveis e ameaçadores. Ela não sabia, mas era o mundo lhe impondo razões até então não vividas. Não se intimidou. Se tornou uma tempestade. Agora era gente e natureza.
O mundo estava se abrindo, como uma porta que não existia aos seus olhos. Por trás, uma realidade desconhecida. Não o suficiente para amedrontá-la.
E assim minha companheira foi descobrindo o mundo, além daquela vida certa e quase definitiva. Ela conheceu a incerteza e o caos, descobriu que meter o pé na porta era gostoso, dava um prazer ainda não vivido.
Agora minha companheira caminha sobre o asfalto. O mundo que não conhecia lhe trouxe novas angústias, sofrimento e desespero. Mas é o mundo real, sem paredes nuas para se encostar. Ela cresceu na sua humanidade e seu sorriso é de quem está descobrindo o mundo das coisas.
Minha companheira descobriu as luzes, suas cores, reflexos e encantos. Ela descobriu as vozes das mulheres silenciadas pela opressão e se revoltou com isso. Descobriu o paradoxo, conheceu a indignação e o antagonismo.
Minha companheira se fez mais humana e mais bela. Agora seu sorriso é da completude, tem os traços de quem descobriu o mundo. Claro, lhe trouxe dor, porque conhecer o mundo causa dor, mas lá no fundo aquele sorriso é de satisfação por agora saber das coisas do mundo.
O coração da minha companheira continua cheio de ternura, mas agora ela descobriu o mundo e virou uma tempestade. Não se cala diante da opressão. Ao caminhar sobre folhas secas, ouve seu estalido e, sorrindo, lembra da valsa vienense.
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O autor é sociólogo*.
Foto: Arquivo pessoal.
