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Presente no discurso oficial e usado por políticos que sequer sabem do que se trata, o conhecimento tem levado a equívocos e erros propositais. Quase sempre, para beneficiar pessoas e grupos particulares, em prejuízo da coletividade. Se ao chamado conhecimento vulgar, fonte de lições necessárias e fundamentadas, é devotada enorme má vontade, ao conhecimento científico não têm sido destinados o respeito, o prestígio e os recursos favoráveis à contribuição que podem dar ao equacionamento e solução de graves e recorrentes problemas sociais. Faz mais de 70 anos, surgiu em Manaus o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia-INPA. Resposta às ameaças contra a Região geradas pela cobiça que Arthur Reis identificou, o Instituto tem contribuído para produzir o conhecimento científico e pô-lo à disposição dos que sonham com um País onde a felicidade não seja tema apenas de Poesia. Dela, sim, mas da vida real como ela possa ser. Daí a importância de cerimônia que ocorre hoje, em Southampton, no Reino Unido, quando um dos mais dedicados membros da comunidade científica do INPA recebe a medalha Le CREN, criada pela Fisheries Society of British Isles- FSBI, em homenagem ao cientista David Le Cren. Primeiro dos brasileiros a receber tal honra instituída em 2010, o biólogo Adalberto Luis Val chegou a Manaus em 1981 e, no ano seguinte, integrou-se ao quadro de pesquisadores do respeitável Instituto. Daí em diante, o campinense que se fez cidadão da Amazônia muito tem feito, para o desvendamento da complexa realidade físico-social de  que somos parte. Em sua trajetória profissional, e em meio às atribuições administrativas que costumam reduzir o tempo dedicado à investigação científica, Adalberto Val ainda dedicou parte de seu tempo à direção do INPA (2006-2014). Durante sua gestão, não só foi ampliado o parque científico do Instituto, como foram abertos novos horizontes para a pesquisa científica na Região. De igual modo, projetos de grande repercussão em nível planetário foram iniciados, muitos deles relacionados ao aquecimento do Planeta. Destaque-se, aqui, o Grande Experimento da Geosfera, com a participação de equipes de dezenas de instituições e cientistas de outros continentes. Em seu campo científico mais estrito, o homenageado pela influente CREN reúne extenso e profundo acervo de trabalhos, representados em artigos científicos, capítulos de livros especializados, palestras e conferências, exposições em congressos, seminários e reuniões de especialistas e no magistério universitário. Mais que homenagem pessoal a tão qualificado profissional, a medalha traduz o respeito da comunidade científica internacional a um biólogo que vem dedicando sua vida a fazer melhor a vida dos seus compatrícios. Dizer que o INPA  é o maior homenageado, porém  não exagera. A trajetória de Adalberto o comprova.

 

 
 
 

Henrique Pereira, Diretor do INPA, não deve caber para os cumprimentos. O estande do Instituto, na reunião anual da SBPC, é dos mais visitados. E pode mostrar quanto a comunidade científica é importante, em qualquer país. Não houvesse tanto resultado a mostrar, a descoberta de novos insetos, a apresentação de novos livros e a premiação de um de seus antecessores , o biólogo Adalberto Luiz Val, já diriam muito. Mas há muito mais, no estande montado na UFF, em Niterói. Quando a Ciência não apanha, ela dá muito à sociedade.


 
 
 

OS ACADÊMICOS 27 de maio de 2026



O biólogo Adalberto Luis Val, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para a Região Norte, foi anunciado como agraciado com a Le Cren Medal, distinção concedida pela Fisheries Society of the British Isles (FSBI) a pesquisadores e equipes com contribuição destacada para a biologia, a conservação e a compreensão pública dos peixes no mundo. Com quase cinco décadas de atuação na Amazônia, Val construiu uma trajetória dedicada ao estudo dos peixes amazônicos, sobretudo de suas adaptações fisiológicas a ambientes extremos. A cerimônia de premiação ocorre no dia 30 de julho, na Universidade de Southampton, na Inglaterra.

Val é o primeiro brasileiro a receber a medalha, criada em 2010 em homenagem a David Le Cren, biólogo britânico considerado um dos nomes clássicos da ecologia de peixes. A premiação representa o reconhecimento de uma das principais sociedades científicas internacionais da área e dá visibilidade global à ciência produzida na Amazônia.

A relevância da pesquisa de Val está em mostrar como os peixes amazônicos sobrevivem em um dos ambientes aquáticos mais diversos e dinâmicos do planeta. Ao investigar como as espécies da bacia amazônica respondem a variações de oxigênio, temperatura, acidez, cheias, secas e outros estressores ambientais, seu trabalho ajuda a compreender os limites biológicos da vida aquática em um cenário de mudanças climáticas. Em um mundo cada vez mais marcado por aquecimento, eventos extremos e perda de biodiversidade, a Amazônia estudada por Val funciona como um laboratório natural para entender o futuro dos ecossistemas aquáticos tropicais.

Quem é Adalberto Val?

Natural de Campinas, no interior de São Paulo, Adalberto Val chegou a Manaus em 1981, junto com sua esposa, a pesquisadora Vera Maria Fonseca de Almeida-Val, para realizar seus estudos de mestrado e doutorado no INPA, na área de Biologia de Água Doce e Pesca Interior.

Em 1982, tornou-se servidor do instituto, onde consolidou sua carreira ao longo de 44 anos. Com Vera, fundou o Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), referência nos estudos sobre fisiologia, adaptação e evolução de peixes amazônicos. Atualmente, coordena projetos voltados a compreender como as mudanças climáticas afetam os peixes e a vida aquática da maior bacia hidrográfica do mundo.

Val é autor de mais de 280 artigos científicos, 22 livros e 78 capítulos de livros, além de ter orientado dezenas de estudantes de pós-graduação e pesquisadores de pós-doutorado. Sua produção acumula mais de 10 mil citações e já foi reconhecida com importantes prêmios nacionais e internacionais, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o Award of Excellence da American Fisheries Society.

Para saber mais sobre a pesquisa

Neste artigo de revisão, Adalberto Val e Chris Wood discutem como o aquecimento, a perda de oxigênio, a acidificação e outras mudanças ambientais podem afetar os peixes da Amazônia.

O artigo parte da seca extrema de 2023 para explicar por que peixes amazônicos morreram em massa em águas excepcionalmente quentes e pobres em oxigênio. É uma ponte direta entre pesquisa de laboratório e os impactos visíveis das mudanças climáticas nos rios da Amazônia.

Publicado na Science, com Hans-Otto Pörtner e outros pesquisadores internacionais, o artigo discute por que as crises climática e de biodiversidade precisam ser enfrentadas de forma integrada, integrando a ciência feita na Amazônia com o debate global sobre sustentabilidade.

(Tiago Mota)

 
 
 
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