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Sentou-se à mesa

sem que sequer

alguém o tenha

percebido

convidado não fora

nem esperada era

sua vinda

sentiu-se à vontade

como desfrutasse

das honras

dos sabores

dos gestos – só horrores!


Momento inusitado

pratos servidos

saberes aromas

em repasto suculento

para ele apenas

um pretexto

como a carne ao queimar no fogo

sentia favorável o contexto

interessado em conduzir

o jogo


que ele armava e conduzia

com talento

a cada nova pedra

que caía

aumentava a angústia

entre os convivas

maior era o seu

contentamento

ao dominó macabro se juntava

cumplicidade sorrateira

alucinada

o que restara

das pessoas vivas

do lado onde pousara

ser invisível poderoso

acumulavam-se as pedras

derrubadas

por debaixo da mesa

transitavam

peças fatais sem frugalidade

igual à que era antes

compondo o arranjo em

trágico ritual

de monstros-gigantes


uma a uma

caiam as pedras

os peitos cansados

ofegantes

jogadores assustados

careciam do ar a cada perda

vozes a menos

atravessam a mesa

a sensação de estar em Hamelin

e uma dor cá dentro

pungindo

alma apodrecida

doendo em mim...

Manaus, 05 de fevereiro de 2021

 
 
 

Lavemos todos as mãos

sacrifiquemos o convívio

que nos faz humanos

guardemos abraços

afagos apertos de mão

carinhos

sem os quais

não seremos

senão animais ...

às vezes nem tanto

pássaros distantes

do seu próprio ninho


Passemos contudo

à distância da pia

lavatório usado por

Pilatos

respeitemos a cruz

adrede erguida

multiplicada sem monte que as acolha

esqueçamos se plausível

ou agradável

afinal se trata simplesmente

de uma escolha

a registrar em história impossível

mesmo que seja sua

última folha

daquele um dia feito governador

de Roma

trágico romance

de tragédia e ódio recheado

caverna de onde flui

macabro aroma


Lavemos as mãos

pode ser que o gesto

a gente acalma

não é certo porém

que o fazendo

se veja limpa e lavada

mais que boca e mão

sempre armadas

também limpa estará

a alma.


Manaus, 04/02/2021




 
 
 

Abutres répteis carnívoros

roedores

talvez Linneu ou Darwin nos digam

a espécie dos convivas do

banquete

farta a mesa em que

estão postados

crepitam as brasas em

funéreo ritmo

ostentação vibrante

na mais vil torpeza

de algarismos acumulados

quantos bastem

a comprovar a dimensão

da invulgar vileza


Acumulam-se em leitos

de que não se conhece até mesmo

a profundeza

vítimas esperadas

por abutres de voo curto

aos nimbus e limbo

condenados

a rastejar

em charcos enlameados

podridão abjeta

sem qualquer beleza


Roedores ávidos gulosos

no exercício feroz de

precariedade humana

a todos mentem

sem se darem conta

o que de suas bocas sai

a ninguém mais engana.


As gargalhadas

pilhérias ofensas

imprecações várias

correspondem à manifestação de

hienas

com a diferença de que

os quadrúpedes

para isso se alimentam

carnes pútridas

fezes nojentas

e o sorriso

assimilados por bípedes

que se pensam

em Paraíso

fétido e podre

onde seus apetites

se fermentam.


Quando a História

se der conta desses fatos

e os pósteros

não revelarem qualquer surpresa

saberão do mal que fazem os ratos

mesmo se substituídas suas presas.









 
 
 
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