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Um pé quebrado

não compromete o poema

claudicante

um vírus impede

que os pés

- e tudo o mais

seja levado


Situação agonizante

não apenas o oxigênio

negado

morte presente

todo instante

em todo lado


quão importante

importação

fúria assassina

vinda do alto

consigo vindo para o povo

tamanho sobressalto


ao invés do remédio

a cloroquina

onde se nega

a proteção indispensável

da vacina


sustentada pela

ação em todo caso

lamentável

execrável em nada

por acaso


somente mais um descaso

e a indesejável

e desejada propina.

Manaus, 30.06.2021


 
 
 

Trinta mil

(guardem este número!)

era a meta pretendida

pensava-se possível

impedir

fosse estendida

antes da cena execrável

ainda não repetida

vírus energúmenos

a que vermes

deram ânimo

gritos histéricos

aplausos e reverbero

dedos escorrendo sangue

de muitas veias

derramado

mãos de Pilatos

pilando esperanças

os cenhos sérios

hábito próprio

a corações de bons sentimentos

assaz desabitados

abjetos atos

o desespero fazendo refém

de todos

sempre mais perto

o destino

em meio às cruzes

de próximos e distantes

cemitérios.


Multiplica-se já por

uma dezena

de que a quarentena não é o

dique

a triste meta

de morte tecida

sem que se saiba

o que isso

signifique

mesmo sabendo

qual afinal a

humana meta.

Manaus, 16-03-2021

 
 
 

Poetas preferem ouvir

estrelas

reis fossem

qualidades mágicas à

flor da pele

fariam de Aldebaran

Orion Rígel

suas guias

à manjedoura chegaram

mirra ouro incenso

generosa doação depositaram

esquecido ou ignorado

eventual dissenso

sem desdouro ou birra

é o fato a que nenhum

mais admira


Sabia-se nada

de um vírus coroado

coroa sem espinhos

cingido círculo

só aos tolos seduz

destino certo – a cova

mesmo sem que haja

única ou múltipla

se mostre a cruz


A estrela deixa de ser guia

nascimento invertido em

partida

cede lugar ao aplaudir

da morte

em meio à dor

generalizada perda

desloca o eixo

faz da Terra

desterrada

põe acima do equador

mistura tudo

setentrionando o Sul

meridionando o Norte

Não é mais a

audiência pretendida

nem são suaves os passos

das sandálias

havia rosas onde hoje

os cravos medram

genuflexão

paga triste reverência

à intenção

nem estimulam os camelos

reais esporeados

interessados na chegada

alvissareira

ao sagrado estábulo

olhos voltados para a

submissão da obediência

trágica mentira

tornada verdadeira.


Manaus, 27-02-2021

 
 
 
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