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(Para Thiago de Melo)


Pôs-se o poeta

em contemplação

os olhos cansados

de tanto ver

injustiça

violência

hipocrisia

desesperança


Os ouvidos cheios

dos gritos

torturados

do lamento

pranto dos ofendidos

da prece interrompida

da palavra presa

à garganta


A pele trazendo

a marca inscrita

nos escuros porões

dos tempos

as mãos ásperas

e seu desenho

carregam o peso

da caneta

que do amor ao próximo

se fez serviçal


Trôpegos

os passos alcançam

distância reservada

aos que fazem

da compaixão

seu roteiro

do amor

sua cartilha


Lucidez

posta em verso

e canto mesmo

– sobretudo

quando faz escuro.



Manaus, 06-01-2020

_______________________________________________________________________________

* Poema integrante do livro VELEIDADES POÉTICAS (Editora Scortecci, São Paulo-SP, 2021), p.56.





 
 
 

Contemplo-as

leves ágeis coloridas

adejando

pouso fugaz sendo

preparado

flor a flor

suavemente tocada

violada

toque suave lhes tira

doce alimento

suave o voo

veloz o pouso

pólen lançado

antes nos meus olhos

aturdidos

perplexos diante

dos reflexos

daquelas asas

pequeninas insinuantes

coloridas

até chegado o momento

de espalhar

em terra fértil

ou campo avarento

na tempestade ou no

mais suave vento

simplicidade de um gesto

tão complexo

a transcendência encontrada

no instinto

borboleta vida precária

somente um dia

na existência do jardim

a garantia

a impedir-lhe hora e vez de

ser extinto

e nos meus olhos

nunca marcar

o fim...

 
 
 

Do outro lado da

linha

vejo o brilho do sol

nem tão perto que ofusque

nem desmaiado

que impeça o cálculo

preparo-me como todos

para pôr os pés

mais adiante


Sigo sem medo

na cabeça velhos

sempre lembrados

sonhos

o sangue fluindo

em borbotões dentro de

mim...


Sonhos sangue

e aquela vontade

de mudar o mundo

sem dar muita importância

ao tempo

inimigo que é tolice

supor vencer

esse gigante invencível

indiferente

presunçoso

a zombar de todos e

de cada um

cada qual com o

seu - que não é dele

tempo


Quando chegamos

ele já estava em

toda parte

como à espera

do visitante incômodo

que iria ocupar

a infinitude de que dispunha

sem dela jamais abrir

mão


Aquele inimigo

a quem não interessa

o sim

tanto quanto não o

comove o mais desesperado

não


De soslaio ele nos

aprecia

seja largo o caminho

demasiado estreita seja

a via

por cima dos ombros

nos contempla

arrogante entediado

por saber-nos passageiros

em território de que

se sabe dono

por período só por ele

conhecido

nunca revelado


Cuidamos todos de não

perturbar a permanência

sem a vergonha

antecipada

por derrota líquida

ou não

não obstante certa


Tratamos de evitar

o aborto do que recheia

nossa bagagem

ora pesada como se cruz

um dia fora

ora tão leve

que nos põe entre

mil asas


Depois de atravessada

e deixada para trás

a linha permanece

raramente se desfaz

cada passo à frente

às vezes nos torna

diferentes

outras vezes

fica mais tenaz


Conosco segue em

calendário

o que muitos constroem

e chamam Vida

à diferença dos que

desanimados e em desespero

preferem chamar calvário


Incapaz de ganhar

ao menos uma batalha

dessa guerra de desenlace

conhecido

o ludibrio impossível

tem um sucedâneo

chame-se calendário

relógio ou ampulheta

até o dia em que

arquivo sem uso

o passeio chega ao fim

no fundo úmido

da mais vil gaveta.


Manaus, 31.12.2021









 
 
 
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