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Esta imagem, produzida em balata*, foi encomendada de um artesão paraense. Partícipe de numeroso grupo de artistas que expunham seus produtos na Estação das Docas, durante as festas do Círio de Nazaré, encontrei-o expondo lá seus trabalhos. Naquele local de grande apelo turístico, entusiasmei-me com outras peças por ele confeccionadas no mesmo material. Mandei imagens de Dom Quixote para lhe servirem de modelo. Foi quanto o artesão me exigiu. Ele pode não ter feito simples cópia, mas seu trabalho mostra a possibilidade de o universal também transformar-se em regional. Ou vice-versa. Sem perda do significado. A mim coube apenas encontrar base capaz de manter em equilíbrio o cavaleiro montado, uma base de vidro.

O material é uma espécie de látex extraído de uma árvore da família das sapotáceas, com ocorrência na América Tropical. É aproveitada, além de por artesãos de pequenos objetos, na fabricação de correias de transmissão e bolas de golfe.

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Era um domingo. À tarde, em São Paulo. Acabáramos, Graça e eu, de visitar a feira de antiguidades do MASP. Algumas tendas, do outro lado da rua, chamaram nossa atenção - a feira de artesanato. Não foi difícil descobrir um artesão fazendo pequenas peças em vidro soprado. Indaguei dele se saberia confeccionar uma imagem de Dom Quixote.

"Desde que o senhor me mande um modelo, eu o replicarei". Fiz como ele disse e, cerca de dois ou três meses depois, recebi, embalado cuidadosamente, o que ao autor parecia uma réplica da imagem conhecida do herói cervantino. Mesmo sob o olhar enviesado de alguns que conheceram a pequena peça, mantive-a na galeria de casa. Realmente, seria necessário explicar como surgira aquela imagem, incapaz de ser apreendida em seu significado ao simples olhar. Justificava minha insistência em pô-la ao lado das demais imagens do cavaleiro manchego:"assim o vê o soprador de vidro. É o que me basta". Suspeito que a arrumadeira de minha casa à época, algum dia aprendeu quem era Alfonso Quijano, cavaleiro andante auto-proclamado. Sua vassoura pôs por terra o infelicitado herói. Aborreci-me, sem a dor que me afetaria, outra fosse a peça perdida. Um ano após, seguindo o mesmo roteiro, percorridas as tendas da feira de antiguidades dirigi-me ao Parque Trianon. Voltei ao artesão e seu vidro soprado. Ele me reconheceu e mostrou ter-se lembrado do primeiro encontro. Pode então responder à minha pergunta:"eu trouxe duas estatuetas de Dom Quixote. Vendi a maior durante a manhã deste domingo". Pressuroso, pedi a outra. É esta que vocês veem. Parecida, agora sim, com uma das maiores criações da literatura universal. Mesmo se o elmo não parece a bacia de Mambrino.

 
 
 

Atualizado: 8 de jan. de 2020



A peça produzida em cerâmica foi presente de uma religiosa, como eu tocada pelos sentimentos que moveram o cavaleiro da Mancha. Chama-se ela Giustina Zannato, atualmente morando em Moçambique. Foi para lá, entregue sua vida ao serviço religioso e humano aos pobres habitantes daquele país africano. Repetindo o que fizera antes em Manaus, dedicada por alguns anos às tarefas de que se ocupam as religiosas salesianas. Especialmente, na Casa Mamãe Margarida, onde dividiu com a Irmã Lúcia Barreto (prima de minha mulher, Graça) experiência de vida que só aos generosos e determinados é possível acumular. Deu-se que, em uma das viagens à Itália de seu nascimento, Giustina lembrou-se do amigo conquistado nestas quentes terras e da admiração que ele dedica - a ponto de tomá-lo como bússola - ao Quixote. Não foi difícil, portanto, ratificar a fraterna amizade com a generosidade do gesto. Comprou e enviou do exterior uma das raras imagens em que Alfonso Quijano, feito cavaleiro, não ostenta o cenho cerrado, o olhar furibundo, a disposição para o combate. Ao contrário, Dom Quixote tem os olhos postos no firmamento, como se na tentativa de encontrar dentre as estrelas aquela por cujo amor lutava - Aldonza ou Dulcineia del Toboso. Os que a virem observarão, se marcados pela mesma expectativa da personagem, que até a espada aparenta um violino (ou seu arco, se o sentimento não é tanto), pronto a ser tocado. Quem não se toca diante de imagem semelhante?

 
 
 
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