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Era um domingo. À tarde, em São Paulo. Acabáramos, Graça e eu, de visitar a feira de antiguidades do MASP. Algumas tendas, do outro lado da rua, chamaram nossa atenção - a feira de artesanato. Não foi difícil descobrir um artesão fazendo pequenas peças em vidro soprado. Indaguei dele se saberia confeccionar uma imagem de Dom Quixote.

"Desde que o senhor me mande um modelo, eu o replicarei". Fiz como ele disse e, cerca de dois ou três meses depois, recebi, embalado cuidadosamente, o que ao autor parecia uma réplica da imagem conhecida do herói cervantino. Mesmo sob o olhar enviesado de alguns que conheceram a pequena peça, mantive-a na galeria de casa. Realmente, seria necessário explicar como surgira aquela imagem, incapaz de ser apreendida em seu significado ao simples olhar. Justificava minha insistência em pô-la ao lado das demais imagens do cavaleiro manchego:"assim o vê o soprador de vidro. É o que me basta". Suspeito que a arrumadeira de minha casa à época, algum dia aprendeu quem era Alfonso Quijano, cavaleiro andante auto-proclamado. Sua vassoura pôs por terra o infelicitado herói. Aborreci-me, sem a dor que me afetaria, outra fosse a peça perdida. Um ano após, seguindo o mesmo roteiro, percorridas as tendas da feira de antiguidades dirigi-me ao Parque Trianon. Voltei ao artesão e seu vidro soprado. Ele me reconheceu e mostrou ter-se lembrado do primeiro encontro. Pode então responder à minha pergunta:"eu trouxe duas estatuetas de Dom Quixote. Vendi a maior durante a manhã deste domingo". Pressuroso, pedi a outra. É esta que vocês veem. Parecida, agora sim, com uma das maiores criações da literatura universal. Mesmo se o elmo não parece a bacia de Mambrino.

 
 
 

Atualizado: 8 de jan. de 2020


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A peça produzida em cerâmica foi presente de uma religiosa, como eu tocada pelos sentimentos que moveram o cavaleiro da Mancha. Chama-se ela Giustina Zannato, atualmente morando em Moçambique. Foi para lá, entregue sua vida ao serviço religioso e humano aos pobres habitantes daquele país africano. Repetindo o que fizera antes em Manaus, dedicada por alguns anos às tarefas de que se ocupam as religiosas salesianas. Especialmente, na Casa Mamãe Margarida, onde dividiu com a Irmã Lúcia Barreto (prima de minha mulher, Graça) experiência de vida que só aos generosos e determinados é possível acumular. Deu-se que, em uma das viagens à Itália de seu nascimento, Giustina lembrou-se do amigo conquistado nestas quentes terras e da admiração que ele dedica - a ponto de tomá-lo como bússola - ao Quixote. Não foi difícil, portanto, ratificar a fraterna amizade com a generosidade do gesto. Comprou e enviou do exterior uma das raras imagens em que Alfonso Quijano, feito cavaleiro, não ostenta o cenho cerrado, o olhar furibundo, a disposição para o combate. Ao contrário, Dom Quixote tem os olhos postos no firmamento, como se na tentativa de encontrar dentre as estrelas aquela por cujo amor lutava - Aldonza ou Dulcineia del Toboso. Os que a virem observarão, se marcados pela mesma expectativa da personagem, que até a espada aparenta um violino (ou seu arco, se o sentimento não é tanto), pronto a ser tocado. Quem não se toca diante de imagem semelhante?

 
 
 

Atualizado: 8 de jan. de 2020


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Autoria: um pintor.

Estávamos próximos do dia Das Mães, não faz mais que cinco anos. Diversas mulheres pararam diante do pintor – um homem gordo, barrigudo, vestido apenas de uma bermuda. Nada lhe cobria o tórax, nem sandálias usava. Os pés, como o tronco, estavam nus. A cabeça, raspada, desenhava aparência grotesca, não paupérrima. Atendia com presteza as mulheres, todas desejosas de comprar a lembrança a ser oferecida à mãe de cada uma. À frente delas, pousada na calçada da rua, uma cesta de vime, em que se acomodavam algumas peças de azulejo, ilustradas com flores de cores em geral berrantes. Uma delas pediu ao pintor que escrevesse a mensagem: À minha querida mãe, no seu dia. Beijos. Pagou o preço mostrado na pequena tabuleta fincada entre as peças – R$ 15,00.

Encerrada a venda, perguntei ao pintor: És capaz de pintar o Dom Quixote? A resposta não demorou: Aquél que viene siempre con un gordito?  Sim, respondi. É o escudeiro dele, o Sancho Pança. Logo vi que o artista de rua sabia do que eu falava. Nova pergunta: Por quanto pintas os dois, para mim? Con los molinos? foi o que ouvi. Si, emprestei a língua por ele falada, para responder. Veinte reales! Entonces, hace uno que te pago. Non, me pone dinero en las manos; te pongo en las manos el quadro.

Fui à agência mais próxima do banco, e voltei com o dinheiro na mão. Puedes hacerlo, porqué ya tengo el dinero. O que bastou, para o homem tirar de uma bolsa de pano um azulejo branco, imaculado. Apertou a bisnaga de tinta sobre uma paleta improvisada, um pedaço de madeira; com um cotonete e um palito de dentes, seus dedos corriam, agitados, de um ao outro lado da pequena peça de cerâmica. Não se terão passado mais que 20 minutos, até o homem dizer: Toma, esta listo! Devolvi: Como te llamas? Non tengo nombre! De donde vienes? Del mundo.

Nada mais me disse, nem mais nada eu perguntei.

Saí de lá, com a certeza de que tinha adquirido a peça mais barata de minha coleção. Das mais bonitas, também! e uma das que me são mais caras...

 
 
 
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