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Consulto o pai eterno de todos, o dicionário. Lá aprendo que são dados nomes às coisas para que elas mantenham sua individualidade, sejam conhecidas por suas peculiaridades. Pelos traços e características que os fazem distintos de outras coisas. Logo percebo quanto a abrangência de um termo não é igual à do outro. Se a todos os objetos inanimados podemos chamar de coisas, não pode impunemente receber o mesmo tratamento um ser vivo. Dentre as variedades deste, temos os seres humanos, os outros animais e os vegetais. São animados todos, porque dentro deles há vida, ânima, alma. Por isso, quando falo homem, sei não estar me referindo ao grupo a que pertence ou classificamos os seres humanos. Ou aos vários grupos a que ele se vincula, ao l

ongo da vida. A família, a vizinhança, a escola, a igreja, a organização em que trabalha. Também o espaço geográfico por ele ocupado - o bairro, a zona, a cidade, o Estado, a região e o país. O conceito atribuído a cada um desses espaços reconhece as peculiaridades por ele ostentadas. Dizemos do Brasil que, localizado na porção sul do continente americano, ele ocupa espaço maior que 8 milhões e meio de quilômetros quadrados; esse espaço maior contém 5 regiões, cada uma delas com atributos físicos e culturais distintos, em relação às demais. Quando digo ou escrevo Brasil, é àquele pedaço da América do Sul, não a qualquer outro, que me refiro. Se falo da Amazônia, eu e meu interlocutor não temos dúvida a respeito da abrangência de minha abordagem. Escrevi tanto, até aqui, apenas para dizer da minha ojeriza e da minha contida irritação, só de ouvir ou ler a expressão como um todo. A não ser que eu tome todo interlocutor como um ignorante absoluto dos objetos, espaços, relações e circunstâncias de que tratamos. Por favor, poupem-me dessa forma de tortura! Também peço me poupem do uso indevido e confuso de certa expressões inadequadas, além do onde abusivo, que serve para substituir o quando, o em que/no qual, para ficar nestes dois infelizes exemplos. Já nem menciono o saraivada, que deu para qualificar ações que nada têm a ver com a palavra. O verbo assolar tem tido semelhante serventia. Ou o nome das coisas não tem a menor importâ ncia?.

 
 
 

Faz poucos dias, uma mulher foi morta no Município de Presidente Figueiredo. Venezuelana, palhaça, a vítima percorria a América do Sul, montada em uma bicicleta. Fazia oito anos, morava em Manaus. Presumo tratar-se de uma artista de rua como as muitas que angariam alguns trocados com os quais possam sobreviver, embaixo dos semáforos das esquinas de Manaus. Trabalhando no que sabia fazer e sobrevivendo com dignidade. Chamava-se Julieta (Hernandéz Martinéz). Tinha 38 anos. Só não teve um romeu capaz de defendê-la, embora nenhum mal fizesse aos que abordava, na sofrida luta pela sobrevivência. Que acabou perdendo. Mais que simples e escondida notícia de página policiai, o drama dessa Julieta violentada é um retrato. Retrato de uma realidade sórdida, ardida, impudica. Talvez a xenofobia de alguns espécimes que se dizem semelhantes a ela tenha a ver com o drama de Julieta. Sem Verona. Sem outros verões. Vida agora sem sol. Não sou o único que ouviu e continua ouvindo palavras insultuosas, agressivas, desumanas, quando os xenófobos dirigem seus preconceitos àqueles venezuelanos ou haitianos que aqui encontraram abrigo e solidariedade. Nossos irmãos originários também sabem do que trato. É menor a população dos que fazem do preconceito uma regra pétrea de vida. Não basta, porém, sabê-los poucos. Importa reconhecer que eles existem. Um só que houvesse, não a multidão em que já se constituem, seria o suficiente para alimentar e alimentar-se do ódio que deu de ser nossa companheira. A tal ponto que a morte da palhaça só conta nos registros policiais. E no lamento e choro das pessoas que ainda guardam dentro de si um coração. E têm na cabeça a solidariedade e o que ainda pode restar da condição humana. Desafinados todos eles, talvez. Mas certos de que no peito de um desafinado ainda bate um coração. Pelas tantas julietas e marias. E Maryelles. Pelos que, capazes de levar a alegria aos seus contemporâneos, sentem-se diminuídos, quando a Vida desprezível de uns sacrifica a Vida construtiva e alegre de tantos.

 
 
 

Iniciei, junto com o Ano de 2024, a leitura de livros sobre a economia. Do Pais, da Amazônia e do Amazonas. O engenheiro e ex-Secretário de Estado de Desenvolvimento dessa unidade da Federação, Samuel Hannan é o autor dos quatro livros que prometo fazer percurso dos meus olhos, nos dias que seguem. Um deles leva também a assinatura de seu filho David. O que me entrar pelos olhos, estou certo, levará à minha mente inquieta muito conhecimento, como imensurável elenco de novas dúvidas. Para isso serve a mente humana. É o que me tem ocupado, desde que conhecidas as sete operações fundamentais da Matemática e aberta a enorme porta da alfabetização. Nesse caso, processo autodidático frequentemente repetido. A ponto de induzir leitores, alunos, até algumas pessoas amigas ao equívoco de me qualificar inadequada e injustamente. Bacharel em Direito e advogado, frequentemente sou tido por economista. Aqui, a conclusão de um curso promovido pela Comissão Econômica para a América Latina- CEPAL terá fornecido o pretexto para a qualificação inadequada. Talvez por que depois de 52 anos, ainda retenho muito do que aprendi ali, conteúdo a que acrescentei permanente interesse pelo respectivo campo de estudos. A consideração dada aos sociólogos me é estendida, creio, pelo fato de que não canso de afirmar o caráter gregário do descendente do pitecanthropus erectus, e dos compromissos que isso acarreta para os integrantes de uma sociedade. Todos, em qualquer sociedade. Jornalista sou tido pelos que me viram um dia que se tornou período maior que 20 anos, editorialista do principal jornal diário de Manaus. Além de, no já esquecido período 1961-1964, ter passado pela redação de um diário de Belém, Pará. Administrador foi-me rótulo imputado, em razão do exercício efetivo do magistério em curso específico de formação de bacharéis da Administração. Além disso, toda uma longa trajetória como gestor de organizações públicas e privadas. Nada desse reiterado equívoco equivale à conquista de um diploma. A compensação que um pedaço de papel impresso não contém, recebo-a da consideração dos meus contemporâneos, a cada texto ou livro publicado, a cada palestra proferida, a toda entrevista concedida. É o que me basta. Pelo menos por enquanto, mal começada a instigante viagem que a leitura proporciona. Aos que sabem ler para muito além do que se expressa em tinta sobre o papel...

 
 
 
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