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Atualizado: 16 de mar. de 2024


Por mais absurdo que possa parecer, o golpe tentado e frustrado em 08 de janeiro de 2023 nasceu há pelo menos três décadas. Quase quarenta anos, na verdade. Essa é hipótese que não pode ser descartada, sob pena de tornar mais difícil – se não impossível – prevenir novas tentativas de fragilizar e, afinal, matar nossa incipiente e hesitante democracia. Não precisamos sequer lembrar a divisão de nossas forças armadas, quando o general-ditador Ernesto Geisel se viu forçado a cortar na própria carne. Refiro-me à destituição do general Ednardo d’Ávila Melo (Comandante do II Exército, SP, 1976) e à derrubada do mais notório golpista, general Sylvio Frota, Ministro da Guerra, em 1977. A morte do sindicalista Manoel Fiel Filho, em circunstâncias semelhantes às do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do DOI-CODI levou à exoneração do general Frota, como a de Herzog havia levado à destituição do Comandante do II Exército. Menos porque Geisel fosse plenamente hostil aos métodos dos torturadores, como ilustra sua expressão. A tortura é dispensável, a não ser em certos casos. Atribui-se ao general Geisel tal afirmativa, tomada em seu significado, sem que aqui esteja em sua literalidade. Mas Frota discordava de Geisel e desejava candidatar-se à sua sucessão. Era a linha dura manifestando-se contra a distensão que tinha em Golbery Couto e Silva o inspirador. Ambos os acontecimentos (as duas exonerações) são, talvez, o ninho em que se instalaram e alimentaram os sonhos dos inimigos da democracia. Lá pode ter começado o processo que culminou com a mais agressiva e ostensiva conduta antidemocrática posta a nu no início do governo do atual Presidente. Tal processo inclui, dentre outros atos e fatos a que nem todos os observadores e analistas deram atenção, a reiterada louvação da tortura e o encômio aos torturadores;

a campanha do ex-capitão contra as urnas eletrônicas; o desejo de matar pelo menos 30.000 brasileiros; a promessa de eliminar a “petralhada”; a invasão da sede da Polícia Federal; a movimentação de tanques e tropas em 7 de setembro de 2022; as agressões e ameaças ao STF; a tentativa de explodir o aeroporto de Brasília e – clímax desse trajeto, o ataque terrorista à sede dos poderes constituídos. É possível que observadores mais atentos incluam vários outros momentos e atos nesse processo que levaria ao retorno do autoritarismo. Não se pode descurar, segundo meu juízo, dos fatos de que foi protagonista, ainda na década dos 1980, o ex-capitão excluído das forças armadas e depois tornado inelegível. Nem o ambiente internacional, desenhado segundo o crescimento dos movimentos conservadores e direitistas em vários países, em distintos continentes.

O destaque alcançado pelo ex-capitão, se não corresponde a virtudes cuja ausência Geisel mencionou (militar indisciplinado, dizia dele o superior hierárquico), pode ser atribuído à oportunidade que alguns camaradas viram de chegar ao poder. Para isso, precisariam de alguém disposto a pôr em risco sua própria vida. Pelo menos, a dar algum crédito às reiteradas ameaças, covardia à parte, como o episódio do assalto que o fez perder a arma que portava, quando assaltado. Os golpistas viram nele o perfeito executor do golpe. Mesmo se para tanto os outros tivessem que aproveitar episódio nada dignificante para as forças de que todos faziam parte. Assim, podem-se incluir nesse processo as acusações contra o colega que tentou explodir quartéis e outros pontos estratégicos da cidade do Rio de Janeiro (inclusive a usina de bombeamento de água para abastecimento da população) e sua consequente exclusão do Exército. Esta, já se sabe, em condições muito mais próximas da premiação, que da punição. Pois não pode ser outro o juízo que se faça dos atos e suas consequências, quando o acusado é mandado embora com uma promoção e a garantia de receber os soldos correspondentes. Isso não aconteceria, é a hipótese, se ele não fosse visto como capaz de cumprir a trajetória que o fez Presidente da República. No posto, seria ele o responsável pelo retrocesso desejado por boa parte dos “ex”-camaradas. Ao invés de tê-lo distante das tropas e impedir sua aproximação de outros segmentos e organizações sociais (polícias federal, militar e civil, milícias e outras organizações), estimular seu ingresso na disputa eleitoral seria caminho desejável. Isso resultou na eleição municipal do camarada excluído, pelo Partido Democrata Cristão, no Rio de Janeiro, em 1988. Aí começou a segunda parte da trajetória política, desta vez acrescida da participação eleitoral. A primeira parte contém os artigos publicados na revista Veja, no tom e conteúdo próprios dos sindicalistas. Suas opiniões e a defesa de melhor remuneração, sobretudo aos graduados (de soldados a sub-oficiais) atraiu a atenção dos segmentos inferiores da hierarquia militar. Mais tarde, a revelação de sua participação em plano terrorista que impactaria sobre a população da ex-capital federal manteve-o em evidência. Talvez o marco simbólico de que, ele sim, poderia levar à concretização do sonho dos autoritários da caserna.

Porque restassem em atividade muitos dos que participavam das ideias e das convicções de Frota e Ednardo (para ficar nesses dois, pela notoriedade), é de admitir que ao projeto por eles acalentado aproveitasse a emergência do camarada excluído. Fazerem-no porta-voz e defensor dos valores comuns talvez pudesse levá-los ao objetivo havia tanto tempo alimentado.

Se faltasse substância à hipótese acima descrita, não faltariam registros históricos a revelar certa simpatia pela ruptura institucional cuja origem teve a caserna como berçário e ninho. Mesmo a Proclamação da República é a expressão desse sonho. Ainda que muitos dos republicanos de 1889 jurassem fidelidade ao imperador, até a véspera. Depois disso, certa tentativa bizarra, pois quem a deixou à mostra se chamava Jurandyr Bizarria Mamede, um coronel do Exército, não obteve êxito porque outro de seus colegas, um superior chamado Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott o impediu. Lott não tinha simpatia pela esquerda, mas graças a seu apego às instituições, frustrou o golpe que evitaria a posse de Juscelino Kubitscheck de Oliveira na Presidência da República. Estávamos em 1955, vencida pela aliança PSD/PTB a eleição de outubro do ano anterior. Arranjos de Café Filho, o sucessor de Getúlio Vargas e o Presidente da Câmara, Deputado Carlos Luz provocaram a intervenção do marechal Lott, que garantiu a entrega da Presidência ao Presidente do Senado, Nereu Ramos.

Juscelino, para quem não sabe, enfrentou duas sedições cujo ovo fora chocado sobretudo na Aeronáutica. O major aviador Haroldo Veloso liderou o movimento de Aragarças e, com o capitão José Chaves Lameirão, o de Jacareacanga. Ambos foram contestados e reprimidos, inclusive pelo antigo fomentador de rupturas institucionais, o brilhante jornalista Carlos Werneck de Lacerda, chamado pelos adversários “o corvo”.

Neste caso, pode-se observar a distância entre os mentores, os de ontem e os de hoje. Na tentativa de Bizarria Mamede, o voo de um abutre; agora, os gritos de ratazana saída dos esgotos.

Em síntese: a tentativa golpista que em 8 de janeiro de 2023 chegou às ruas registrou seu nascimento nos cartórios do início da segunda metade do século XX e o teve ratificado na oitava década desse século, com o pacto não-escrito(?) que embalou a aventura e se aproveitou de um desastrado e canhestro aventureiro. Esta a hipótese que sugeriria aos historiadores explorar.

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*Os leitores que desejarem mais profunda e extensa apreciação do período do Segundo Império até a promulgação da Constituição de 1988 poderão encontrá-la em A vontade de potência, de Orlando Sampaio Silva, colaborador deste blog. A obra, de 2012, foi editada ela Chiado Editora, de Lisboa, Portugal.

 

 
 
 

Pedro, caro e jovem amigo,


Veio a calhar o nosso encontro do último sábado. Se nada de extraordinário houve na acolhida que lhe proporcionei e no café que Pessoa nos fez sorver, o pouco tempo de convívio enriqueceu-me e enriqueceu minha pobre biblioteca. Interrompo a leitura do seu CRÔNICAS DE UM POETA CRÔNIC0, ultrapassadas as primeiras páginas. No prefácio, em tintas transparentes, nada rui; antes, se constrói. Ali está a base sobre que se assenta sua obra literária. É forte e duradoura a argamassa dos alicerces, vocação e talento capazes de prometer edifício sólido e harmônico. Conheço seu trabalho, de outros carnavais. Sem Momo, com muita fantasia e – espero – sem surdos. Sem fantasia não se faz literatura. Muito menos, Vida. Aos surdos passa despercebida a boa mensagem, aquela que da Literatura se extrai. Lido o texto escrito com as cores da paleta de um pintor, a despeito da sugestão nominal – o Machado derruba e faz ruir. Não é esse o caso, porém. A mesma ferramenta, quando provém de boa paleta, também ajuda a erguer. Ainda mais quando tem boa matéria-prima. É o caso. Passei à sua apresentação. Prova de que o autor nem sempre disse tudo o que gostaria, nos textos seguintes. Nem caberia dizê-lo, como se sabe. Pois já nessa primeira parte de sua obra encontro mote para nossa conversa. Começo por aplaudir seu conhecimento a respeito de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, o João do Rio. Não sei se encontrarei mais que uma dúzia de pessoas que ao menos já ouviram falar dele, o jornalista Paulo Barreto, do início do sec.XX (1881-1921), nesta Manaus de 2023. No entanto, João foi um dos primeiros cronistas do jornalismo brasileiro. E o próprio inventor do jornalismo investigativo no País. Figura tão controversa e vária, quanto estava no avesso do modelo cultivado por nossos antecessores da belle époque. Preto, homossexual, abdominoso, não era rico apenas no estilo, na disposição para a polêmica e no longuíssimo nome, quase um aristocrata na forma. De vestir-se, identificar-se, viver. Ele o era, também, nas formas como aparecia abaixo do título de seus textos – artigos, ensaios, pequenas notas, peças teatrais. Ora chamavam-no Paulo Barreto; ora, Joe; ora assumia outra identidade, mantendo intocado o texto ligeiro, leve, elegante como devem ser os bons textos. Muito justa sua menção a que João do Rio é do grupo de cronistas da belle époque. Senti muito a falta de alguns cronistas que você chama modernistas. Os que você menciona merecem o título, mas não só eles. Por que ausentes o Rubem Braga, o Paulo Mendes Campos, o Stanislau Ponte Preta ou Sérgio Porto, o Fernando Sabino, o Otto Lara Rezende, o Pongetti? Fico nesses, certo de que alguns outros mereceriam pelo menos a lembrança. Não esqueço, eu mesmo, que Nélson Rodrigues também foi cronista. Especializado em futebol e outros dramas da Vida. Em Fluminense, mais que em tudo.

Comecei, finamente, a ler as crônicas. Sem perder a convicção de que, gênero (ou espécie literária?) de origem atribuída ao Brasil, disso ainda não estou totalmente convencido. Penso, ao contrário do que você afirma, que a crônica nunca está à frente de seu tempo. Pelo simples fato de que ela, fiel a Kronos, é seu próprio tempo. É dele que fala cada cronista. Como o fazia o flâneur João do Rio. A obra A alma encantadora das ruas (Editora Garnier, Paris, 1905) diz tudo. Ou quase.

A leitura seguirá em frente, tudo a seu tempo. Se não lhe incomodo, mais terei a dizer. Disso estou certo, tão agradável e instigadora é a leitura, quando se leem bons autores.

Abraço fraterno.

Seráfico

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*Enviada ao poeta e cronista Pedro K. Kalheiros.

 
 
 

Consulto o pai eterno de todos, o dicionário. Lá aprendo que são dados nomes às coisas para que elas mantenham sua individualidade, sejam conhecidas por suas peculiaridades. Pelos traços e características que os fazem distintos de outras coisas. Logo percebo quanto a abrangência de um termo não é igual à do outro. Se a todos os objetos inanimados podemos chamar de coisas, não pode impunemente receber o mesmo tratamento um ser vivo. Dentre as variedades deste, temos os seres humanos, os outros animais e os vegetais. São animados todos, porque dentro deles há vida, ânima, alma. Por isso, quando falo homem, sei não estar me referindo ao grupo a que pertence ou classificamos os seres humanos. Ou aos vários grupos a que ele se vincula, ao l

ongo da vida. A família, a vizinhança, a escola, a igreja, a organização em que trabalha. Também o espaço geográfico por ele ocupado - o bairro, a zona, a cidade, o Estado, a região e o país. O conceito atribuído a cada um desses espaços reconhece as peculiaridades por ele ostentadas. Dizemos do Brasil que, localizado na porção sul do continente americano, ele ocupa espaço maior que 8 milhões e meio de quilômetros quadrados; esse espaço maior contém 5 regiões, cada uma delas com atributos físicos e culturais distintos, em relação às demais. Quando digo ou escrevo Brasil, é àquele pedaço da América do Sul, não a qualquer outro, que me refiro. Se falo da Amazônia, eu e meu interlocutor não temos dúvida a respeito da abrangência de minha abordagem. Escrevi tanto, até aqui, apenas para dizer da minha ojeriza e da minha contida irritação, só de ouvir ou ler a expressão como um todo. A não ser que eu tome todo interlocutor como um ignorante absoluto dos objetos, espaços, relações e circunstâncias de que tratamos. Por favor, poupem-me dessa forma de tortura! Também peço me poupem do uso indevido e confuso de certa expressões inadequadas, além do onde abusivo, que serve para substituir o quando, o em que/no qual, para ficar nestes dois infelizes exemplos. Já nem menciono o saraivada, que deu para qualificar ações que nada têm a ver com a palavra. O verbo assolar tem tido semelhante serventia. Ou o nome das coisas não tem a menor importâ ncia?.

 
 
 
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