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O Ministério da Justiça acaba de ver ampliadas as funções que lhe cabem, como parte integrante do aparelho estatal. Ou seja, como função permanente do Estado, e segundo os limites e espaços que lhe reserva a Constituição Federal. Com isso, e com a reserva desse novo exercício funcional ao próprio titular da Pasta, talvez a este faltará tempo para tratar dos assuntos que interessem à sociedade, não a um ou outro dos societários. Refiro-me à designação do quase oculto auxiliar do Presidente da República para assistir o presidiário Roberto Jefferson, de início resistente a uma determinação do Poder Judiciário. Para a casa em que o apenado gozava as delícias da suposta perda de liberdade, Anderson Menezes foi designado, com a missão de intermediar as negociações dos agentes da Polícia Federal com o ex-deputado amigo do Presidente. Devido à reação da sociedade, o Presidente sentiu o golpe(ops!) e atribuiu ao seu amigo, em ostensivo exemplo do mais vil oportunismo, o título de bandido. Neste caso, não o bandido bom, que ele deseja sempre ver morto. Mas um bandido como tantos outros, sem um gabinete ou uma casa em Atibaia para se esconder. Ninguém se admire se outros bandidos, dentre os que cercam o Presidente ou não, exigir a mesma deferência dispensada a Roberto Jefferson. Aí, o dia do Ministro da Justiça (trágica ironia!) precisará ter 48 horas.

 
 
 

Não sei seu nome

menos ainda em quem

você vai votar

isso pouco me interessa

a decisão é sua


não sei qual sua religião

eu mesmo não a tenho

contento-me em respeitar todas elas

todos os deuses

sobretudo quando encontro

fidelidade nos que os dizem

seguir


tenho a boa vontade

exigível dos que se dizem

animais superiores

construtores da igualdade

da solidariedade fraterna

da paz necessária

ao convívio de seres

que mereçam ser chamados

humanos


tudo isso me faz pensar

mais desvairado e utópico

isso possa parecer:

você não esqueceu

das torturas sofridas

por um homem

que andava pela Judeia

porque não o agradava

como os poderosos tratavam

seus irmãos


não sei se você perdeu

mas é quase certo que

isso tenha ocorrido

um pai a mãe

um filho a mulher

ou talvez o marido

um amigo estimado

quem sabe um irmão?

mesmo um vizinho

a quem apenas dava

um bom dia

um boa tarde

um boa noite

porque a ele

foi negado o oxigênio

que o traria de volta

à vida que se esgotava

no leito – ou na porta

de um hospital


também o sinto sensível

à morte do irmão

que nunca viu

nem com o qual

tenha trocado apenas uma palavra

tão irmão quanto o é

(quem sabe até mais?)

do que traz nas veias

o mesmo sangue

que lhe garante

viver


O que penso

tenho até certa certeza

é quanto lhe é doído

pensar que seu filho

ou neto

- afinal nem sei sua idade

poderá não ter escola

nem o remédio que curará

os males dele

com os quais virão

para você males

ainda maiores


quanta tristeza adivinho

em seu olhar e em seus gestos

porque desocupado ele

não terá onde ganhar

o pão que se diz de

cada dia

se a fome bate

à porta de todos

e dos que a têm

se aproximam

lobos ferozes

cujo apetite

nem você nem eu

sequer conseguimos avaliar


Duvido que você

enxergue a cor do seu irmão

fazendo dela motivo

para negar-lhe o de que

os mais selvagens dos animais

da floresta

não privam os de sua

própria espécie


não me passa pela

cabeça tê-lo

como proprietário do sentimento

do conceito e da prática

do Amor

tornando-o abjeto

objeto das relações

humanas

que de humano nada

têm


não conheço seu

passado

tanto quanto seu futuro

do meu não me envergonho

porque remorsos

não trago

mas estou certo

(certíssimo melhor dizer)

de que eu e você

temos algo que nos

faz próximos

mesmo se vivêssemos

em calotas opostas

desse mundo

de que não se conhece

o fim...

do nosso sabemos nós


por isso lhe peço

qualquer que seja

seu pecado

varra o ódio de seu caminho

troque a arma de fogo

use suas mãos

para o carinho

construa pontes

derrube o muro

o passado não se constrói

construído ele está

purgue suas culpas

com as ações

que podem levar

a um bom futuro.


Manaus, 21 de outubro de 2022.






 
 
 

Os fatos políticos se vão esclarecendo, na mesma medida em que as previsões se tornam mais fáceis. A claridade posta sobre acontecimentos que convém a um lado e outro esconder acaba por abrir a mente dos incrédulos e aguçar a percepção dos outros. Assim, mesmo desinformados e ingênuos não têm mais como pretextar vãs razões para fazer do seu voto o exercício do suicídio como nação e, no limite, também como indivíduos. Aumenta, assim, a multidão de arrependidos, acompanhados pelos mais fundamentados motivos, mas também pelas mais pueris razões. Importa pouco isso, dado que sempre haverá a oportunidade de refazer conceitos, desviar precipitados julgamentos e superar as duas coisas tão bem exploradas pelas partes em confronto. Isso faz bem, tanto aos arrependidos, quanto à sociedade. É justo esperar, portanto, que o conceito do Poder Judiciário vá aos poucos se recompondo, porque a contumácia com que agem certos agentes criminosos fica exposta. Refiro-me, especialmente, à volta à Penitenciária do ex-deputado Roberto Jefferson, que levou à prática, a seu modo, a tentativa de intimidar agentes da Polícia Federal, no exato cumprimento de seu dever legal. Todos eles estavam ali, munidos de mandado judicial, para fazer cumprir determinação do ministro Alexandre Moraes, autoridade competente para expedi-lo. Não para levar pela primeira vez o já condenado indivíduo para a cadeia, mas porque as condições que o levaram à prisão domiciliar foram simplesmente descumpridas pelo presidiário, preso em sua própria residência. (Aqui, talvez, uma inadequabilidade do instituto, pela diferença jurídica entre residência e domicílio). Voltemos, porém ao que interessa. Há quem veja na resistência armada de Jefferson ao grupo de agentes da PF ato vinculado à tentativa de auto-golpe de que há muito o Presidente e seu vice-Presidente vêm falando. Jefferson teria sido, assim, uma espécie de percursor, e usuário de palavras e meios que passaram a frequentar o ambiente político brasileiro, ainda que isso não seja coisa recente. Para quem tem memória, ainda estão vivos certos acontecimentos que, agora se pode enxergar

com maior clareza, têm a ver uns com os outros. Importa pouco ou nada a distância temporal entre eles. Convém alinha-los, mais para despertar nos interessados o desejo de descobrir os nexos e avaliar a gravidade do momento por que agora passamos. 1. a tentativa do então tenente em mandar pelos ares a usina de abastecimento de água da cidade do Rio de Janeiro; a ainda hoje não suficientemente explicada absolvição do envolvido no ato terrorista planejado, que o general Ernesto Geisel e outros colegas consideravam um mau militar; as frequentes declarações do atual Presidente, como parlamentar, confessando que o de melhor aprendido em sua vida teria sido o ato de matar; o lamento pelo golpe militar-empresarial de 1964 não ter matado pelo menos 30.000 pessoas, dentre as quais - a isso ele deu destaque - o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso; o culto às armas e a defesa intransigente, ainda que tosca e descabida, de conhecidos desordeiros, milicianos, matadores e outros de extenso e numeroso rol de delinquentes; a menção à guerra civil como uma aspiração pessoal; a facilitação do comércio, aquisição, porte e uso de armas de fogo, ainda mais cobertos pelo afastamento das Forças Armadas do controle de arsenais hoje em mão de milicianos, colecionadores e caçadores supostamente esportivos etc.. Nem menciono constar de sua folha de maus serviços a corrupção deslavada e ousada (isso se há de constatar, absurda que seja) com que age, de que o orçamento secreto é peça quase adicional. O uso de dinheiro público para comer gente, como ele o disse; as rachadinhas como prática prolongada; a tentativa de comprar vacinas com o recebimento de propina por agentes públicos que o servem; o pagamento por sua família de imóveis com dinheiro vivo, como se essa fosse a prática do mercado; o depósito de cheques na conta de sua mulher - tudo isso, e mais que não cabe aqui mencionar, tem a ver com a ação supostamente individual de Roberto Jefferson. Também deixo de fora deste comentário as reiteradas ofensas ao Poder Judiciário e às mulheres, membros da comunidade LGBTQI+A, pretos, quilombolas e pobres em geral. Mesmo palavras que a muitos sugerem certo pendor à pedofilia, ficam de fora, pois aspectos menos próximos do que entendo por políticos nem sempre podem ser misturados com as taras pessoais. Ao delegado de Polícia mais próximo cabe ir atrás dos que violam as leis penais. Se tudo for feito com a observância do devido processo legal, desmontam-se os golpes em curso e desmascaram-se os agentes de tanta crueldade e perversão.

 
 
 
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