top of page

Todo animal acuado encontra força de que nem se suspeitaria, quando se vê sob intenso risco. Dentre os instintos, o de conservação parece o mais conhecido. Em geral manifestado quando a vida está sob ameaça, o animal inconsciente o usa e frequentemente consegue por-se a salvo. Creio ser esse um raciocínio indispensável à adequada compreensão da conduta do quase ex-Presidente da República, diante dos últimos acontecimentos. Em especial, a baderna realizada em várias cidades brasileiras, a pretexto de pedir um golpe militar. No primeiro dia - o terceiro, contado o dia da eleição - depois do sono quase letárgico a que se entregou, o candidato derrotado deu dúbio recado. Timidamente, pediu que seus fanáticos seguidores ficassem dentro das quatro linhas. Com mais vigor, atribuiu a baderna à indignação que ele mesmo achou justa. A dubiedade mostrou-se não mera estratégia, pelo menos na percepção de seus fiéis defensores. Soou à abertura de mais uma porteira, como o confirmou a mobilização dos que o general Castelo Branco chamou "vivandeiras", a rondar os quartéis e atiçar o que o primeiro dos ditadores denominou "granadeiros". Quando ainda não havia entrado em cena o mais ostensivo deles, ora metido numa cela do Presídio de Bangu. Pois bem, depois de domingo o tom do derrotado mudou. E não terá sido porque repentinamente bons e altruísticos propósitos o tenham inspirado. De tão profunda e paradoxal teria sido a mudança, que ninguém a poderá levar a sério. Pode-se apostar com maior probabilidade de acerto na percepção do ex-capitão da gravidade de sua situação. Ainda mais se entrar nas contas a visita feita no dia posterior ao STF. A partir de 1 de janeiro de 2023, o fanfarrão ficará exposto às ações policiais e judiciais que o elenco de delitos por ele praticados justifica. E não faltará quem as cobre do governo, sob a batuta de Lula. Não se tratará de retaliação, menos de fazê-lo provar da vingança, prato que se come frio. O dever de investigar e de propor ações punitivas, se negligenciado, implica cometimento do crime de prevaricação. Este, a propósito, também incluído no rol dos delitos a serem considerados. O mandato não alcançado agora corresponde ao habeas-corpus tão necessário a ele. Essa a tabuada com que foram feitas as contas do quase ex-Presidente.

 
 
 

Uma das dificuldades mais notáveis, enfrentadas pelo Presidente que as urnas devolveram ao ócio consistiu no preenchimento de milhares dos postos da administração pública. Ainda mais, quando o prolongado exercício parlamentar do eleito em 2018 se caracterizou pela obscuridade. Lá, mesmo pertencendo ao baixo clero, o ex-capitão não chegou a ter qualquer destaque. Nem parece ter conseguido superar o isolamento experimentado no meio parlamentar, com a inserção em ambientes que àquele se pudesse assemelhar. Pelo menos, quanto à possibilidade de contribuir positivamente para a sociedade. Ao contrário, os vínculos mais fortes do quase ex-Presidente têm representação em figuras como Fabrício Queiroz, Brilhante Ulstra, Richard Assef, Eduardo Pazuelo, Sérgio Moro, Ricardo Salles, Damares Alves e tantos outros hoje à volta com as autoridades policiais e judiciárias. Essa carência de bons quadros em torno de si levou o então recém-eleito Presidente a colher nas forças armadas parte substancial de seus auxiliares. A alguns desses não foi suficiente saber das anotações oficialmente registradas nos livros militares, para recusar o convite. É possível até que alguns desses camaradas da maior autoridade ignorassem o conceito que o general Ernesto Geisel tinha dele - um mau militar. O fato, porém, é que muitos dos que acompanharam e acompanham ainda o Presidente acabaram por se deixar contaminar por algumas das más qualidades do chefe. Pior, por alguns dos maus valores de que seu líder é portador. Os mesmos valores que o fazem próximo - e, o que é pior - protetor de delinquentes contumazes. E perversos.

 
 
 

Depois de esconder-se por quase 48 horas, mal iniciados os festejos populares que sua derrota motivou, o candidato à reeleição decidiu falar. Muito a seu modo, o ex-capitão acabou reconhecendo a vitória do opositor. Não perdeu o escasso tempo de seu mini-discurso para repetir o comportamento civilizado que se conhece, quando outro é o derrotado. Na verdade, ratificou o que dele se sabe, além do que dele se suspeita. Antes, o reconhecimento da vitória de Lula já fora antecipado por pelo menos duas figuras importantes do seu (des) governo. A começar pelo vice-Presidente da República, que inclusive convidou o vice eleito, para visitar o Palácio do Jaburu. É lá que Geraldo Alckmin residirá. Outro foi o Ministro Chefe da Casa Civil, senador Ciro Nogueira. A presteza com que essa autoridade tratou das providências relativas à transição valeu como o primeiro gesto de resignação diante da vontade contida nas urnas. Do recolhimento do derrotado talvez tenha decorrido o pacote de bondades com que o dono do PL o contemplou. Além do salário, o já ex-Presidente terá garantido um dos itens indispensáveis da sua cesta - o pagamento de advogados. A estes não faltará muito trabalho. Quanto à rejeição ao bloqueio das rodovias, ele o mencionou sem ênfase e de forma dúbia. Tentou até passar panos quentes, pretextando que era demonstração para contestar o resultado eleitoral. Não foi a primeira vez em que sua voz verbalizou solidariedade a atos delinquentes e seus agentes. Nem se poderia esperar dele coisa melhor. Pode-se prever que ele passará os próximos quatro anos dedicado em tempo integral à campanha política. Que também se pode esperar mais difícil que as de 2018 e 2022. Só que as disputas iniciais se travarão entre ele e os projetos de liderança direitista já postos em cena. Tarcísio Freitas, Zema, Eduardo Leite e Otávio Hamílton Mourão parecem estar no páreo.

 
 
 
bottom of page